A necessária dualidade moral na relação humanidade-natureza
A necessária dualidade moral na relação humanidade-natureza*
O
presente ensaio analisa a relação entre a humanidade e a natureza (o que inclui
nossa relação com os demais animais). Para isso, ele caminha por duas vias
morais: uma que nos une às redes ecossistêmicas e outra que barra em nós ações
que, mesmo que naturais, contrariam o senso ético. Como guia para tal caminhada
em duas direções eticamente complementares, recorremos ao conhecimento
científico.
Reaproximando-nos:
filhos do Universo, da Terra e da evolução da vida
Considerando
que, para além de qualquer diferença que possamos ter, habitamos todos neste
mesmo Universo, parece-nos adequado ouvirmos primeiramente o que têm a dizer as
ciências que lidam com tal Universo em sua imensa magnitude, ou seja, o que nos
contam ciências como a astronomia e a cosmologia.
Uma
aposta com tal espírito foi apresentada por Neil Postman como parte de uma
reflexão sobre o currículo escolar:
quando se trata de temor
reverencial, não há nada que se compare com a astronomia”.
[...] Seu estudo inevitavelmente suscita perguntas fundamentais sobre nós
mesmos e nossa missão. [...] A Astronomia oferece confirmação de uma
ideia intuitiva expressa ao longo dos séculos por pessoas de diferentes
culturas. Heráclito escreveu que todas as coisas são uma só. Lao-tzé disse que
todas as coisas são reguladas por um único princípio. O cacique de Seattle da
comunidade suquamish declarou que todas as coisas estão conectadas. [...] A
astronomia, portanto, é uma disciplina chave se desejamos cultivar em nossos
jovens um senso de temor reverencial, interdependência e responsabilidade
global. (POSTMAN, 2002, p.108-111).
Não
é difícil entender as motivações que levaram Postman a tal afirmação. Como
manter uma visão de si mesmo como "o centro do mundo" (egocentrismo)
após uma boa aula sobre a história e o tamanho do Universo, considerando suas
distâncias astronômicas, a quantidade estupefaciente de estrelas e galáxias
existentes e nossa localização periférica em apenas uma galáxia entre trilhões,
orbitando apenas uma estrela nada especial entre sextilhões de estrelas?
A distância média entre
nosso satélite natural, a Lua, e a Terra é de aproximadamente 384.000km. [...]
a distância média entre a Terra e o Sol é de 146 milhões de km. [...] O
gigante Júpiter, de tamanho 11 vezes maior que o da Terra, está a uma distância
5 vezes maior que aquela entre a Terra e o Sol. [...] Plutão [...] está [...]
cerca de 40 vezes mais distante do Sol que a Terra. [...] Nos limites do
Sistema Solar está a região onde se originam os cometas, cerca de 100.000 vezes
mais distante do Sol que a Terra. [...] A uns 4 anos-luz do Sol está ⲁ (=Alfa)
Centauri, a estrela mais próxima de nós. [...] O Sol e as estrelas mais
próximas encontram-se a aproximadamente 30.000 anos-luz do centro desse sistema
estelar do qual fazemos parte. Esse sistema é a nossa Galáxia, [...] que contém
em torno de 100 bilhões de estrelas. (MAGALHÃES, 2000, p.13-14).
Esses
são apenas alguns dados quantitativos entre inúmeros referentes a distâncias e
temporalidades que nos tiram de nossa percepção comum da vida, ou seja, que
forçam uma expansão em nossa espaço-temporalidade normal, cotidiana.
Ao
entrar em contato com a realidade astronômica - por via da educação, por
exemplo -, o mundo nos convida a sairmos de nós mesmos, de nossas próprias
vidas, nossos próprios problemas, conceitos e preconceitos. Essa mediação é
extremamente importante e seria extremamente proveitoso se ela fosse feita nas
escolas, pois podemos ser profundamente modificados ao entrarmos em contato com
dados e comparações espaciais e temporais que façam com que vejamos a nós
mesmos habitando em um mundo no qual pode-se medir distâncias em bilhões de
anos-luz e processos em bilhões de anos.
Nossas
intrigas, divergências, opiniões e trajetórias individuais ganham outro
contorno quando as vemos em relação a tamanhas grandezas. Por mais importante
que sejam nossas vidas, nossas diferenças e nossas opiniões, estamos todos
juntos em um minúsculo ponto do Universo, de um Universo absurdamente maior do
que nós mesmos ou do que nosso planeta (que orbita uma estrela dentre ao menos
cem bilhões de estrelas da Via Láctea, que é apenas uma entre dois trilhões de
galáxias, que unem, no total, sextilhões de estrelas). Sendo assim, um senso de
proximidade e unidade pode surgir do conhecimento astronômico e do ensino de
astronomia. Importantes aprendizados morais e mesmo um profundo senso de
compaixão e proximidade por todos que compartilham essa “poeira cósmica”
conosco pode derivar desse aprendizado.
