O que é matar? (2013)


O que é matar?
Uma reflexão sobre a plenitude da vida
Dennis Zagha Bluwol, 2013 (revisado em 2018)

Introdução
Costumamos entender como morte o fim total da vida e como vida o exato oposto disto, o que nos leva a valorar de forma completamente diferente, como fatos de naturezas diversas, o assassinato e todas as formas de opressão.
Um exemplo: recentemente, em uma rede social, um conhecido publicou uma foto de um jovem parente segurando um peixe recém-pescado nas mãos, com um comentáriode que esta “experiência em família não tem preço”. Respondi então mostrando o preço que o peixe pagou: ser perfurado por um metal sentindo extrema dor, ser puxado para fora de seu habitat por este mesmo furo dolorido, ficar certo tempo fora da água – o que equivaleria para nós a ficar dentro da água, com toda a angústia de não respirar – ser manipulado por seres estranhos até ser jogado de volta para a água com toda a dor e desespero resultantes desta experiência. Sua tréplica foi reafirmar que eles não o comeram, ele não foi para a panela, então foi tudo bem para todos.
Diferencia-seradicalmente, portanto, o status de matar um ser ou torturá-lo.
Este texto pretende refletir sobre esta diferença.

Mortificação e vivificação
Aquilo que comumente chamamos de morte diz respeito ao fim da vida, à morte absoluta. A isto podemos chamar de “morte plena” (desconsiderando aqui, dado o tipo de interesse desta reflexão, as considerações espiritualistas). Em seu oposto, normalmente coloca-se a vida. Ou se está vivo ou se está morto. Contudo, como polo oposto da morte plena, podemos idealizar a existência de uma “vida plena” e entre estes polos um contínuo, uma gama de tendências, elementos e atos que nos mortificam ou vivificam. Não estamos apenas mortos ou vivos. Em vida, podemos estar mais vivos ou mais mortos. Podemos nos vivificar ou mortificar, assim como podemos vivificar aos outros ou mortificá-los.
Há, então, o que plenifica a vida e o que plenifica a morte, para além do que gera a morte absoluta, como o assassinato, ou o que gera a vida em senso estrito, como os atos reprodutivos.
Vida plena está intimamente relacionada com a liberdade, termo indefinível mas que inclui poder experienciar  nossas potencialidades específicas, idealmente para que possamos realizá-las de forma cada vez mais hábil. Este processo de experienciar a si mesmo enquanto se experiência o mundo, alterando-se neste caminhar, é inerente a uma vida bem vivida, mais viva, mais plena.
Tudo aquilo que impulsiona a plenitude das potencialidades de um ser vivo o vivifica. Tudo aquilo que diminui a possibilidade deste ser viver habilmente as próprias potencialidades é uma mortificação: também é, em suma, matar.

Matando animais
Quando pensamos eticamente em nossa relação com os demais animais, é preciso ter o princípio acima em consideração: tudo aquilo que fazemos que os impede de ter uma vida mais plena, livre, de gerir a própria vida, de viver de acordo com seus próprios hábitos, os mortifica. Não matá-los inclui não prendê-los, não torturá-los, não debicá-los, não engaiolá-los, não enjaulá-los, não acorrentá-los, não adestrá-los, não isolá-los, não paralisá-los, não testá-los, não pescá-los, não montá-los, não chicoteá-los, não tosquiá-los, não reduzi-los a exposições em zoológicos, a objetos de entretenimento, a produtos comercializáveis, a matérias-primas...Não se pode reduzir, portanto, a consideração moral dos animais apenas a tirar suas vidas ou não.
Aí, no conceito de morte, encontram-se conectadas as diferenças entre ovolacto-vegetarianismo e veganismo e entre bem-estarismo e abolicionismo animal. Respeitar a vida de um animal é não explorá-lo de nenhuma forma, não torná-lo escravo da humanidade, independentemente de se será morto para virar bife ou “apenas” viverá preso para que se tire seu leite ou seus ovos.
O veganismo, portanto, com todos os seus aparentes “nãos” – não comer carne, não tomar leite, não comer ovo, não comprar produtos testados em animais, não frequentar rodeios, zoológicos, circos com animais... -, é na realidade um sim, pois não matar não é um não. Não matar é dar um simpara a vida e para tudo o que a vivifica.
Para o ativista vegano, é importante deixas de ver-se apenas como parte do grupo negador. Os veganos são um grupo vivificador. Negamos a mortificação para que os animais possam viver de fome mais vívida.O grande negador é justamente o status quo ainda presente. Não nós.

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