Veganismo e Ecoveganismo: conceitos fundamentais

Veganismo e Ecoveganismo: conceitos fundamentais

(síntese e revisão de artigos publicados entre 2006 e 2017)


Veganismo: a nova abolição
Talvez a questão moral mais importante de nossos tempos, aquela que mais força o alargamento da esfera de nossas preocupações morais, seja a preocupação com a relação entre a humanidade e as demais espécies animais do planeta[1].
Embora a reflexão sobre padrões morais na relação entre a humanidade e as demais espécies animais gere tantas e diversas argumentações, tantas alterações de ânimos, tantas rejeições e conflitos, em realidade, em sua dimensão estritamente ética, ela é simples, tão simples que deveria ser óbvia: assim como em nossas relações com outros seres humanos, não temos o direito de tratar os demais animais do planeta como objetos, como coisas existentes apenas para a satisfação de nossos próprios prazeres e necessidades.Animais não estão no mundo para nos servir, assim como as pessoas não estão no mundo para nos servir. Trata-se, portanto, de reconhecer o valor essencial do respeito aos indivíduos para todos os seres vivos possuidores de algum tipo de consciência, ou seja, que são capazes de sofrer. Nada poderia ser mais óbvio.
A obviedade desta relação deriva da compreensão de que os animais são, assim como nós, seres sencientes, ou seja, possuem sensibilidade e consciência – não apenas sentem o mundo, mas possuem algum tipo de compreensão sobre o que sentem, o que faz com que sejam capazes de sofrer (apresentam, inclusive, sentimentos como medo, alegria, tristeza etc.). isto faz com que tais animais possuam interesses em suas próprias vidas, mesmo que sejam os interessesmais básicos: permanecer vivo e seguro (fugir do risco e do que pode gerar dor). Estes interesses podem ser comuns para todos os indivíduosde uma espécie, mas não por isto deixam de merecer consideração. Independentemente do que podemos definir como ter-se “interesses”, quando se trata de animais não humanos, certamente não englobam serem encarcerados, violentados ou assassinados.
A senciência, portanto, deve ser um ponto central em nossas considerações de caráter ético: o fato de que um ser é capaz de sofrer faz com que qualquer ação que o impacte deva passar por um responsável crivo moral. Assim sendo, escravizar, torturar ou violentar animais é tão errado quanto possuir as mesmas posturas com (contra) seres humanos.
Por que nossa ética convencional vê com tanta diferença uma dor gerada em humanos e uma dor gerada em um animal não-humano? Por que se vê com tamanha normalidade tantas coisas feitas aos animais que seriam julgadas como absurdas se feitas aos humanos?
Se animais são sencientes e possuem o direito de viver suas vidas do modo como convier para membros de sua espécie, o nome correto a dar-se para a condição de vida de grande parte dos animais com os quais a humanidade possui relação mais direta é “escravidão”. Trata-se de confinar seres e obrigá-los a passar a vida servindo aos interesses de outros seres. Não há porque, pelo que já se sabe sobre a consciência e o comportamento dos animais, evitar usar este termo. Trata-se, assim, de uma escravidão ainda legalizada, que envolve muito mais seres vivos do que todas as escravidões de humanos e períodos de exceção envolveram[2] e que necessita, e é este o ponto da história em que vivemos, de um movimento abolicionista, ou seja, de profundas alterações culturais capazes de transformar radicalmente a maneira como os animais são vistos e tratados pela humanidade.
É urgente, assim, romper com o nefasto padrão de pensamentos e práticas no qual os animais não-humanos são classificados como inferiores aos animais humanos, não sendo beneficiários de nossos mais básicos princípios morais.
Este padrão de pensamento pode ser nomeado de especismo, ou seja, trata-se de uma discriminação baseada na espécie do ser vivo, atribuindo valores ligados à dominação unicamente com base nesta distinção. Este é um processo semelhante ao do sexismo ou racismo, práticas nas quais membros de um gênero/raça[3] atribuem a si mesmos, sem nenhuma justificativa que passe por qualquer crivo racional válido, superioridade sobre membros de outro gênero/raça e, além disto, postulam que tal superioridade os autoriza a tratar os membros do grupo postulado como inferior com desrespeito, dominação ou violência.
Fazer julgamentos morais baseando-se em aspectos moralmente não relevantes da configuração de alguém (gênero, raça, classe social ou espécie, por exemplo) é um traço de mentalidades primitivas que deve ser combatido visando o estabelecimento de relações mais nobres de coexistência.
Ninguém deve ser automaticamente classificado como inferior ou como passível de ser violentado ou dominado apenas por ser mulher, homem, branco, negro, asiático, europeu, africano, pobre, rico, humano ou não-humano. Nenhum ser deve ser explorado ou ser submetido a tratamentos dolorosos – fisicamente ou psicologicamente – como parte de interesses egoístas de outro(s) ser(es). Eis princípios de decência moral a serem alcançados por nossa espécie.
Postas estas argumentações, cabe então que se repense todas as práticas humanas que envolvem exploração de animais. A pecuária não passa de um gigantesco holocausto, onde bilhões de criaturas experienciam uma enorme variedade de violências dentre aquelas que nossa bela espécie aprimorou pelos séculos; a indústria dos testes em animais coloca pretensas necessidades práticas da produção de fármacos, produtos de higiene e estética (necessidades, elas mesmas, contestadas por especialistas) antes de resoluções éticas fundamentais, como a imoralidade de escravizar o corpo dos animais e neles realizar testes de substâncias; as fontes de “entretenimento”, como zoológicos, circos com animais ou rodeios apenas reforçam e naturalizam a pretensa supremacia humana em relação aos demais animais, normalizando a barbárie desde a primeira infância. Eis um quadro de nossos padrões de coexistência neste planeta. Eis um quadro de nossa mais profunda e duradoura tragédia.
Como oposição a esta calamidade moral, há atualmente uma série de reflexões e práticas que buscam uma relação eticamente aceitável com os diversos animais do planeta. A este conjunto de pensamentos e práticas, chama-se “Veganismo”. Em resumo, trata-se de se abster de utilizar qualquer produto advindo da exploração de animais, ou seja, que os trate como nossas propriedades, como objetos, como matérias-primas. Isso inclui alimentação (carnes, ovos, leite, mel...), vestuário (lã, seda, peles...), entretenimento (rodeios, zoológicos, cavalhadas...), produtos testados em animais ou que usem partes de animais em sua composição ou quaisquer outros ramos das atividades humanas que utilizem animais.
Considerando que o ideal vegano visa a libertação dos animais das amarras criadas para eles pela humanidade, trata-se de um movimento de caráter abolicionista. O Veganismo almeja não apenas leis que melhorem o bem estar dos escravos com medidas paliativas que diminuam a intensidade de suas torturas, mas a total abolição da escravidão dos animais. Eis aí a questão moral mais vanguardista e transformadora de nossos tempos.