Além
do reposicionamento que podemos dar às nossas vidas ao entrarmos em contato com
as distâncias e temporalidades astronômicas, vale também considerar que é
raríssima e especialíssima a situação em que, além de haver um Universo, esse
Universo permite a existência de planetas habitáveis. Ainda mais especialíssimo
é o período de tempo em que existe nosso Sistema Solar e um planeta a certa
distância desse Sol que permite, por relativamente longo tempo, a evolução
ininterrupta da vida. Tal tempo, ainda que longo para as referências humanas,
se acabará.
a Terra é única, e
devemos nossa existência a ela. Primeiro, temos uma cumplicidade com o Sol,
nossa estrela-mãe. A energia que vem de lá, e que vem chegando aqui por quase 5
bilhões de anos, é fundamental para a vida.
A Terra fica no que
chamamos de zona de habitabilidade, a faixa de distância de uma estrela onde a
água, se houver, tem chance de ser líquida. A premissa, aqui, é que, sem água,
a vida é impossível. (GLEISER, 2019, p.123)
Somos
todos filhos dessa brecha temporal e espacial, desse encontro entre incontáveis
variáveis que permitiram que, por algum tempo, estejamos todos aqui. Essa
delicadeza de nossa condição comum, temporária, extremamente dependente de
incontáveis condições sobre as quais não possuímos nenhum poder, poderia nos
aproximar. Nossas diferenças são ínfimas perto da grandeza desse Universo e da
chance quase impossível de que estivéssemos aqui.
Ainda,
a Terra é feita do mesmo material de que é feito o Universo, especialmente de
matéria produzida no interior de estrelas que, após morrerem, dispersaram tal
material. Nós, seres vivos, somos feitos do mesmo material de que é feita a
Terra e, portanto, as estrelas. Somos, portanto, filhos do Universo. Nas
palavras de Carl Sagan (2006, p.31):
[...] à exceção do
hidrogênio, todos os átomos que compõem cada um de nós - o ferro no sangue, o
cálcio nos ossos, o carbono no cérebro - foram fabricados em estrelas vermelhas
gigantes a milhares de anos-luz no espaço e a bilhões de anos no tempo. Somos
feitos, como gosto de dizer, de matéria estelar.
Ou ainda, nas palavras de Dawkins:
Ao decompor a luz
estelar em espectroscópios, ficamos sabendo que as estrelas são fornalhas
nucleares, fundindo hélio a partir do hidrogênio que predomina na sua massa;
depois aglomerando os núcleos de hélio na cascata posterior de impurezas que
formam a maior parte do resto dos elementos, forjando os átomos de tamanho
médio de que somos finalmente feitos. (DAWKINS, 2000, p.79)
Saber
que somos feitos da mesma matéria não apenas que dos demais seres vivos, mas da
Terra e das estrelas, pode, se essa informação for bem mediada (por um bom
professor, por exemplo), gerar um enorme senso de proximidade e familiaridade
com todo o Universo, com todo o planeta e com todos os seres que aqui habitam.
Ainda,
além de sermos filhos do Universo, somos também filhos da Terra e de toda a
história da vida neste planeta, e essa percepção também deve direcionar nossa
mentalidade e nossa moralidade.
Derivamos
dos bilhões de anos do Universo e também dos bilhões de anos de existência e
transformação do planeta Terra. Parece-nos essencial que vivamos o cotidiano
com essa abertura temporal em mente.
Assim como um
microscópio ajuda as nossas mentes a penetrar pelas galerias estranhas das
membranas das células, e assim como um telescópio nos eleva a galáxias remotas,
outro modo de sair da anestesia é retroceder, na nossa imaginação, pelo tempo
geológico. (DAWKINS, 2000, p. 27)
Sair
da anestesia, nas palavras de Dawkins, é perceber a magia presente no mundo a
nossa volta como se fôssemos poetas, mas a partir do que as ciências nos
mostram sobre tal mundo. Considerando o interesse do presente ensaio, podemos
traduzir o "sair da anestesia" não apenas como apreciar o mundo que
nos rodeia, mas, principalmente, como nos perceber sendo partes de redes
incomensuráveis de relações que formam isto que chamamos de "mundo" e
perceber o quanto isso deve moldar nosso comportamento, ou seja, nossa
moralidade. Assim é com o conhecimento astronômico e assim é com nosso olhar
para a história de nosso planeta.
Seguindo
o curso de nossa história, irmana-nos não apenas o Universo e o planeta, mas
toda a vida que aqui se desenvolveu a partir da mesma matéria cósmica e
estelar.
