Sobre a importância das ciências para o aprimoramento do raciocínio moral
Sobre a importância das ciências para
o aprimoramento do raciocínio moral *
“A ciência deve reatar com a
reflexão filosófica, como a filosofia, cujos moinhos giram vazios por não moer
os grãos dos conhecimentos empíricos, deve reatar com as ciências.” (MORIN,
2005, p.11).
Caso uma pessoa se incomode
com algo violento, opressor ou gerador de sofrimento para entes sencientes, é
esperado que transforme tal sensibilidade moral em um raciocínio moral, ou
seja, que tente pensar sobre seus comportamentos buscando distinguir quais são
mais ou menos adequados para cada situação da vida.
Cabe considerar, assim, que quanto
mais apurado for tal raciocínio e sua capacidade para discernir sobre a
adequação ética de certo comportamento, melhor tende a ser a ação do indivíduo
que teceu tal raciocínio, caso ele seja de fato decorrente de uma sensibilidade
moral ativa e, portanto, de uma demanda real de aprimoramento das atitudes
pessoais e coletivas.
O
raciocínio, por sua vez, manipula os dados disponíveis, relacionando-os e
tentando chegar às melhores conclusões possíveis. Assim, quanto maior for a
qualidade e a coerência em relação ao mundo empírico/concreto de uma
informação, melhor será a qualidade das conclusões obtidas por via do
raciocínio feito a partir dela.
Se considerarmos que as ciências
podem nos fornecer informações sobre o mundo com graus elevados de
confiabilidade, torna-se uma boa aposta, portanto, que o conhecimento
científico poderia servir como fornecedor de informações sólidas para que o
raciocínio moral possa operar com maior qualidade em nossa mente, apontando, ao
menos teoricamente, para comportamentos com maior acurácia ética.
É claro que nem tudo o que é
produzido sob a chancela das instituições de pesquisa científica é confiável e
verdadeiro, e conclusões científicas não
se convertem automaticamente em conclusões éticas, pois são formas de
conhecimento que demandam diferentes arcabouços intelectuais para serem
realizadas. Contudo, parece-nos correto e promissor afirmar que boas conclusões
científicas podem ser bons inputs teóricos para que um bom raciocínio
moral opere em nossas mentes e apontar para boas considerações éticas.
Ainda que as ciências não sejam
totalmente confiáveis, são ao menos as mais confiáveis das fontes possíveis
para se compreender o mundo concretamente e materialmente existente, ou, nas
palavras de Carl Sagan (2006, p. 45):
a ciência está
longe de ser um instrumento perfeito de conhecimento, [mas] é [...] o melhor
que temos. [...] A ciência, por si mesma, não pode defender linhas de ação
humanas, mas certamente pode iluminar as possíveis consequências de linhas
alternativas de ação.
Em suma, a aposta do presente texto é
que:
(a) se possuímos sensibilidade moral,
identificamos a necessidade de respeitarmos a todos os seres e ambientes da
melhor forma possível;
(b) para bem respeitar um ser ou um
ambiente, é essencial conhecermos as características e necessidades de tal ser
ou ambiente;
(c) as ciências tendem a ser boas
fontes de conhecimento;
(d) as informações geradas pelas
ciências podem servir como fontes para alimentar nosso raciocínio moral;
(e) um bom raciocínio moral pode
transformar a sensibilidade moral em ações moralmente mais dignas.
Ou seja, o conhecimento científico
poderia ser de grande auxílio, especialmente na passagem da sensibilidade moral
para o raciocínio moral, servindo como embasamento para que pessoas que buscam
aprimoramentos em suas ações possam tomar decisões de ordem ética com maior
grau de assertividade e coerência.
Por exemplo, as ciências podem nos
dar o conhecimento necessário para que saiamos do centro do mundo, vejamos o
mundo sem centros e atentemos para a incrivelmente enorme quantidade de redes
de interdependências que formam aquilo que costumamos chamar de natureza.
As mudanças de escalas espaciais e
temporais que conhecimentos científicos como a Astronomia, a Geologia, a
Arqueologia, a Paleontologia, a Climatologia, a Antropologia, entre outros
campos de investigação, podem gerar em nós, se bem vividas, podem nos induzir
alterações cosmológicas profundas e fazer com que saiamos do “centro do mundo”.
Como ver a si mesmo no centro do
mundo após uma boa mediação sobre a história e o tamanho do Universo, assim
como sobre as distâncias astronômicas, a quantidade de estrelas e galáxias
existentes e nossa localização periférica em apenas uma galáxia entre trilhões,
orbitando uma estrela entre sextilhões de estrelas?
Como ver a própria cultura como a
única aceitável após bons estudos antropológicos?
Como manter explicações tacanhas
sobre uma pretensa superioridade da humanidade em um mundo recentemente criado
para servir primordialmente como sua casa após boas aulas de Paleontologia e
Etologia?
Outros exemplos de raciocínios morais
realizados a partir de conclusões científicas já povoam as discussões éticas
contemporâneas. Um deles é a ética relacionada aos animais, pois a certeza
científica sobre a senciência dos animais (e, portanto, sobre a realidade do
sofrimento por eles experienciado) faz com que a defesa de alterações no
comportamento humano, como as defendidas pelo veganismo, ganhe um contorno
objetivo e racionalmente coerente.
Outro exemplo é a ética ecológica ou
ambiental, na qual as descobertas científicas sobre o resultado das diversas
ações humanas sobre as dinâmicas naturais (descobertas que exigem árduos
estudos e grande conhecimento para se entender processos nem sempre visíveis
diretamente aos olhos humanos e com alto grau de complexidade) embasam a
reflexão ética sobre o modo como o ser humano se insere ou deveria se inserir
nas teias de relações ecossistêmicas.
Assim sendo, a união entre razão,
ciência e foco no sofrimento e bem-estar de todos os seres sencientes é de
enorme valia para que possamos almejar alcançar a maturidade de uma ética
racionalmente aprimorada e constantemente burilada a partir de referenciais
sóbrios e confiáveis sobre o que gera sofrimento ou conforto para todos os
envolvidos em nossas redes de coexistência e interdependência.
Obviamente, a ciência não é
suficiente para os melhores raciocínios morais (mas fornece bons dados para
ele) e o raciocínio moral, por melhores que sejam suas conclusões, não são
suficientes para haver os melhores comportamentos humanos possíveis, dado que,
para isso, é preciso haver sensibilidade moral
e, por vezes, características nem sempre controláveis de condições
circunstanciais.
Contudo, havendo sensibilidade moral
e incômodo real com o sofrimento, a injustiça, a opressão ou a violência,
abre-se espaço para que o raciocínio moral possa operar para refinar cada vez
mais os comportamentos, e é aí que a ciência pode ser uma grande aliada da
ética.
Boas lições científicas associadas a
boas reflexões filosóficas têm o poder de nos recolocar no mundo. Sendo assim,
a importância do método e do conhecimento científico para as reflexões de ordem
ética é, para quem almeja aprimoramentos existenciais, de enorme valia.
Referências bibliográficas
MORIN,
Edgar. Ciência com Consciência. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005,
344p.
SAGAN, Carl. O Mundo Assombrado Pelos Demônios. São Paulo: Companhia de Bolso, 2006, 512p.

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