Ecoveganismo: para além do Veganismo de consumo.

Muito do Veganismo atualmente praticado diz respeito ao boicote de produtos advindos da morte ou da exploração direta de animais, como no caso de produtos fabricados com partes de animais mortos e testados em animais, além de quaisquer atividades que explorem animais, como, por exemplo, diversas formas de entretenimento. Como oposição, estimula-se o consumo de produtos e serviços que não utilizem animais, vivos ou assassinados.
O princípio que embasa o Veganismo e as teorias sobre direitos dos animais é o fato de que os animais são seres sencientes – são capazes de sofrer - e, portanto, são merecedores de respeito individual[4]. O Veganismo é, assim, de natureza muito diversa da do ambientalismo, que possui bases coletivistas, focando-se nas espécies e ecossistemas, importando, principalmente, as relações entre seres, o número de indivíduos em uma certa região ou a “sobrevivência” da espécie.Neste olhar, inclui-se (permite-se e, às vezes, estimula-se)a exploração controlada da natureza (se a espécie não está em extinção ou se não se está em certo momento da vida de membros da espécie, como no período de reprodução, não há problema em matar seus membros).
Se não pensamos deste modo em relação aos humanos, por que deveríamos pensar em relação aos outros animais? Para o Veganismo, a questão não é se ainda há espécimes vivos de uma espécie ou se o número de seres mortos em um ano está dentro dos parâmetros legais para a manutenção da existência da espécie. Importa o respeito às necessidades específica de cada animal.
Há, portanto, um salto qualitativo dado pelo Veganismo, ou pelas teorias sobre direitos dos animais, em relação ao ambientalismo: a passagem de uma visão de mundo puramente coletivista para uma que se atenta aos entes concretos. O coletivismo, apesar de parecer algo belo, é, em realidade, uma visão de mundo homogeneizante e que possibilita diversos tipos de violência. Ditaduras, de direita ou de esquerda, são coletivistas, já que embotam a existência de entes concretos em nome do funcionamento global da sociedade, controlada como uma massa única por uma elite no poder. Um ambientalista que outorga a si mesmo o direito de falar quais animais podem ser mortos e quais não podem é um ditador. Este ambientalismo, assim, reproduz a visão de mundo geradora dos problemas ambientais: aquela que põe o ser humano no centro e no controle do mundo.
Vale, neste ponto da argumentação, uma pequena reflexão sobre o “verde”: por que o ambientalismo faz de sua bandeira a defesa do verde? Por que apenas verde? A natureza só é verde quando a olhamos de forma generalizada, quando somos uma dimensão separada a observando de fora (como em um avião sobrevoando uma floresta). A natureza, em realidade, compõe-se de todas as cores e, importantíssimo não esquecer, do invisível, ou seja, de todas as incontáveis relações que são a base da existência de tudo o que existe. Quando olhamos a natureza em suas múltiplas escalas e inter-relações, o verde, ainda se possa achar belo, torna-se apenas mais uma cor num espectro que nos aparenta infinito. Se queremos estabelecer ações humanas ecologicamente mais dignas, precisamos nos atentar para todas as “cores” e para todas as relações que embasam nosso mundo. O verde é a cor de quem olha a natureza por cima, de fora, de quem a domina. O ambientalismo verde não é, portanto, representante de nossas mais profundas preocupações éticas.
Contudo, na postura vegana de atenção aos indivíduos, há também um problema, quando tal atenção restringe-se apenas aos indivíduos: é igualmente fundamental respeitar os ecossistemas (coletivo) e os indivíduos. A própria oposição entre os dois já é problemática. Não há respeito a um sem respeito ao outro, pois os dois focos de respeito são, em realidade, inseparáveis[5]. Todos os indivíduos da natureza dependem, para sobrevivência própria, das inúmeras relações ecossistêmicas nas quais estão inseridos. A vida é um infinito conjunto de relações que devem ser respeitadas tanto quanto o direito de cada ser de viver em liberdade de acordo com seus próprios interesses (mesmo que sejam interesses comuns de toda sua espécie). Em realidade, o “todo”, a “natureza”, não é algo que exista em si, como um ser autônomo. É o resultado da união dos entes e fenômenos individuais. É a relação entre todos os processos existentes. “Natureza” é uma abstração humana. Assim sendo, discursos do tipo “salvem a natureza” ou “tenham uma visão holística”, normalmente caem no vazio (mas podem gerar bons dividendos em doações e programas de fomento com verba pública).