A Terra tem uma idade
aproximada de 4,53 bilhões de anos. Nos primeiros 600 milhões de anos, a
situação aqui era bem dramática, com bombardeios constantes vindos dos céus,
colisões de asteroides e cometas que "sobraram" durante a formação
dos planetas e das suas luas. Esses visitantes trouxeram toda uma gama de
compostos químicos e muita água, ingredientes da sopa que, em torno de 3,5
bilhões de anos atrás ou mesmo antes disso, daria origem às primeiras criaturas
vivas. Essas criaturas, muito simples, eram seres unicelulares do tipo
procariotas. Vemos fósseis deles em algumas rochas bem antigas, como as
descobertas na costa oeste da Austrália, na Baía do Tubarão. (GLEISER, 2019,
p.124)
Além
de filhos do Universo e da Terra, somos, portanto, também filhos dessa história
da evolução da vida nesse planeta, que se iniciou há mais ou menos três bilhões
e meio de anos. Esse fato, por tratar de seres vivos e suas relações (ou seja,
nós), tem potencial para modelar com ainda mais força nossa moralidade.
No
primeiro bilhão de anos em que houve vida na Terra, pouco mudou. Não houve
grande variedade nas espécies. Contudo,
A Terra foi se
resfriando, os oceanos já bem formados, e regiões com terra firme foram
cobrindo pequenas partes da superfície. Foi então que, em torno de 2,4 bilhões
de anos atrás, esses seres unicelulares passaram por uma ou mais mutações
fundamentais: descobriram a fotossíntese, a capacidade de transformar a energia
solar em energia metabólica, consumindo gás carbônico e produzindo oxigênio.
Aos poucos, essas criaturas foram mudando a composição da atmosfera da Terra,
que foi ficando cada vez mais rica em oxigênio.
Devemos, em grande
parte, nossa existência a essas bactérias e a essa mutação. (Ibid., p.124)
Vale
refletirmos sobre essa última afirmação. Devemos nossa existência às bactérias
existentes há 2,4 bilhões de anos! Como manter uma visão de mundo egocêntrica
após uma afirmação como essa? Não apenas dependemos de tudo o que existe no
mundo ao mesmo tempo que nós, nem mesmo apenas dependemos de nossos ancestrais
ou das fontes de nossas culturas. Se não fosse um processo de mudança genética
ocorrido em bactérias há bilhões de anos, não estaríamos aqui. Esse é mais um
exemplo, entre muitos, de como o conhecimento científico, ainda mais se bem
mediado (e, na educação, esse é um papel fundamental de um bom professor), pode
gerar em nós alterações profundas em nossas cosmovisões, alterações nos
próprios fundamentos de como definimos o que nós somos, nosso "eu", e
o quanto esse "eu" difere-se ou une-se ao restante do Universo (a
tudo o que seria, portanto, "não-eu").
Não estamos aqui por
acaso. Somos produto disso tudo, das inúmeras mutações que transformaram
bactérias em pessoas, dos acidentes cataclísmicos que redefiniram as condições
planetárias, das inúmeras mudanças que ocorreram no decorrer de bilhões de anos
de história. (Ibid., p. 125).
Por
mais óbvia que seja a afirmação a seguir, vale repeti-la, pois nosso
comportamento destrutivo em relação ao planeta prova que pouco a consideramos
no modo como fundamentamos moralmente nossas ações: devemos tudo o que temos,
de bom e de ruim, ao Universo e, especialmente, à Terra. Apenas existimos como
partes de uma imensa rede de relações que já dura bilhões de anos, desde o Big
Bang até nós. Sendo assim, tecermos nossas vidas sem essa visão interdependente
e complexa, como se pudéssemos nos ver como o centro do Universo, sendo o
Universo e a natureza terrestre apenas uma coleção de coisas à serviço dos
humanos, obviamente cria modos de vida que estão em contradição com os próprios
fundamentos da existência e da vida. Se algo está em contradição com os
fundamentos da vida, o resultado óbvio é a oposição à vida, ou seja, uma
cultura de opressão da vida, de mortificação dos seres que coabitam este
planeta conosco e de destruição de seus ambientes.
Apenas
para reforçar o incomensurável conjunto de fatores externos a nós mesmos que
permitem que estejamos aqui, ou seja, que questionam nossos egoísmos, vaidades
e narcisismos, vejamos mais alguns:
Comparada aos outros
mundos que conhecemos, a Terra se distingue por ser um oásis para a vida. Sua
atmosfera protege a superfície dos raios ultravioleta letais que vêm do Sol. O
campo magnético - resultado da circulação de ferro e níquel líquidos no centro
do planeta - funciona como um escudo contra a radiação nociva que vem do
espaço, principalmente partículas oriundas do Sol. O movimento lento das placas
tectônicas, os grandes blocos de terra firme onde estão os continentes, recicla
o gás carbônico entre os oceanos e a atmosfera. Termos apenas uma Lua, bem
grande, que estabiliza o eixo de rotação da Terra em sua inclinação de 23,5
graus, permitindo que as estações do ano continuem ritmicamente por milhões de
anos. Juntas, essas propriedades transformam nosso planeta no que é, a casa de
milhões de formas de vida, das profundezas dos oceanos até os picos gelados das
montanhas geladas. (Ibid., p.125).
