Filhos veganos: por que não tê-los? (2018)



É muito comum que casais veganos, ao terem filhos, divulguem tal feito como um favor à causa, um verdadeiro ato de ativismo. Talvez isso ocorra por crerem ser positivo à divulgação do veganismo mostrar que uma gravidez vegana é possível, que uma criança pode crescer saudavelmente sem alimentar-se de animais ou talvez porque acreditam que essa criança será, certamente, mais uma vegana veganizando sua classe do primário. Compreensível e não de todo absurdo, apesar do fato de que tudo isso pode dar errado: uma gravidez vegana é possível, mas se você tiver qualquer problema nutricional ou de saúde durante a gravidez, algo bem comum, as pessoas associarão automaticamente com seu veganismo; uma criança pode crescer saudavelmente sendo vegana, mas, novamente, qualquer resfriado da criança será por falta de bife; por fim, e ainda mais importante: quem garante que nossos filhos não serão o oposto de nós? Nada incomum, certo?

Mas a ideia deste texto não é dialogar com o que passa na cabeça de veganos que geram filhos, e sim levantar alguns pontos para defender que veganos não deveriam tê-los.

 

I – Argumentos éticos

  Enquanto há humanos e animais órfãos, abandonados e precisando de cuidados, ninguém deveria ter filhos. Não há justificativa moral para se ter condições de cuidar um ser senciente e optar por gerar um novo ao invés de ajudar os que estão passando necessidades neste momento. Querer que uma criança tenha, obrigatoriamente, parte de teu DNA para que aceite sustentá-la é apenas uma forma de vaidade, não de amor (boa parte do ato de ter filhos é, em nossa sociedade, pura vaidade. As pessoas adoram ser o centro das atenções).

Enquanto há seres sencientes precisando de ajuda, não há porque se gerar novos seres. Esta deveria ser a mentalidade dominante do exercício da maternidade/paternidade: cuidar de quem precisa, independentemente de qual DNA seja. Bem sei que isso vai contra a lógica da natureza, que pode ser entendida como uma luta dos genes para se reproduzir. Mas o veganismo, assim como a maioria das propostas éticas, é uma forma de oposição à lógica violenta da natureza. Por que não usar teus recursos, tempo e energia para apaziguar o sofrimento dos seres que já estão vivos?

 

II – Argumentos ecológicos e ecoveganos

          Você já imaginou ou pesquisou o impacto que uma só nova criança humana gerará sobre a Terra durante sua vida? Já imaginou quantos animais domesticados e silvestres morrerão apenas para garantir a sobrevivência de teu herdeiro? Mesmo que ele seja vegano, sabemos que enquanto estamos vivos, estamos gerando sofrimento e morte para incontáveis seres. Seja para nos vestir, para comer, para nos transportar...viver é matar. Essa é a perversa lógica da natureza. Assim sendo, ter um filho é produzir uma enorme quantidade de sofrimento e morte.

          Já se fala que não ter filhos é a medida mais eficaz contra as mudanças climáticas no planeta. Ainda, com a variação dos atuais sete bilhões de humanos para algo próximo de dez bilhões em 2050, deveremos ter um colapso ambiental e alimentar. É esse belo gesto de amor que almeja ao ter filhos?

          Considerando a proposta de um Ecoveganismo, a preocupação de um vegano deveria ir além de apenas não consumir produtos com partes de animais ou testados em animais. Tudo o que consumimos mata seres e destrói ecossistemas.

          Os impactos ambientais e aos seres sencientes do planeta não pararão com teu filho. Perdurará com os filhos de teus filhos, e os filhos desses e os próximos filhos, por sabe-se lá quantas gerações.

 

III – Argumentos pró-veganismo

          Ninguém garante que teu filho não será carnista. Você pode ser responsável, assim, por mais alguém patrocinando a matança de animais no mundo. E mais: pode ser responsável por uma sucessão interminável de gerações de novos carnistas. Mesmo que teu filho seja vegano, como garantir que teus netos, bisnetos, trinetos... o sejam? Você pode acabar apenas como uma memória distante daquele tataravô estranho ou daquela tataravó estranha que não comia carne.

          Em suma, você pode se orgulhar de toda uma vida vegana, mas ser responsável pelo aparecimento de centenas de novos carnistas. Teu saldo de contribuição aos animais, certamente, estará negativo.

 

Conclusão

          Cesse uma linhagem, talvez milenar, de destruidores do planeta, carnistas, agressores e exploradores de todo tipo: não tenha filhos!

 



Comentários