O termo “indivíduo”, etimologicamente o não divisível, também pode gerar compreensões equivocadas. O “indivíduo” é, na verdade, algo que só existe em relação, algo formado por incontáveis processos fluidos. Nunca é algo uno, isolado. É importante que durante a leitura deste texto se atribua este valor para o termo.
Assim sendo, não há como pensar em um Veganismo, assim como em uma política, que seja plenamente individualista nem plenamente coletivista. É preciso uma ética cujos fundamentos sejam a interdependência e a coexistência, que não coloque nem indivíduos “no centro do mundo” (o que faz com que possam passar por cima dos interesses coletivos ou de outros indivíduos para atingir as próprias finalidades – ainda que o individualismo, numa concepção mais profunda, devesse levar ao respeito ao interesse dos demais indivíduos), nem coletivos “no centro do mundo” (o que faz com que se possa passar por cima de existências individuais para garantir a existência coletiva: fascismo político ou ambiental).
Partindo-se destas reflexões, propõe-se aqui um Ecoveganismo. Veganismo no que se refere ao trato e respeito a cada animal como merecedor de respeito aos seus interesses específicos, como não passível de ser propriedade de outro ser, como merecedor de liberdade. “Eco” no sentido de que esta preocupação é inseparável da preocupação com aquilo que é coletivo por princípio, que embasa e possibilita a vida – e a qualidade da vida – de todos estes seres: este infinito conjunto de relações e transformações entre tudo o que há - seres vivos, minerais, gases, águas, dinâmicas de relevo, hídricas, atmosféricas, tectônicas etc. - ao qual chamamos, em nossos conceitos abstratos, de natureza.
Como exemplo, tomemos a alteração de nossos padrões alimentares, parte fundamental das propostas de cunho ético do Veganismo. Esta deve ir além da retirada de ingredientes de origem animal dos pratos.Um Veganismo de bases ecológicas deve pensar naquilo que é prejudicial e destrutivo aos ecossistemas e toda vida que há neles.
Exemplos muito comuns daquilo que devemos nos preocupar, fundamentos de nosso modo de vida e de nossa maneira de produzir comida, são: extração de matéria-prima em escala industrial; monoculturas; agrotóxicos; geração de enorme quantidade de lixo industrial altamente poluente; viver uma sociedade baseada na petroquímica; poluição dos solos, águas e ares com produtos químicos, tóxicos, sintéticos; hábitos de vida que levam as pessoas a serem dependentes de medicamentos, que serão excretados na água e no solo pela excreção; aniquilamento de diversidade biológica em áreas de plantio e extração de matéria-prima etc.
Estas formas de violência devem ser consideradas tanto quanto as formas de violência direta aos animais. Expandir a prática vegana já consolidada passa por não atrelá-la ao estímulo ao consumo de produtos responsáveis por esta lista de desgraças. Um produto pode ser feito apenas de ingredientes vegetais e sintéticos, não sendo responsável pela morte de um animal específico, porém pode ser responsável pela destruição de ecossistemas inteiros: oceanos, florestas, rios, atmosfera etc. E, assim, claro, de um número incontável de animais.
Portanto, a escolha do alimento com base em preocupações de teor ético vai além de este conter ou não ingredientes de origem animal. É urgente que pensemos e coloquemos em prática formas diferentes de produzir e consumir nossa comida[6] tanto quanto é urgente pensar no que devemos ou não ingerir. É preciso repensar nossas fontes de produtos vegetais, geralmente estruturadas em grandes monoculturas com alto uso de agrotóxicos que destroem ecossistemas e espécies nativas mundo afora. Não há como justificar que o alimento que mantém a vida de um necessite destruir a vida e a qualidade da vida de muitos. Precisamos de um padrão alimentar que respeite todas as formas de vida. Inclusive a nossa.
Ao mesmo tempo, o Veganismo precisa repensar a postura consumista que vem apresentando como estratégia de autodivulgação (venha, aqui você também pode comprar e se empanturrar!). A mentalidade do Veganismo – se sua preocupação é realmente com a tortura e morte de animais - precisa, portanto, expandir-se. Ou morrerá como mais uma forma pueril de modismo.