Devermos
nossa existência a inúmeros fatores externos e anteriores a nós mesmos, mas,
para que não caiamos em um novo modelo de egocentrismo, do tipo "o
Universo inteiro conjugou seus processos para que eu esteja aqui
agora", é preciso considerar que o longo e complexo processo de evolução
do Universo, além de possivelmente não ter sido intencional, não gerou apenas a
nós, a humanidade, mas a uma gigante gama de seres vivos que só existem em
relação e graças a toda a história da vida antes deles e a todos os seres que
coexistem com eles no mesmo momento da história da vida.
Existe [...] algo muito
incrível com relação à vida, o fato de que toda a vida na Terra tem a mesma
raiz. [...] Todas as criaturas, das plantas e insetos a pessoas, são
descendentes do mesmo progenitor, [...] que viveu em torno de 3 bilhões de anos
atrás. Todos os seres vivos estão interconectados pela sua história
evolucionária.
De acordo com a biologia
moderna, e conforme Darwin intuiu no seu clássico A origem das espécies, a mãe
de todas as criaturas vivas foi uma bactéria. (Ibid., p.132).
Após
uma boa aula sobre a evolução da vida na Terra, como manter uma visão de mundo
na qual o próprio indivíduo é o centro do mundo ou mesmo na qual a própria
cultura, o próprio povo, a própria etnia, ou qualquer outra divisão do gênero,
seja o centro do mundo, o objetivo da "criação" do Universo ou a
detentora da verdade oficial sobre os motivos da existência do próprio cosmos?
Sendo
assim, no imenso leque de descobertas científicas fundamentais, a evolução das
espécies (tal como proposta por Charles Darwin e aprimorada por diversos
cientistas posteriores) se destaca quando o assunto é pensarmos nossa relação
com as demais espécies do planeta Terra.
A vida evolve através de
mutações aleatórias nos genes das criaturas, sem uma direção específica.
Algumas dessas mutações são benéficas, mas a vasta maioria é nociva. De vez em
quando, uma mutação leva a uma vantagem seletiva: o mutante é mais rápido, ou
mais forte, ou mais esperto, e isto lhe permite viver por mais tempo e se
reproduzir mais, deixando uma prole de "mutantinhos" mais poderosos
do que seus primos. Eventualmente, após muito tempo, a espécie inteira será
diferente de seus ancestrais de gerações passadas. (Ibid., p. 132).
Em
suma, Darwin adicionou à antiga percepção da vida como eterna transformação a
ideia de seleção natural. Isso significa que indivíduos e gerações de seres
vivos tendem a contribuir mais ou menos para as características sobreviventes
em suas espécies dependendo do quanto estiverem adaptados aos meios em que
vivem.
Com
os avanços da Genética posteriores a Darwin, compreendeu-se melhor este
processo: cada novo ser nascido recebe informações genéticas de seus
“progenitores” (pais e mães em animais sexuados, mas também por outros meios,
incluindo os meios vegetais) e nesse percurso podem ocorrer mutações nos genes,
gerando características que não existiam antes. Essas mutações podem significar
algo bom ou algo ruim para o novo ser. Isto é, podem ajudar ou atrapalhar a
adaptação deste ser às condições ambientais e modos de vida possíveis em seu
tempo e lugar. Se uma mutação trouxer benefícios, provavelmente o ser vivo será
bem sucedido em sua sobrevivência e ele reproduzirá mais que os outros.
À
medida que mais gerações de seres forem nascendo com essa nova característica,
permitindo maior adaptabilidade ao ambiente e maior facilidade de
sobrevivência, possibilitando maior tempo de vida e de número de reproduções do
que os que não a possuem, tal característica tenderá a ser o padrão em tal
espécie. Muitas mutações ao longo do tempo acabam criando uma nova espécie
(quando os membros desta não conseguirem mais se reproduzir com os membros da
espécie antiga).
Novas
espécies também são impulsionadas por mudanças geográficas, já que em cada
lugar, dadas as especificidades ambientais, características diferentes são
benéficas e seres diferentes acabam se dando melhor, ou seja, outras mutações
genéticas são úteis e novas espécies acabam surgindo.
Compreender
a evolução da vida na Terra a partir das lentes darwinianas permite percebermos
que nós, humanos (Homo sapiens), somos apenas mais uma das espécies que
vêm surgindo e se transformando desde mais ou menos 3,6 bilhões de anos atrás,
quando as primeiras bactérias parecem ter surgido. Compartilhamos ancestrais
comuns com as demais espécies e com elas possuímos proximidade genética. O
trabalho de Darwin e seus sucessores ganha, assim, enorme relevo, inclusive
moral.
