Apenas alguns silogismos
O arquiclássico esquema do silogismo aristotélico é fundamental para a estruturação do pensamento nos últimos 2300 anos. Ele é arquitetado da seguinte forma:
a.
Uma premissa (maior)
b.
Outra premissa (menor)
c. Conclusão (logo/portanto...)
Apliquemos tal esquema aos animais e à nossa relação com eles:
a.
Todo ser senciente é capaz de sofrer;
b.
Diversos animais não humanos são sencientes;
c. Logo, diversos animais não humanos são capazes de sofrer.
a.
Causar sofrimento a algum ser é imoral;
b.
Nossas atitudes para com os animais causam sofrimento;
c.
Logo, nossas atitudes para com os animais são imorais.
a.
Obrigar um ser a viver em função de outro é escravidão;
b.
Animais são seres obrigados a nos servir;
c.
Logo, animais são escravizados por nós.
a.
Escravizar um ser é imoral;
b.
Animais são escravizados por nós;
c.
Logo, nossa relação com os animais é imoral.
Se a razão bastasse para que as pessoas se aprimorassem eticamente, esses silogismos seriam suficientes. Apenas um exercício de lógica básica, e não de ideologia, faria com que as pessoas assumissem uma postura vegana, ou seja, a ideia de que deveríamos viver sem considerar os animais como nossa propriedade, passíveis de todo tipo de opressão e violência.
Contudo, a razão não basta. Silogismos bem concatenados não se tornam ações sem sensibilidade ética anterior.
Por outro lado, se houvesse sensibilidade ética, esses silogismos seriam desnecessários. Apenas organizariam percepções já existentes.
A insensibilidade ética faz com que pessoas capazes de entender as conclusões dos silogismos acima simplesmente as ignorem e mantenham vivos os cultos aos prazeres gustativos momentâneos, ao gosto estético, à tradição, à preguiça…
A insensibilidade engole a razão e a tragédia se torna condição ontológica.
Sendo assim, resta espaço para discussões de ordem ética?
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