[1]Considere-se que outras questões éticas de natureza semelhante (opressão de grupos por outros grupos), mas ligadas a opressão de grupos humanos por outros grupos humanos, já estão mais difundidas socialmente, muitas vezes já sendo entendidas como o pensamento “normal”. Com relação aos animais não-humanos, contudo, esta discussão ainda é vista com estranheza.
[2]A humanidade abate sessenta e sete bilhões de seres por ano (Food and Agriculture Organization of the United Nations, 2010), apenas para consumo de carnes e apenas de animais terrestres (isto significa que este número em realidade é bem maior, já que a utilização de animais marinhos é altíssima e, em alguns locais, majoritária).Sendo este dado de 2010, atualmente pode ser maior.
No Brasil, são mortos para alimentação um boi, um porco e cento e sessenta e seis frangos por segundo (IBGE, 2013). Se considerarmos, além do assassinato de seres aquáticos, todos os animais que são explorados para outras funções, tanto alimentares (leite e ovos, por exemplo), quanto para os demais setores econômicos, estes números assustadores crescem ainda mais.
Para possibilitar a comparação, vale lembrar que o holocausto nazista matou aproximadamente vinte e um milhões de pessoas, dentre elas seis milhões de judeus; os regimes comunistas mataram mais de cem milhões de pessoas; estima-se que nove milhões de negros foram trazidos da África como escravos para a América nos séculos de tráfico negreiro; aproximadamente sessenta mil pessoas são assassinadas por ano no Brasil. Nenhum número chega, nem de perto, ao número de vítimas não-humanas em um único ano.
[3]A ideia de raça não se aplica, a rigor, à espécie humana, mas uso aqui este termo para não entrar em maiores discussões sobre tal conceito, fugindo do tema proposto para este artigo.
[4]Entender o Veganismo como uma derivação natural de propostas socialistas é, portanto, um equívoco.
[5] Se ficou preocupado com a nota anterior, achando que por algo não ser socialista deve ser obrigatoriamente defensor de um egoísmo facínora, um inimigo do mundo, pode relaxar. Ou estudar as semelhanças entre Stalin e Hitler.
[6]Agrofloresta, Agroecologia e Permacultura são práticas a serem mais estudadas e incentivadas.

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