Entender
a vida como algo que se recria a cada momento de forma interdependente, em um
processo no qual todas as espécies são partes importantes, nos leva a alterar
valores: o ser humano não é o centro do universo. Não somos a espécie mais
importante da Terra. As outras espécies não foram criadas em função do ser
humano, para nosso uso ou domínio, mas evoluíram neste mundo assim como nós.
Convivemos no mesmo momento da história da vida que todos os outros seres vivos
atualmente existentes. Coabitamos o mundo.
Somos
todos partes de uma rede impressionantemente imensa de seres vivos que tentam
permanecer vivos no estupendo conjunto de
relações que é a vida. Nenhum ser é independente ou mais importante que outro.
Essa compreensão pode levar a uma profunda crítica da tradição antropocêntrica
e especista de nossas ciências e moralidades.
Nós
mesmos não somos apenas nós mesmos. “Cada um de nós é uma grande cidade de
células, e cada célula, uma cidade de bactérias. Somos uma grande megalópole de
bactérias” (DAWKINS, 2000, p.27). Sem essas bactérias, o organismo humano
seria impossível, dado que elas cumprem papéis essenciais dentro de nós. O que
justifica a arrogância antropocêntrica?
É
difícil para nós pensarmos na escala de tempo da história da vida na Terra.
Nossa mente não está adaptada para pensar na escala temporal de bilhões de
anos. Sendo assim, não nos é intuitivo ou não faz parte de nosso senso comum
pensar em quantas espécies já surgiram e desapareceram, quantas extinções em
massa já houveram, quantas explosões de vida já ocorreram, quantas vezes a vida
saiu e voltou para as águas etc. É difícil perceber o quão pequena é nossa
participação nessa história (ainda que nosso poder destrutivo e criativo não
seja nada pequeno), mas é preciso.
Conhecer
melhor a vida na Terra, as demais espécies, nos ajuda a sabermos melhor como
agir em relação a elas. Assim, no fundamento do processo de conhecimento, há um
profundo questionamento ético, e, dada a calamidade ambiental em curso (que
prova-se por qualquer breve navegação por revistas e jornais), é urgente que
vivamos nossa dimensão ecológica, relacional, de modo eticamente aceitável. O
olhar que Darwin nos permite construir nos impulsiona a nos reconectarmos com a
vida na Terra e com os cuidados que ela requer.
Do
ponto de vista da arquitetura de nossa moralidade, é extremamente enriquecedor
contemplar os incríveis e gigantescos processos que envolvem adaptações e
relações, do nível dos genes ao dos ecossistemas. Se aprendermos a considerar
tais inúmeros conjuntos de relações como partes fundantes de nossa percepção do
mundo, podemos almejar o surgimento de consciências capazes de perceber o mundo
de forma ecológica, com pensamento mais complexo e relacional, algo essencial
para uma boa ética, já que a ética tem a ver justamente com a qualidade de
nossas relações, e, portanto, com a qualidade dos critérios que utilizamos para
tecer tais relações.
Em
outras palavras, o assombro que a percepção da magnanimidade do Universo e da
história da vida pode nos gerar (que é o ponto de partida tanto das ciências
quanto das religiões) e a noção, ainda que limitada, sobre tudo o que já
ocorreu e continua ocorrendo para que a vida exista deveriam estar no
fundamento de nossa moralidade no que se refere ao modo como nos relacionamos
com o mundo do qual somos parte, ou seja, com nossa natureza.
Descobrir que o Universo
tem [...] bilhões de anos, em vez de 6 a 12 mil anos, aumenta a nossa
apreciação de sua extensão e grandiosidade; [...] descobrir [...] que o nosso
planeta é um dentre bilhões de outros mundos na galáxia da Via Láctea, e que a
nossa galáxia é uma dentre bilhões de outras, expande majestosamente a arena do
que é possível; saber que os nossos antepassados eram também os ancestrais dos
macacos nos une ao restante da vida e torna possíveis reflexões importantes
[...] sobre a natureza humana. (SAGAN, 2006, p. 29-30).
Uma
consequência do conhecimento científico, portanto, poderia ser o aumento de
nossa consciência sobre o mundo para vivermos vidas pautadas em princípios mais
nobres, dignos e respeitosos. Isso difere do “conhecer para dominar”, tão
presente na história das ciências, como podemos ver no livro Discurso do
Método, de Descartes, um dos pais da ciência moderna, que defende que
aprendendo sobre a natureza e sua força “poderíamos utilizá-los da mesma
forma em todos os usos para os quais são próprios, e assim nos tornar como
senhores e possuidores da natureza” (DESCARTES, 1999, p.86-87).
Alguns
momentos de ruptura dentro do conhecimento científico apontam para tal direção.
