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Mostrando postagens com o rótulo CRÔNICAS

Tombamento de Carreta na Rodovia: sobre a hierarquia das dores

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   Tombamento de Carreta na Rodovia: sobre a hierarquia das dores Crônica publicada no livro "Revelar-se Autor", da  Academia de Letras dos Professores (ALP)  da Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura de São Paulo.   Informou-me o pragmático rádio no caminho para a escola em que leciono: uma carreta tombou no trecho oeste do Rodoanel. Há trânsito na região. A trágica notícia da manhã era, obviamente, sobre o trânsito. O conteúdo da carreta, porcos vivos, era apenas um detalhe editorial perante a magnitude da hedionda maximização do pesar matinal dos motoristas, do horror cotidiano do trabalhador citadino. Mais trânsito! Maldita carreta! Maldito trânsito! Maldito dia! Durante a sequência de meu percurso, duas dúvidas angustiaram-me: os motoristas que passavam pela rodovia no momento do acidente enxergavam porcos agonizantes ou desperdício de linguiças? E, para os porcos, teria sido melhor o terror de morrer sob os escombros da carreta ou terem sobrevivido...

Os Porcos Gadarenos

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   Hoje, em meu trabalho, participei de uma oficina de escrita. O professor pediu que escrevêssemos um pequeno conto em cinco minutos. Ele deveria conter um personagem humano e outro animal, com um conflito entre eles. Escrevi: Os porcos andavam tranquilamente em um dia de Sol. Assustaram-se, então, com os modos obtusos daquele homem em prantos. Quando deram por si, era tarde: o messias já havia operado e estavam caindo do precipício.             Em seguida, o professor requereu alguns dos textos para ler em voz alta. Disponibilizei o meu. Após sua leitura, a turma riu muito, agraciada pelo desfecho. Tal riso me soou estranho ou insensível com o desespero dos porcos. Não compreendi o motivo das risadas. Tal incompreensão, contudo, durou poucos segundos, apenas até alguém dizer: “ o título poderia ser oito de janeiro! ”. Entendi: associaram porcos com bolsonaristas e o messias com o Jair Messias. Nesta chave de ...

Omelete de domingo: uma memória familiar (crônica)

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Muitas vezes, no início de minha adolescência, entre 12 e 13 anos de idade, meus pais deixaram-me na casa de meus avós para passar o final de semana. Um dos momentos que eu mais gostava era o almoço de domingo, quando meu avô levava-me para a cozinha para fazermos juntos um omelete. Omelete de queijo e presunto, normalmente. Era um grande momento em família. Um de meus preferidos, no qual meu avô instruía-me com dicas de higiene e de manipulação dos alimentos. Meu alegre momento em família, vim a saber alguns anos depois, era, em realidade, um momento de destruição de famílias. Destruía-se famílias de galinhas, aprisionadas e escravizadas, cujos ovos, a maneira pela qual reproduzem e geram famílias, eram roubados. Destruía-se famílias de vacas, aprisionadas e escravizadas, cujos filhos, necessários para que produzam leite, eram roubados e muitas vezes mortos ainda infantes. As mães eram então novamente engravidadas à força, e seguiam como máquinas produtoras de leite para o humano dele...

Educador vegano: a contemplação do abismo

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  Educador vegano: a contemplação do abismo Desde que me tornei vegano em 2003, passei a expor para as pessoas, de modo racionalmente concatenado, o absurdo que é o tratamento dado aos animais pela humanidade, revelando o que está oculto por trás do bife, do omelete ou do milk shake. Argumento sobre a senciência, o sofrimento e a escravidão. Mostro imagens e vídeos que revelam o grau insano da tortura perpetrada pela humanidade a cerca de um trilhão de animais todos os anos. O resultado: a quase totalidade das pessoas, após entenderem meus argumentos ou olharem para os rostos de animais agonizantes em fotos e vídeos, em nada mudam seus hábitos. Tais pessoas deixaram de ignorar a crudelíssima realidade dos animais escravizados pela humanidade: agora praticam o mal conscientemente. Sim,  eles sabem o que fazem. Conheci, inclusive, pessoas que foram veganas, e até ativistas, tornarem-se ovolactovegetarianas sabendo perfeitamente todo o sofrimento em jogo no leite e no ovo. Conhec...

Caneca de Osso? Também tem! (Crônica, 2016)

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                        Uma aluna quis dar-me um presente de final de ano. Disse-me:           - Foi difícil escolher algo porque o senhor é vegano. Mas como o senhor está sempre bebendo café na aula, trouxe uma caneca .           Canecas me preocupam de antemão, dada a possível presença de chumbo. Levei-a para casa, onde li o texto presente em sua caixa. Material: bone china.           Pesquisando, descubro: tipo de cerâmica feita com 30 a 50% de cinzas de ossos de animais. Mais um exemplo da infinita sequência de aberrações e perversidades humanas. Meu presente especialmente escolhido para um vegano era feito de animais mortos, descarnados e incinerados. Em todas as partes, por todo canto, toda a violência dos sapiens resplandece.

