Moralidade: entre a razão e a sensibilidade
Códigos morais entregues prontos, inquestionáveis, por corpos de ideias quase monolíticos, como religiões, ideologias políticas ou tradições culturais, usualmente carregam, ainda que junto com moralidades dignas e sábias, uma série de visões imorais que são moralmente aceitas pela sociedade, dado que constituem o código moral de tais corpos de ideias - o que podemos chamar de “simulacros éticos” (leia mais sobre esse assunto aqui).
Dada tal realidade, o presente ensaio parte da hipótese de que a razão poderia nos munir com a capacidade de navegarmos pelos meandros das nuances e nos ajudar a não encalharmos nas fronteiras das polarizações obtusas, ou seja, que a razão poderia servir como guia para a reflexão ética (leia mais aqui), de forma que não caiamos nem no absolutismo moral de costumes tradicionais, religiosos ou ideológicos irrefletidos (e, portanto, relativo às tradições, religiões e ideologias seguidas, ou seja, absolutismos relativistas), nem no relativismo total (e, portanto, também absolutista) de certas posturas contemporâneas pretensamente libertárias (leia mais sobre esse assunto aqui).
Para
refletir sobre a possibilidade de ideais éticos racionalmente embasados, não
obtidos prontos de algum código tradicional, religioso ou ideológico,
emprestemos os termos usados pelo psicólogo James Rest em seus estudos sobre os
processos envolvidos em nossa moralidade:
“segundo Rest
(1992), o comportamento moral ou ético depende de quatro tipos de processos
psicológicos: a sensibilidade moral, o raciocínio moral, o comprometimento
moral e a perseverança moral”. (REIS, 2007, p.37).
Definamos
um pouco melhor:
A sensibilidade
moral é a capacidade de reconhecer uma questão como um problema moral [...].O
raciocínio moral é um processo de pensamento sobre os comportamentos mais
adequados perante determinadas questões éticas [...].O comprometimento moral
consiste na opção por uma determinada ação ética em detrimento de outras ações
consideradas não-éticas [...]. A perseverança moral consiste na força de
carácter e na tenacidade necessárias à concretização das decisões pessoais. (Ibid.,
p.37-38).
O
“raciocínio moral”, portanto, pode ser entendido como a necessidade de
pensarmos sobre nossos comportamentos de modo a conseguirmos distinguir quais
deles são mais ou menos adequados perante cada situação particular, sendo,
assim, um caminho para um pensamento ético nem absolutista nem relativista,
dado que ele teria a capacidade de perceber o mundo empírico e a realidade do
sofrimento para entes específicos e arquitetar ações voltadas para a redução de
impactos negativos ou que gerem sofrimento evitável.
O
raciocínio pode, então, gerar ótimos ideais éticos e apontar para as melhores
práticas possíveis. Contudo, esse é seu limite. Bons textos, bons argumentos ou
bons discursos não modificam automaticamente a moralidade das ações de quem os
recebe.
Há
alguma parcela das pessoas que pode até modificar suas atitudes a partir de
reflexões racionais (próprias ou alheias), mas grande parte das pessoas -
revela minha experiência como educador e ativista vegano - não.
Uma
forma de entender isso, baseando-se no esquema de Rest, acima apresentado, é
que o raciocínio ético costuma derivar da sensibilidade. Ou seja, pessoas com
incômodos morais podem tentar arquitetar racionalmente ideais de comportamento
mais sãos. O problema se encontra no fato de que as conclusões desses
raciocínios, por melhor que sejam, não farão, automaticamente, com que outras
pessoas, sem a mesma sensibilidade ou incômodo, modifiquem seus comportamentos.