A passagem da visão de mundo geocêntrica para a visão heliocêntrica no século
XVI é um poderoso exemplo: deixamos de nos ver no centro do Universo,
literalmente. Com o desenvolvimento posterior da astronomia e das lunetas e
telescópios, vimos que não apenas não somos o centro do Sistema Solar, mas
estamos na periferia de uma galáxia que é apenas mais uma galáxia entre
trilhões de galáxias. No século XIX, Darwin nos reposicionou novamente. Dessa
vez, não no Universo, mas na própria Terra. Não somos o centro da vida, a
"cereja do bolo da criação".
O
conhecimento científico, assim, nos pressiona a nos reposicionarmos no mundo e
nos impele a alterarmos nossas cosmovisões. É preciso que compreendamos a
profundidade do novo “cosmos” oferecido pelas ciências, enriquecendo nossa
moralidade em um amálgama entre fatos e valores.
Apartando-nos: agindo
como seres morais
Até
o presente ponto deste ensaio, discutimos como o ato de perceber nossa
existência a partir de um olhar astronômico, geológico e evolutivo pode nos
ajudar a nos aproximarmos da natureza e desenvolvermos formas ecologicamente
válidas de arquitetarmos nossas ações.
Outra consequência advinda dessa percepção
astronômica, geológica e evolutiva de nossa existência poderia ser a de nos
atentarmos para todos os seres sencientes que coabitam conosco neste planeta.
Todos lidamos com a dificuldade de permanecermos vivos em uma natureza complexa
em que a vida depende da morte. Percebendo tal vida através de um sistema
nervoso, a presença de consciência e sofrimento é inescapável.
A tomada de consciência ética a
partir do conhecimento científico necessita, portanto, de nuances: do ponto de
vista ecológico, realmente devemos nos reconectar à teia da vida da qual
fazemos parte, assim como às dinâmicas planetárias que permitem nossa
existência. Mas, se por um lado Darwin nos ajuda a nos recolocarmos na teia da
vida na Terra, por outro lado ele nos revela com crueza a brutalidade de tal
teia.
Quando se fala que há seres que estão
mais ou menos adaptados para sobreviverem em determinado contexto ambiental,
podemos traduzir como “seres que conseguem se alimentar melhor dos outros,
fugir melhor de seres que querem se alimentar deles e se proteger melhor das
intempéries da natureza, tais como temperatura, fogo, chuva etc.”.
Darwin, assim, nos revela um mundo ao
mesmo tempo belo e terrível, onde reina uma natureza fria e impiedosa na qual
se um indivíduo não se sobressai sobre os demais (tanto da mesma espécie,
quanto das demais – presas ou predadoras), vira comida ou cadáver.
Isso acontece tanto com indivíduos
quanto com espécies, que tendem a se extinguir quando deixam de estar bem
adaptadas ao meio em que vivem (considerando que os meios transformam-se com o
tempo, espécies antes bem sucedidas podem tornar-se minguantes e extintas no
futuro).
A
compreensão que a evolução das espécies pela seleção natural nos permite ter
sobre a existência gera em nós, portanto, uma profunda questão moral, pois, por
nossa natureza, por nossa origem natural e genética, justificaria-se qualquer
coisa que fizéssemos para nos destacarmos dos demais, aniquilarmos
concorrentes, privilegiarmos nossos próprios interesses, aumentarmos nossas
possibilidades de sobrevivência ou aumentarmos o número de indivíduos
carregando parte de nosso código genético.
Em outras palavras, se seguíssemos
apenas nossa natureza, não haveria como se questionar a validade de atos como
roubo, escravidão, assassinato ou estupro.
Sendo assim, se pretendemos vivenciar
moralidades e políticas pautadas na preocupação com o sofrimento alheio e não
apenas na sobrevivência pessoal a qualquer custo (por exemplo, oprimindo ou
escravizando seres para realizarmos nossos desejos individuais), devemos negar
em nós os impulsos primeiros de nossa natureza.
Trocar a autossobrevivência impiedosa
e a busca por se destacar do bando a qualquer custo por tentativas de
estabelecermos relações vitais compassivas e respeitosas – tanto políticas
quanto ecológicas – significa, portanto, opor-se à lógica básica da natureza.
Assim como a reconexão com a natureza
anteriormente discutida, essa oposição também deve estar no fundamento de
nossas mais profundas considerações morais. Ou seja, é preciso que tenhamos
tanto um movimento de reaproximação da natureza (ecologicamente falando),
quanto um movimento de distanciamento da ordem natural (eticamente falando).
Ambos os movimentos podem ser bem embasados pelo conhecimento científico.
Vejamos pois uma conclusão ética de
imensa importância e urgente, a partir de certezas científicas contemporâneas,
que deveria modificar completamente a cultura humana: no dia 7 de julho de
2012, durante a Francis Crick Memorial Conference on Consciousness in Human and
non-Human Animals, no Churchill College da Universidade de Cambridge, os
cientistas Low, Edelman e Koch
apresentaram a Declaração de Cambridge sobre a Consciência Animal. Nela é
possível ler que:
A ausência de um
neocórtex não parece impedir que um organismo experimente estados afetivos.
