Tradição e moralidade


Dennis Zagha Bluwol, novembro de 2018 

           O papel das tradições em nossos comportamentos individuais e coletivos é comumente e constantemente um ponto de tensões. Por um lado, é por via das tradições que aprendemos o que a humanidade já construiu, já pensou e já viveu. Por outro lado, as tradições podem manter vivas uma série de comportamentos reprováveis - e por vezes nefastos - que poderíamos já ter abandonado caso eles não fizessem parte de “pacotes” de ideias tradicionalmente estabelecidos, especialmente quando estes “pacotes” trazem consigo elementos que dificultam seu questionamento, como os que apelam ao medo de punição em caso de oposição ou mesmo de dúvida.
            Assim como em relação a todos os demais assuntos importantes da existência humana, a possibilidade de lidar com este tema sem cair-se em uma guerra irracional – no caso, entre defensores e opositores de tradições - anda bastante escassa.
            É importante para qualquer ser humano conhecer os caminhos pelos quais nossa espécie já caminhou, apropriar-se deste histórico e deixar-se influenciar pelas conquistas intelectuais, morais e materiais destes nossos milhares de anos de história documentada. Contudo, é preciso haver cuidado para não se dogmatizar as tradições, de forma que o simples fato de algo ser tradicional o torne sagrado, inquestionável ou obrigatoriamente valoroso.
            A violência, a guerra, o assassinato, o roubo, o estupro, a estupidez, assim como diversas outras facetas terríveis da humanidade são tradicionais, já que sempre estiveram presentes em nossos comportamentos e em nossas sociedades. Nossas estruturas de poder injustas e opressoras são também bastante tradicionais. A ideia de que há castas de pessoas mais importantes que outras é parte fundante de nossas mais tradicionais tradições, assim como a ideia de que nossa espécie é superior a todas as outras da face da Terra.
            Quando tradições ainda seguidas se tornam museus “tombados pelo patrimônio histórico” que não permitem nem a lenta transformação existente em qualquer cultura viva, elas se tornam ainda mais perigosas. Em realidade, anteriormente, quando as tradições tornam-se guias para as vidas e as pessoas as seguem irrefletidamente, aí mora um enorme perigo.
            Tradições, apesar de trazerem até nós as reflexões morais das gerações passadas, quando se fecham no passado podem brecar a reflexão moral contemporânea, voltada para assuntos ou nuances argumentativas que não importavam aos pensadores do passado oriundos de tais tradições. Infelizmente, muitas vezes as tradições acabam sendo mais uma forma de castração do avanço moral da humanidade do que uma forma de ajudá-la a viver com decência.
Como falar em mudanças de comportamento quando o comportamento de alguém, mesmo que errado (ao passar pelo crivo da ética ou do conhecimento cientificamente produzido) é chancelado ou desejado por algum deus ou ser iluminado? Por exemplo: como falar em veganismo quando a identidade pessoal de alguém é – aparentemente – inseparável do tratamento cruel de animais?
Que vegano nunca ouviu: “mas Cristo comia peixe!”; “mas Buda não proibiu comer carnes! Proibiu apenas matar animais! Logo, se você não matou, nem o animal foi morto especialmente para ti, está permitido!”; “mas este sacrifício de animais é parte da tradição de minha cultura! Opor-se a isto é opor-se à minha tradição, é discriminação!” ou “rodeio e vaquejada são partes da cultura de minha região! Opor-se a isto é discriminação contra as pessoas daqui!”....?
Como debater racionalmente com quem raciocina desta forma? Como trabalhar com argumentos que, por mais coerentes que sejam, por mais compassivos que sejam, contrariam o exemplo ou o ensinamento de algum deus, de algum iluminado, de algum mito religioso ou de algum guru chancelado por alguma instituição autointitulada de sagrada?
Neste quadro, como trabalhar com argumentos que, por mais coerentes que sejam, por mais compassivos que sejam, contrariam alguma prática historicamente consolidada que dá sentido e ocupação para pessoas de uma determinada região ou origem, dando a elas algum senso de identidade cultural ou territorial?
São compreensíveis os motivos pelos quais o resgate de tradições assume um papel central na busca identitária contemporânea. Trata-se de um processo compreensível, mas perigoso. O resultado é que sempre que houver qualquer questionamento a algum ato ou modo de pensar por ser violento, opressivo ou injusto, a resposta poderá ancorar-se em uma tradição de milênios atrás, fazendo com que questionar uma prática seja compreendido como questionar a própria existência do povo criador de tal tradição e, portanto, desmerecer seus herdeiros. É um mecanismo mental falacioso, mas comum, e seu resultado é a perpetuação de violências, opressões e injustiças.
Ainda que seja necessário reconhecer o motivo pelo qual certos grupos sociais tentem retomar e defender suas tradições como processo identitário ou mesmo visando a própria sobrevivência, cabe conceber que reflexões éticas devem estar acima de quaisquer outras formas de identidade, tais como culturais, territoriais, étnicas, religiosas etc., sem que isto signifique que pessoas e grupos devam aniquilar suas diversas formas de identidade.
Assim sendo, nossa principal identidade deve ser ética. Isto quer dizer que o que deveria guiar primordialmente os nossos atos, as nossas leituras de mundo, é a reflexão ética racionalmente embasada. Nenhum ato responsável pela geração de sofrimento a algum ser deve ser conservado ou ocultado apenas por fazer parte de algum pacote de tradições.
A compaixão, ou seja, o ato de perceber e sentir o sofrimento alheio, é um exercício mental de estabelecimento de relações, de comparações, já que trata-se de perceber que um outro ser, ao sofrer alguma ação, poderá sentir o mesmo sofrimento que aquele que o observador conhece nele mesmo. Logo, a compaixão é um movimento da razão. Mesmo nossas emoções, portanto, podem ser racionalmente embasadas. Nossos ódios, medos, antagonismos ou preconceitos devem passar pelo escrutínio cético da razão. Certamente, muitos deles morrerão.
Não importa se teu deus ou teus personagens míticos comiam carne, caçavam, escravizavam, apedrejavam, faziam justiçamento nas ruas, tratavam mulheres como seres inferiores, julgavam e puniam pessoas por suas orientações sexuais etc. Este deus, estes personagens mitológicos, estes seres iluminados estavam errados, reproduzindo padrões morais irracionais de uma sociedade eticamente mais tosca do que a sociedade que poderíamos vir a ser.