Por
exemplo: sabemos atualmente que grande parte dos animais são sencientes -
possuem sensibilidade e consciência -, o que faz com que experienciem
sofrimento. Essa compreensão pode gerar o pensamento lógico de que, se podemos
evitar torturá-los, assim devemos agir: devemos transformar nossos hábitos para
que possamos libertar os animais de um conjunto imenso de torturas físicas e
psicológicas, geralmente finalizadas com seu assassinato. Essa é a proposta do
conjunto de ideias e atitudes conhecido como veganismo. O problema é que a
experiência revela que uma divulgação sobre veganismo, mesmo que com ótimos
raciocínios e fortes imagens e vídeos,
normalmente não afeta a esmagadora maioria das pessoas. Algumas até são
afetadas e podem até vir a chorar, mas, na prática, mesmo essas pessoas
costumam não modificar seus atos. A porcentagem de pessoas que se tornam
veganas após serem expostas a um bom divulgador do veganismo ou a documentários
absurdamente fortes é muito próxima de zero.
O
mesmo acontece com propostas de educação ambiental e com todo tipo de discussão
ética em relação a humanos que envolve algum esforço de alteração nos hábitos
cotidianos das pessoas.
Se o
empecilho ético estiver, então, mais na sensibilidade do que na capacidade de
compreender raciocínios lógicos, isso aumentará o teor trágico da situação,
pois a sensibilidade é ainda mais dificilmente educável do que o raciocínio.
Isso
não significa que as sensibilidades sejam estáticas. Não são. Contudo, ensinar
a alguém empatia, aversão ao sofrimento alheio ou capacidade de se deixar
afetar parece ser uma tarefa ainda mais complexa e misteriosa do que o ensino
de conteúdos e habilidades cognitivas. Como tornar alguém mais compassivo?
A
educação pode expor pessoas a experiências, apresentar discursos, obras de arte
ou textos de diversas naturezas e gêneros, mas não há como saber ou controlar a
maneira como a sensibilidade de cada indivíduo será afetada por tais
experiências.
Ainda,
outras fontes de influência, como a cultura dominante, as experiências
pregressas, traumas, e até mesmo questões genéticas, exercem enorme influência
sobre as sensibilidades.
Talvez
um status quo cultural mais sensível ao sofrimento de todos os entes
ajudasse a moldar a média das sensibilidades, deixando-as naturalmente mais
aptas a desejar ações mais compassivas e bondosas. Isso passaria,
possivelmente, por uma cultura dominante em que a violência e os vícios não
fossem o grosso do entretenimento, a trapaça e o engano não fossem a norma nas
relações humanas e a harmonia e a bondade fossem cultuadas. Porém, considerando
o histórico humano e que as próprias pessoas deveriam gerar e manter tal status
quo cultural, essa realidade é bastante utópica.
Mesmo assim, a educação da sensibilidade e do raciocínio deve ser buscada, ainda que como um caminho obscuro em meio aos penhascos. Mesmo que como uma boia existencial, é preciso que se reconheça o valor de seguir tentando empurrar o mundo, um passo por vez, na direção de normalidades mais éticas, respeitosas e compassivas: uma espécie de "ética trágica".
Algumas
mudanças positivas já ocorreram no mundo, e, se isso serve como algum consolo,
o mundo atual é, em alguns aspectos, menos ruim do que fora em épocas
pregressas. A clássica tragédia, contudo, é que tais mudanças comumente são
epidérmicas - certo verniz de civilidade -, dado que tal mundo melhor, mesmo
com todo o conhecimento científico e filosófico já acumulado, segue massacrando
seus membros, concentrando riqueza e poder, torturando e matando trilhões de
animais anualmente e, possivelmente, esteja caminhando para um futuro
ambientalmente e socialmente catastrófico.
Assim,
contemplar a tragédia ainda vigente, após milênios de reflexões éticas e
experiências dolorosas de todos os tipos, faz com que a experiência da
discussão de ordem ética - não apenas acadêmica/normativa, mas visando
aprimoramentos reais no comportamento humano -, assemelhe-se à contemplação de
um abismo. A tragédia parece ontológica, e sensibilidades aguçadas estão
constantemente ouvindo solitariamente os gritos assustadores ao redor, naquilo
que a maioria chamaria de silêncio.
Referências bibliográficas
REIS, Pedro. O Ensino da Ética nas Aulas de Ciências Através do Estudo de Casos. Revista Interacções, Santarém, Portugal, v. 3, n. 5, 2007. Disponível em: https://revistas.rcaap.pt/interaccoes/article/view/327/283. Acesso em 21 jul. 2021.

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