Evidências convergentes indicam que os animais não humanos têm os substratos
neuroanatômicos, neuroquímicos e neurofisiológicos de estados de consciência
juntamente como a capacidade de exibir comportamentos intencionais.
Consequentemente, o peso das evidências indica que os humanos não são os únicos
a possuir os substratos neurológicos que geram a consciência. Animais não
humanos, incluindo todos os mamíferos e as aves, e muitas outras criaturas,
incluindo polvos, também possuem esses substratos neurológicos. (Low et al.,
2012).
Essa declaração foi apresentada na
conferência acima citada e assinada pelos participantes da mesma, com a
presença, por exemplo, de Stephen Hawking.
Philip Low, neurocientista canadense
e principal autor da declaração acima, em entrevista para a revista brasileira
Veja, disse ainda:
sabemos que todos os
mamíferos, todos os pássaros e muitas outras criaturas [...] possuem as
estruturas nervosas que produzem a consciência. Isso quer dizer que esses
animais sofrem. É uma verdade inconveniente: sempre foi fácil afirmar que
animais não têm consciência. Agora, temos um grupo de neurocientistas
respeitados que estudam o fenômeno da consciência, o comportamento dos animais,
a rede neural, a anatomia e a genética do cérebro. Não é mais possível dizer
que não sabíamos. (PIRES, 2012).
Tal afirmação, “não é mais
possível dizer que não sabíamos”, apesar de forte, retrata o estado atual
do conhecimento humano sobre o grau de consciência presente em animais não
humanos. Tais animais são, portanto, sencientes, ou seja, possuidores de
sensibilidade e consciência. Isso acarreta graves consequências e pesadas
demandas para nossa moralidade,
porque considerações
morais se traduzem em fatos sobre como nossos pensamentos e ações afetam o
bem-estar de criaturas conscientes, como nós mesmos. Se existem fatos a serem
descobertos sobre o bem-estar de tais criaturas — e há —, então deve haver
também respostas certas e erradas a perguntas de cunho moral. (HARRIS, 2003,
p.66).
Considerando, no espírito dessa
afirmação de Harris, os animais não-humanos, pode-se refletir que:
O provimento de si
inclui a busca do próprio bem físico e psicológico, no caso de animais dotados
de senciência. Um animal é um ser vivo que provê a si mesmo a partir de sua
própria consciência, e esta, embora seja típica de cada espécie, analogamente
ao que ocorre nos humanos, também é única em cada indivíduo. A perda da
liberdade, para um animal, representa uma ameaça à sua futura consciência
específica de si.
[...]
Dotado da liberdade de
mover-se para prover-se, todo animal é constituído de uma forma específica de
senciência (sensibilidade e consciência) [...]. Por isso, enjaular, aprisionar
ou confinar animais, em suma, escravizá-los, representa para eles o pior tormento.
(FELIPE, 2008, p.92-94)
O
conhecimento científico atualmente vigente nos força, portanto, a revermos
comportamentos estabelecidos, haja vista que:
todas as questões de
valor (certo e errado, bem e mal etc.) dependem das possibilidades de se
experimentar este ou aquele valor. Sem consequências na esfera da experiência —
felicidade, sofrimento, alegria, desespero etc. —, qualquer conversa sobre
valores é vazia. Portanto, dizer que um ato é moralmente necessário, ou mau, ou
inocente, é fazer inferências (tácitas) sobre suas consequências na vida de
criaturas conscientes (sejam elas reais ou potenciais). (HARRIS, 2003, p.66).
E,
como nos afirma o filósofo Peter Singer,
Se um ser sofre, não
pode haver nenhuma justificativa de ordem moral para nos recusarmos a levar
esse sofrimento em consideração. Seja qual for a natureza do ser, o princípio
de igualdade exige que o sofrimento seja levado em conta em termos de igualdade
com o sofrimento semelhante - até onde possamos fazer comparações aproximadas -
de qualquer outro ser. [...] É por esse motivo que o limite da sensibilidade
([...] capacidade de sofrer ou sentir alegria [...]) é o único limite
defensável da preocupação com os interesses alheios. Demarcar esse limite através de uma característica,
como a inteligência ou a racionalidade, equivaleria a demarcá-lo como
arbitrário. (SINGER, 2002, p. 67-68).
Voltando
ao domínio da pesquisa científica, consideremos as palavras do etologista
(especialista em comportamento dos animais) Mark Bekoff:
é evidente que sabemos
muito sobre as emoções dos animais. Embora obviamente ainda reste muito a
aprender, o que já sabemos deveria ser suficiente para inspirar mudanças na
maneira como tratamos os animais. Precisamos transformar conhecimento em ação.
