Do que falam os que defendem um retorno à natureza?
Do que falam os que defendem um
retorno à natureza?
Um dos discursos
pretensamente políticos mais comuns em nossos tempos é o de que deveríamos
retornar à natureza. Esse discurso usualmente se dá com substantivos e
adjetivos típicos, tais como “mãe Gaia” e outros do gênero.
De certo ponto de vista,
o discurso é compreensível: vivemos – a maioria de nós em centros urbanos -
sugando e destruindo “recursos” de toda a natureza, levando-os para centros de
processamento nas cidades ou no próprio campo e os transformando em produtos
comercializáveis. Estamos, dessa forma, fora da natureza, entendendo-a apenas
como uma fonte de recursos a serviço do império humano. Essa posição
antropocêntrica é, de fato, reprovável e altamente destrutiva. Desse ponto de
vista, faz sentido se defender que devemos nos reconhecer como partes da
natureza e agir de forma mais decente com relação a todos os outros seres e
ecossistemas que formam a rede imensa de relações à qual chamamos de
“natureza”.
Por outro lado, há certo
romantismo no ar do mundo contemporâneo que vê na natureza o lugar da paz e da
harmonia. Nada poderia estar mais longe da verdade. A natureza é o lugar da
guerra por sobrevivência. A natureza só parece pacífica quando a olhamos de
longe ou a controlamos, como em um jardim ou bosque fabricado, pelos quais
passamos sem olhar de perto para os hábitos dos pequenos seres que neles vivem,
sem vermos a guerra para que uns se alimentem de outros.
Quem, em sã consciência,
diria que se sentiria em completa tranquilidade sentado, de noite, no meio de
uma floresta, sem barraca, sem tela contra mosquitos e sem uma fogueira próxima
para iluminar o ambiente e afastar animais caçadores?
Uma praia, talvez, pode
parecer mais harmônica e pacífica do que uma floresta, mas essa harmonia só
existe quando nossas mentes ignoram ou ocultam o que está acontecendo naquele
exato momento sob aquele universo de água bem à nossa frente.
Em suma, quando alguém
resolve “retornar à natureza”, sentir-se novamente parte dela, e, nesse
esforço, sente-se em paz, em profunda paz, essa pessoa está, na verdade,
afastando-se ainda mais da natureza, pois em contato direto com o “mundo
natural” é quando mais ignora o que está de fato acontecendo ao seu redor.
Mas inexiste aquela
sensação de paz quando se está em uma praia ou uma cachoeira? Não, obviamente.
A sensação existe. Talvez ela venha, ao menos em parte, de certo silêncio
aprazível (e inexistente para quem vive em cidades), mas mesmo esse silêncio é
questionável, pois, como nos ensina com maestria a frase que abre o filme O
Enigma de Kaspar Hauser, “são estes gritos assustadores ao redor que
chamamos de silêncio?”.
Há também certa paz
advinda de estados mentais mais tranquilos, e pode se achar mais fácil
alcançá-los longe dos ruídos da cidade. É fato. Contudo, paz mental não é
sinônimo de paz ambiental, ainda que algumas tendências de pensamento
contemporâneas – novos exemplos de arrogância mascarada de humildade, que acham
que o mundo é apenas uma projeção das mentes humanas (“pense e o Universo
mudará”) - assim gostem de confundir.
Podemos até ter sensações
aprazíveis com a contemplação da diversidade da vida na Terra ou com paisagens
naturais. Esse prazer, contudo, é mais de ordem estética do que ética. A
natureza foge aos princípios que qualquer indivíduo ou sociedade com padrões
morais minimamente aceitáveis conceberia ou praticaria.
A moralidade é uma
construção de enorme valor, e ela depende de vermos as coisas com clareza e
racionalidade. Diversos hábitos e valores terríveis que marcaram a história
humana são atualmente rechaçados por parte da humanidade, e isso se deu graças a
mudanças de padrões culturais advindos de muito pensamento ético e político.
Esse é o caminho que devemos trilhar, e não marcharmos na contramão, crendo que
algum tipo de anulação da consciência gerada por alguma forma de diluição na
“natureza” irá aprimorar as ações humanas.
Visões estereotipadas
sobre um retorno a uma natureza idílica e pacífica não criarão um paraíso na
Terra.
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