PS.: Este texto ganha relevância em um momento da cultura nacional no qual projetos de lei agrupados sob o nome de “Escola sem Partido” ganham espaço nas discussões públicas e nas casas legislativas. Sob o pretexto de garantir a pluralidade de ideias em sala de aula, bem como coibir o uso das salas como ambiente de doutrinação político-partidária, o que já é garantido nas atuais leis, há, em realidade, uma tentativa de estabelecer que convicções pessoais, especialmente as religiosas, tenham precedência sobre a educação escolar, ou seja, sobre o conhecimento científico, racional, histórico, geográfico etc. Na prática, o objetivo é obrigar as escolas a ensinar pacotes de entendimento tradicionalmente estabelecidos (os pressupostos religiosos dominantes no Brasil) em detrimento da ajuda aos estudantes para que desenvolvam habilidades cognitivas que lhes permitam compreender o mundo com profundidade.
Em suma, a proposta do movimento Escola sem Partido é limitar a possibilidade de um processo educacional que, ao mesmo tempo, esteja atento à diversidade de conhecimento desenvolvida pela humanidade e permita que os estudantes possam analisar racionalmente tais conhecimentos, vindo a ser construtores autônomos de novos conhecimentos. A tentativa de barrar doutrinações em sala de aula pode vir a ser a ferramenta de doutrinação mais pesada que a educação brasileira já teve.
            Assim sendo, qualquer dúvida sobre pressupostos morais ou científicos estabelecidos por tradições, especialmente tradições religiosas (mais especialmente ainda os estabelecidos pelas tradições bíblicas), seriam vistos como rejeitáveis ou denunciáveis.
Se um professor de ciências ensinar que animais não-humanos possuem sistema nervoso central e são capazes de sentir e sofrer (são sencientes), isto gerar uma percepção nos alunos de que prendê-los ou matá-los pode ser moralmente questionado, contrariando a permissão bíblica de se alimentar de animais, logo, os dados científicos e as reflexões morais racionalmente embasadas teriam que ficar, no mínimo, em segundo plano, quando não extintas.
O mesmo poderá valer para quaisquer discussões morais como a subjugação de mulheres, a homossexualidade, a escravidão, o apedrejamento em praça pública, o assassinato de filhos ou a guerra, já que a Bíblia não parece ser exatamente uma opositora destas tragédias humanas, ou para quaisquer discussões científicas que possam contrariar relatos bíblicos sobre, por exemplo, a criação do mundo e dos seres vivos, tais como a teoria do Big Bang e a evolução das espécies vivas no planeta.
            É preciso cuidado, pois toda reflexão moral pode ser bloqueada pela obrigação de se colocar obrigatoriamente, por lei, a tradição acima da reflexão. Trata-se de uma porta aberta para a barbárie.

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