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Gestão de riscos (conto)

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Gestão de riscos Jazia ali, sobre a mesa, agora inerte, o corpo do Aedes. Movimento impensado, mas não por afobamento ou descuido: há automatismos que independem, ontologicamente, de julgamentos, como piscar os olhos ou arrumar o corpo em uma cadeira. Certos episódios coagem almas contemplativas à interação. Nesse caso, indagou ela ao agente sanitizante: -        Por que o matou? -        Dengue. -        Mata-se quem transmite doenças? -        Sim. -        Hum… e se você me passar gripe? -        Não sou inseto. -        Sei… Mas são todos transmissores? -        Alguns. -        E por que matou este? -        Pode transmitir. -      ...

Meandros e Margens: um posicionamento ético

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   Meandra o mundo quando deveria saber impor margens, especialmente éticas. Impõe margens o mundo quando deveria saber navegar por meandros. É preciso respeitar os limites das necessárias margens éticas, sabendo, ao mesmo tempo, investigar os meandros por elas contidos. Esse exercício perceptivo e cognitivo nos ajuda a fugir tanto do relativismo quanto do absolutismo dominantes - duas formas de abrir a guarda para descalabros éticos.  

Compaixão e senso de justiça para além do Orelha

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  Compaixão e senso de justiça para além do Orelha   Se está horrorizado(a) e revoltado(a) com o caso do cão Orelha, isso quer dizer que você ainda possui alguma compaixão e senso de justiça, e entende que seres sencientes (que possuem sensibilidade e consciência) não podem ser tratados de formas que os façam sofrer. Sendo assim, por que seguir ignorando a escravidão, a tortura e o assassinato de cerca de cem bilhões de animais terrestres e mais de um trilhão de animais aquáticos todos os anos para suprir o desejo humano pelo gosto de seus corpos? Essa reflexão deveria parar por aqui, dado que não deveríamos nos dar o direito de tomar posse de seres sencientes, escravizá-los e matá-los. Mas se essa reflexão não te atinge, e você crê que há uma diferença substancial entre o caso do Orelha - que nunca seja esquecido e que o pagamento por seu sofrimento seja cobrado! - e os animais que se tornam comida, incomodando-se apenas com este caso específico dado o grau da tortura...

Moralidade: entre a razão e a sensibilidade

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Moralidade: entre a razão e a sensibilidade Códigos morais entregues prontos, inquestionáveis, por corpos de ideias quase monolíticos, como religiões, ideologias políticas ou tradições culturais, usualmente carregam, ainda que junto com moralidades dignas e sábias, uma série de visões imorais que são moralmente aceitas pela sociedade, dado que constituem o código moral de tais corpos de ideias - o que podemos chamar de “simulacros éticos” ( leia mais sobre esse assunto aqui ). Dada tal realidade, o presente ensaio parte da hipótese de que a razão poderia nos munir com a capacidade de navegarmos pelos meandros das nuances e nos ajudar a não encalharmos nas fronteiras das polarizações obtusas, ou seja, que a razão poderia servir como guia para a reflexão ética (leia mais aqui) , de forma que não caiamos nem no absolutismo moral de costumes tradicionais, religiosos ou ideológicos irrefletidos (e, portanto, relativo às tradições, religiões e ideologias seguidas, ou seja, absolutismos rel...

Nota sobre o antropocentrismo ambientalista

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Em artigo  da Associated Press publicado pelo site de notícias G1 em 07/11/2025 [1] , lê-se como título: “ Mineração em alto-mar pode colapsar cadeia alimentar dos oceanos, alerta estudo ”. O título, portanto, traz um alerta, uma denúncia: a mineração em alto-mar pode matar os seres vivos marinhos. De fato, uma tragédia - mais uma no menu de tragédias propiciado pela humanidade. Seu subtítulo complementa a informação, esmiuçando-a: “ Pesquisa publicada na Nature Communications mostra que resíduos liberados durante a extração de minérios nas profundezas do mar podem afetar o plâncton e, em cascata, a pesca mundial ”. De acordo com a lógica do texto, exposta em seu subtítulo, qual é, então, o cume do problema? Qual é o problema de estarmos matando os seres vivos dos oceanos por via da mineração? Não poder matá-los no futuro por via da pesca. Óbvio! Faz todo o sentido: o maior problema de matar agora é que não poderemos matar depois! E o modo de matar, isso muda tudo, não é? Matar pel...

Tombamento de Carreta na Rodovia: sobre a hierarquia das dores

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   Tombamento de Carreta na Rodovia: sobre a hierarquia das dores Crônica publicada no livro "Revelar-se Autor", da  Academia de Letras dos Professores (ALP)  da Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura de São Paulo.   Informou-me o pragmático rádio no caminho para a escola em que leciono: uma carreta tombou no trecho oeste do Rodoanel. Há trânsito na região. A trágica notícia da manhã era, obviamente, sobre o trânsito. O conteúdo da carreta, porcos vivos, era apenas um detalhe editorial perante a magnitude da hedionda maximização do pesar matinal dos motoristas, do horror cotidiano do trabalhador citadino. Mais trânsito! Maldita carreta! Maldito trânsito! Maldito dia! Durante a sequência de meu percurso, duas dúvidas angustiaram-me: os motoristas que passavam pela rodovia no momento do acidente enxergavam porcos agonizantes ou desperdício de linguiças? E, para os porcos, teria sido melhor o terror de morrer sob os escombros da carreta ou terem sobrevivido...

Aprimoramento ético: a razão basta? O caso do veganismo

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   Aprimoramento ético: a razão basta? O caso do veganismo Rumino em vão O reinado do absurdo Trança a razão Acredito que a melhor forma de se criar balizas éticas coerentes é pelo exercício da razão, buscando-se as melhores maneiras para que geremos a mínima imposição possível de sofrimento e aliviemos o máximo possível de sofrimento desnecessário ou injustificável. Esse esforço criou, por exemplo, argumentos de enorme coerência e validade para justificar a necessidade ética do veganismo no mundo contemporâneo. Esses argumentos têm sido compartilhados (com diferentes graus de qualidade) por filósofos, educadores veganos e ativistas nas últimas décadas. Contudo, mesmo que consideremos apenas aqueles divulgadores do veganismo que expõem seus princípios de forma lógica e didática (não considerando os diversos péssimos divulgadores que já representaram o veganismo nos debates públicos), seus resultados sempre foram absolutamente menores do que o desejado. É comum que após uma apr...