Política, economia e moralidade: a coerência da barbárie

Dennis Zagha Bluwol, outubro de 2018

 (Revisão de texto original publicado na ANDA em agosto de 2018)

Como alguém que considera o fato da senciência dos animais e, portanto, vê a escravidão e a tortura dos mesmos como imoral, o apelo quase religioso ao agronegócio observado nas últimas eleições estaduais e presidenciais gera-me extrema preocupação e repulsa. Difícil encontrar algum candidato que tenha escapado da tentativa de chamar a atenção dos grandes produtores rurais, dos grandes pecuaristas, seja através de discursos, seja na escolha de aliados ou na escrita dos planos de governo.
Este aceno claro ao agronegócio, especialmente à pecuária, não é em vão. O Brasil é o maior exportador de carne do mundo. A cadeia de “produção” de carne gera R$ 170 bilhões de Reais por ano. Não é nenhuma novidade o poder que, por conta de sua preponderância econômica, a bancada ruralista conquistou em Brasília.
A grande perversão em jogo, além da perversão moral do próprio ato de escravizar e assassinar animais, é a fusão completa da atividade política com interesses puramente econômicos. A confusão sobre os limites específicos da política e da economia faz com que a própria ideia do que seja política esteja tão apodrecida em nossa sociedade que ela nem poderia mais ser merecedora deste nobre nome. A política deveria ter em seu princípio a sincera preocupação com tudo aquilo que é coletivo, com as normas que regem a possibilidade da existência de todos os participantes do jogo social e a relação destes com os demais seres vivos do planeta, assim como com os ambientes que formam as bases da vida na Terra.
Em suma, a política deveria ser a arte de possibilitar a coexistência, preferencialmente balanceando os poderes, para que nem os indivíduos sejam oprimidos pela coletividade, nem a coletividade seja sabotada por interesses individuais.
Desta forma, ainda que caminhem juntam, política e economia não são sinônimas. Nem tudo o que gera rendimentos econômicos é louvável do ponto de vista da existência e da coexistência dos seres vivos e de seus ambientes.
Não se trata de demonizar as relações econômicas. A troca de produção no mercado não é, necessariamente, algo perverso. Grupos humanos podem alcançar padrões mais dignos de vida através da produção e da troca. Contudo, por mais liberdade que se possa defender aos indivíduos e suas trocas (mercado), certos padrões de moralidade nunca deveriam ser ultrapassados. Por exemplo, se eu quiser oferecer meus serviços como assassino de aluguel, por mais que se defenda a liberdade de troca, devo ser proibido ou punido. Da mesma forma, se determinada atividade econômica gera tortura e assassinato de dezenas de bilhões de seres sencientes por ano, mesmo que esta atividade esteja voltada para suprir uma real demanda dos consumidores, ela deve ser proibida ou punida. Nunca apoiada.
Assim sendo, política e economia, ainda que parceiras eternas, possuem objetivos e formas de agir que muitas vezes se diferenciam. É possível discutir até que ponto a política deve ou não deve limitar a economia no sentido de controlar parâmetros econômicos ou manipulá-la artificialmente, mas limites morais devem ser impostos e o respeito a eles deve ser exigido. A política deve impor à economia limites de caráter ético. Esta deveria ser uma tarefa obrigatória dos poderes da República. Nossas legislações devem tecer os limites éticos da sociedade. Nossos políticos e nossas políticas públicas devem ser subalternos a tais leis, ainda que possam aprimorá-las.
Em resumo, é preciso que as linhas mestras da política sejam princípios verdadeiramente éticos e ecológicos. Não é porque a pecuária possui presença central na economia brasileira que deve ser impulsionada pelo Estado (seja pelo BNDS, seja por leis ou fomentos). Se a pecuária é um erro moral crudelíssimo e escravocrata, deve ser barrada. Não há justificativas cabíveis para se passar por cima da moralidade por motivos econômicos. Defender isto seria um erro de mesma natureza que defender o retorno à escravidão humana, se esta render mais lucro para algum setor econômico, ou legalizar serviços como matadores de aluguel, tráfico de órgãos, venda de filmes pedófilos etc. O lucro nunca pode estar acima da moralidade.
Falar em ética na política deve, portanto, ir além de averiguar se o cidadão roubou menos ou mais. Uma sociedade eticamente embasada – o que não somos – deveria escolher - sem questionar aqui nosso presidencialismo e nossa democracia representativa - representantes eticamente embasados.
Princípios éticos (e a real aplicação dos mesmos) deveriam ser o início de qualquer julgamento sobre humanos. As eleições não deveriam ficar fora deste parâmetro. Tal parâmetro precisaria existir na mente dos julgadores, os eleitores, mas isto ainda é, no máximo, uma longínqua utopia. A realidade é que temos políticos amarrados ao agronegócio representando um povo churrasqueiro. Nada incoerente. Há coerência prática na incoerência ética.

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