Não podemos simplesmente continuar nas condições em que estamos, porque isso é
o que sempre fizemos. O que sabemos mudou, e o mesmo deveria acontecer com o
nosso relacionamento com os animais. Temos de refletir sobre o fato de que
muitos animais têm emoções e sofrem - eles sentem amor e dor - e então
considerar todas as maneiras pelas quais tratamos os animais hoje em dia na
nossa sociedade e decidir o que é certo e o que é errado. Quando reconhecemos
que algo é errado, devemos nos empenhar para mudar isso. (BEKOFF, 2010, p.148).
Em
síntese, se sabemos que animais são sencientes, ou seja, que possuem
sensibilidade e consciência, se sabemos que animais sofrem, possuem
comportamentos específicos, linguagem e emoções, o que justificaria, do ponto
de vista ético, tamanha diferença de julgamento sobre o que seria normal e
aceitável fazermos com um ser humano ou com um animal não-humano?
Sabemos que os seres
animais não são “coisas” que existem para nossa conveniência. Os animais são
seres subjetivos que têm sentimentos e pensamentos, e merecem nosso respeito e
consideração. Não temos o direito de subjugá-los ou dominá-los em proveito próprio
- fazer com que nossa vida fique melhor tornando a vida dos animais pior.
(Ibid., p.150).
Assim,
retomando o que foi proposto anteriormente, do ponto de vista moral, é preciso
que saibamos nos afastar da lógica natural. O foco principal da vida humana,
eticamente falando, não deve ser apenas a garantia da própria sobrevivência. “A
ética nos ajuda a calcular o melhor curso de ação quando existem muitas opções
e as nossas informações são incompletas, condicionais ou conflituosas”
(Ibid., p.150). As ciências, como estamos defendendo, podem agir justamente
fornecendo tais informações de forma mais completa, complexa e coesa,
alimentando, desta forma, uma reflexão ética igualmente mais completa, complexa
e coesa.
No
caso aqui analisado (a relação entre humanos e outros animais), une-se
conclusões da ciência contemporânea e reflexão ética, isto é, trata-se de um
exemplo de como o conhecimento científico pode formatar (e, neste caso, vem
formatando) movimentos sociais em busca de transformações morais, comprovando a
proposta apresentada na introdução deste ensaio.
Sabemos que os
resultados da pesquisa científica deveriam influenciar o modo como
agimos no mundo; do contrário, a ciência se torna um exercício sem sentido. E
também sabemos que os animais sentem emoções e sofrem em nossas mãos, e isso
acontece em nível global. A ética, com E maiúsculo, precisa ter um lugar em
nossas atuais deliberações sobre como interagir com outros animais. (Ibid., p.
150)
Se
almejamos levar à sério as conclusões éticas baseadas em conhecimento
científico, precisamos, como sociedade, avaliar todos os aspectos de nossa
interação com outros animais. Isso passa por questões como o que comemos, como
nos divertimos, como nos vestimos e mesmo como fazemos ciência. Vê-se assim que
propostas comportamentais contemporâneas, feitas por movimentos sociais como os
defensores dos direitos dos animais, são, antes de tudo, não apenas ideologias,
mas conclusões éticas racionais e cientificamente embasadas.
É
claro que “obter uma uniformidade total na esfera moral — tanto no plano
interpessoal quanto no intrapessoal — pode ser impossível” (HARRIS, 2003,
p.70). Contudo,
a partir do momento em
que aceitamos que existem respostas certas e erradas para questões de cunho
moral, precisamos admitir também que muitas pessoas simplesmente estão erradas
a respeito da moralidade. (Ibid., p.70-71).
E, essencial considerar,
uma das maiores tarefas
da civilização é criar mecanismos culturais que nos protejam das falhas
corriqueiras das nossas intuições éticas. Precisamos pôr o melhor de nós em
nossas leis, nossos códigos fiscais e nossas instituições. [...] quanto mais
entendermos as causas e constituintes da realização humana [e animal], e quanto
mais soubermos a respeito da experiência dos outros seres humanos [e animais],
mais conseguiremos tomar decisões inteligentes sobre quais políticas sociais
devemos adotar. (Ibid., p.74).
Com
essa citação, resumimos o coração de nossa proposta e nos damos, ao menos
teoricamente, por satisfeitos, demonstrando a importância do raciocínio
moral e a dualidade ética que o encontro
entre ciência e ética pode alimentar, ou seja, o fato de que devemos tanto nos
aproximar de nossa natureza ecológica, quanto nos afastar da lógica natural.
Referências
bibliográficas
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Mark. A Vida Emocional dos Animais: alegria, tristeza e empatia nos
animais: um estudo científico capaz de transformar a maneira como os vemos e os
tratamos. São Paulo: Cultrix, 2010, 207p.
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* Revisão e ampliação de excerto de monografia apresentada em 2021 para a obtenção do título de especialista em Ciência e Tecnologia pela UFABC sob o título "A contribuição das ciências para o aprimoramento ético da relação entre humanidade e natureza”.

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