Nossa relação com os animais a partir de uma cosmologia eticocêntrica

 

Nossa relação com os animais a partir de uma cosmologia eticocêntrica

Façamos um exercício utilizando a cosmovisão proposta em nosso último ensaio (Cosmologia Eticocêntrica: uma introdução) para refletir sobre a relação entre humanos e animais não-humanos:

Epistemologia eticamente orientada

Ao observarmos com honestidade as demais espécies animais da natureza, percebemos comportamentos semelhantes aos que conhecemos em nós: fuga da dor, ansiedade frente ao perigo, cuidados com seus próximos etc., além de aparentarem expressar diversas emoções iguais às nossas.

Ao estudarmos tais animais e seus comportamentos, passamos a saber que muitos deles possuem sistema nervoso central, sentem sensações como dor e prazer e têm a capacidade de compreender algo das experiências pelas quais passam (são sencientes). Além disso, realmente possuem emoções e, por vezes, comportamentos sociais complexos e uso de linguagens. Em suma, independentemente do nível de raciocínio que possuem, animais são capazes de sofrer.

Ética racionalmente arquitetada

Se os animais são sencientes e capazes de sofrer (e isso já é uma verdade científica), devemos estruturar nossas ações de modo a evitar ao máximo a geração de sofrimento a eles. A proposta conhecida por veganismo é um exemplo de aplicação dessa conclusão moral.

Direito como normatização de conclusões éticas

Se os animais são sencientes e devemos parar de torturá-los, as leis devem proibir qualquer prática que contrarie tal conclusão.

Política como organização ética da sociedade

A política deve, além de forçar a criação de leis eticamente embasadas, fazer com que a sociedade as coloque em prática. No caso de nosso exemplo, ela deve induzir um quadro legal que faça com que animais não sejam escravizados e torturados, além de certificar que tal quadro seja respeitado.

No nível político dos governos, eles nunca poderiam, por exemplo, impulsionar práticas cruéis com animais, como a pecuária, e deveriam trabalhar para que comportamentos eticamente válidos em relação aos animais se tornem prática corriqueira.

No nível político dos cidadãos, ou seja, das relações sociais, essas devem se dar respeitando os princípios éticos e as normas deles derivadas. Pessoas não deveriam patrocinar a exploração de animais individualmente nem criar situações coletivas para tal, como churrascos, rodeios, zoológicos etc.

Economia como troca enriquecedora eticamente limitada

Se precisamos comer, nos vestir, nos tratar e ter algum lazer, a produção e a troca de mercadorias precisam existir, mas sempre respeitando estritos princípios éticos e ecológicos. O que disso fugir deve ser coibido pela política e pelo direito, além de ser boicotado pelos consumidores.

Aos consumidores, que são parte central dos processos econômicos, cabe a escolha de produtos que evitem a exploração dos animais e a destruição de seus habitats naturais. Além disso, devem tentar consumir de forma limitada, para reduzir o impacto que geram sobre os ambientes, o que, na prática, também representa sofrimento aos animais silvestres.

O princípio moral de não agredir os animais sencientes seria ferido tanto pelo consumo de partes de animais mortos quanto pelo consumo desenfreado de produtos que dependem da exploração de matéria-prima e que geram diversos tipos de poluição ambiental. Ou seja, como a ética deve ser soberana sobre nossas escolhas (que se materializam nas trocas econômicas), isso força um alargamento da prática vegana em direção a uma prática ecovegana, que respeite tanto os animais como indivíduos, não os escravizando, oprimindo e consumindo, quanto o ambiente coletivo do qual os indivíduos sencientes dependem para sobreviver.

Estética como busca da virtude

O simples fato de que a sequência de reflexões e ações acima apresentada visa reduzir a geração de sofrimento, faz com que ela seja virtuosa e, portanto, nela reside beleza. Tal beleza, nesses moldes, precisa ser cultuada.

A arte pode expressar tal beleza ou expor a feiúra de seu oposto.

Em suma

Sem meandrar quando é preciso reconhecer as margens, a cosmologia eticocêntrica revela a coerência ética da prática ecovegana e a necessidade de que ordenemos todos os aspectos de nossa sociedade para ela. Se algo é eticamente correto, não há porque não se refletir nas leis, na organização política, nas trocas econômicas, na sensibilidade geral e nas manifestações artísticas.

 

 


Comentários