O perigo ao Veganismo dos argumentos ambientalistas (2010)


O perigo ao Veganismo dos argumentos ambientalistas
Dennis Zagha Bluwol, 2010 (revisado em 2018)

Em texto anterior neste blog apresentou-se uma defesa da união do pensamento vegano ao pensamento ecológico, ou seja, a necessidade de pensar o Veganismo de forma ecossistêmica, rompendo tanto com um individualismo estrito quanto com um coletivismo opressor.Não há respeito aos seres sencientes, objetivo do Veganismo, sem respeitar seus lares.Impactos gerados aos ambientes causam sofrimento e morte a um número incontável de seres. Faz-se, contudo, necessário expor um porém sobre alguns limites deste argumento, discernindo o que pode, aí, ser um tiro no pé.
Na segunda-feira de carnaval do ano de 2010, o climatologista do INPE Carlos Nobre esteve presente em um famoso programa de entrevistas, o Roda Viva da TV Cultura. Quando perguntado sobre as relações entre a pecuária e o aquecimento global, haja visto que os gases emitidos pelos animais, na concentração em que se encontram em criadouros, são associados ao fenômeno de forma até mais considerável que nossos meios de transporte e que parte considerável dos desmatamentos atuais possuem como objetivo abrir espaço para a criação de gado ou o plantio de cereais e grãos direcionados para a fabricação de ração, Nobre elencou com a maior naturalidade mudanças tecnológicas que diminuiriam a emissão de gases de efeito estufa para a atmosfera, além de outros impactos ambientais. Uma delas: aumentar a densidade de bois por hectare na pecuária extensiva (que é a praticada no Brasil). Outra: “aprimorar” geneticamente as rações e os animais para que estes cresçam mais rapidamente e possam ser mortos com menos tempo de geração de impactos. Ainda outra: em locais de pecuária intensiva, como no Japão e muitos locais da Europa, para diminuir a emissão de Metano, os animais ficariam confinados durante toda a vida em uma edificação fechada e todos os gases emitidos seriam canalizados para a produção de energia.
Aí está um cuidado a se ter quando se bate na tecla dos impactos ambientais da pecuária, um dos argumentos mais comumente utilizados para defender o vegetarianismo. Pode-se facilmente, se não houver cuidado, alimentar-se um tipo de discurso que será um tiro no pé a cada vez que a indústria agropecuária realizar alguma mudança tecnológica (e alardear-se como ambientalmente responsável por seu respectivo marketing em propagandas e notícias pelo mundo). Se a pecuária conseguir um dia neutralizar emissões de gases estufa e diminuir os impactos da pecuária extensiva confinando o gado ao máximo em ambientes controlados, não só os veganos serão motivos de chacota, por terem tido seus argumentos quebrados, como terão feito um trabalho de marketing prévio dos problemas atuais resolvidos pela tecnologia do futuro próximo (e eles estão trabalhando seriamente nisto, não só porque é bom para o marketing ecológico, mas porque podem aumentar ainda mais os lucros da produção).
Assistiremos assim a imposição de mais confinamento e sofrimento para os animais de forma que o público (como há tão pouca diversidade de opiniões na opinião pública) ache as medidas positivas, já que o gado já é mundialmente reconhecido como um grande culpado pelo aquecimento global. Imagine poder comer seu bife sendo “ambientalmente correto”. Um prato cheio para o marketing.
É preciso atentar-se para todo o impacto que a alimentação centrada em partes de animais mortos gera aos ecossistemas, mas isto deve ser feito de maneira cautelosa, e não apenas pegando carona em problemáticas midiáticas[1], sob o risco de desvirtuar-se a importância ética do respeito aos animais e dar voz aos aproveitadores do “momento verde”.
Entender o Veganismo de forma ecossistêmica não é o mesmo que repetir acriticamente qualquer discurso existente sobre a questão ambiental sem atentar-se para quem está produzindo o discurso e quais podem ser seus objetivos. É preciso ficar alerta com as pretensões do ambientalismo e nunca perder de vista que o coração do Veganismo é a abolição da escravidão dos animais, antes de qualquer outro benefício que esta libertação pode vir a gerar. Pegar carona no ambientalismo é pegar carona em um discurso que omite o sofrimento dos animais enquanto indivíduos. Não precisamos disto para alcançar maior público para nossas ideias. Disfarçar o Veganismo como uma forma de ambientalismo é matar a essência do Veganismo e, portanto, uma estratégia equivocada. Nem Veganismo, nem o Ecoveganismo proposto em outro artigo neste blog, são de mesma natureza que o ambientalismo mais usual.


[1]Um comentário sobre o aquecimento global: se o aquecimento global por causa antrópica é um fato, é difícil ter certeza. As opiniões de especialistas divergem, ainda que haja um poderoso movimento global de defesa da ideia. Independentemente de haver uma causa antrópica para um aquecimento global, o fato é que ele se tornou mais uma agenda política e econômica do que uma questão ambiental. Questões ambientais concretas e existentes em todos os lugares, como poluições, desmatamentos, assoreamento de rios etc. são muito menos comentadas em noticiários, mídias de todos os tipos, ônibus, botecos e universidades do que o aquecimento global, estando elas em nossas esquinas, defronte aos nossos olhos.


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