Apenas mais uma manhã (Crônica, 2016)

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Hoje, mais um dia útil. Vou para o trabalho. Cedo. Seis da manhã. Cruzo municípios, como todo dia. Como todo dia, observo o mundo e sou obrigado a observá-lo. Na rodovia, meu dia inicia-se com um cão atropelado ao meio-fio. Morto. Paisagem cotidiana para quem cotidianamente circula em estradas. Sigo. Rádio ligado em uma estação de notícias. Entrevista com o criador de uma franquia de açougues gourmets. Impressionante como consegue falar com tanta tranquilidade de seus “negócios” sem a mais remota consideração sobre o óbvio fato de que seu “produto” são animais e que animais não são coisas inanimadas. Ele lembra, com orgulho, da postura de seu pai, pecuarista, que, em seu empreendedorismo diferenciado, possuía a nobre postura de olhar para o boi pensando na carne, não apenas no ganho de peso. Em seguida, outra entrevista. Um pesquisador que trabalha no desenvolvimento de uma vacina contra o vírus Zika relata objetivamente o processo da pesquisa. Haverá testes em ratos e pri...

O animal e a lâmina (crônica)

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Dia desses, utilizando uma famosa camiseta de ativismo vegano defronte ao espelho, após anos de prática vegana, percebi pela primeira vez que o reverso da palavra animal é lâmina. Lâmina! (O acento foi colocado pela minha imaginação. Mas o que é um acento numa hora dessas?). Uma bomba matinal para um vegano metido a escritor. Deveria eu levar mais a sério os colegas dialéticos, para os quais o oposto de algo já está no algo, o aniquilando na geração de outro algo? Não sei... a lâmina está no animal, mas, normalmente, de início está apenas em um animal, que a faz, então, estar nos demais. É dialética quando a negação parte de um corpo diverso ao corpo que sofre a ação, mesmo que todos sejam, em realidade, partes de um mesmo todo - animais? Também não sei e, sabiamente, decidi não prosseguir tal elucubração. Algo mais profundo chamou-me: a imagem da lâmina, aniquiladora do animal, estar no próprio animal, o contrariando, lá, no íntimo de seu substantivo, arrebatou-me instantaneamente. ...

12189

12189    Desde que mudei para cá, minha nova toca de concreto, preocupo-me com a existência daquele terreno baldio bem às vistas de minha janela, sabendo já do interminável ruído que em breve será minha vida nesta cidade em constante construção. Nesta preocupação, digna da humana arrogância, não vi. Duas árvores, solitárias, em meio à terra pelada, batida, exposta. Terraplanada como nossos sentidos. Esta manhã – como que por uma preparação cósmica, lendo De Profundis – invadiu minha sala um motor. Tentando localizar o displicente motoqueiro, eis que vejo três homens. E sua serra. Ao olhar, a primeira, já praticamente decepada, revelou-me a tragédia da queda. * Ontem li que entre 1º de janeiro e 30 de abril, 12.187 árvores foram assassinadas em São Paulo. Mais duas. Prossegue assim o processo de empedramento da existência. Como um exemplar da espécie, lamento. De meu apartamento.   Quarta-feira, 1 de junho de 2011

A vegana arte de apreciar obras de arte (crônica)

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Certeza tenho de que a vida vegana é algo bom. Mas, dado esse olhar, o incômodo segue-me onde quer que eu vá. A vida é um grande espetáculo de dor e violência.Tenho culpa se a normalidade é tão assombrosa? Sou ranzinza pela violência ser o status quo? Adoro música clássica e às vezes vou a concertos, durante os quais, mesmo estando com a mente a anos-luz de distância, inebriado por todo aquele som, aquelas dezenas de instrumentos em acordo, levado por relevos sonoros inimagináveis, há sempre algo me cutucando os neurônios: esses arcos são feitos com crina de cavalo! Incômodo que perdura mesmo na mais delicada sinfonia. E fico pensando: o que mais deve haver de origem animal nesta orquestra? Será que estes instrumentistas capazes de toques tão doces são devoradores de cadáveres? Será que eles festejam uma boa temporada com um grande churrasco? E as crinas? Não há outro modo? Dizem que os materiais sintéticos não produzem um som tão bom. Mas vos pergunto: e o que o cavalo tem a ver com i...

Um vegano na festa (Crônica, 2009)

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- Mas eu não como muita carne. E mais peixe. Conheci Pedro em uma festa e essa foi a última frase que me dirigiu. Por que obtive tal resposta, eu não sei. Estava apenas respondendo sua pergunta sobre o porquê de não achar eticamente correto se alimentar de animais. Ou melhor, tratar os animais como propriedade, cercear suas liberdades, impor-lhes sofrimento. De qualquer forma, essa foi a última frase que me dirigiu. Talvez tenha estranhado meu longo silêncio. Demorei pra responder ao Pedro pois tentei entender o que significa “não muita”. Dizem que em uma cadeia americana um colega de corredor de Charles Manson jurava ser mais nobre por ter matado três pessoas a menos. O carcereiro, ouvindo, os achava demoníacos. Quando queria alguém morto, pagava por serviços profissionalmente estabelecidos. Não seria certo matar com as próprias mãos. Às vezes, sim, precisava executar poucas pessoas, mas sempre por mandato das instâncias governamentais superiores. Legalmente correto, o que...