Concidadão Animal (2015)


Concidadão Animal
(Para ver a fauna urbana)
Dennis Zagha Bluwol, 2015

A cidade é o reino da humanidade. Nela, os seres humanos são senhores. São eles quem a projetam, a constroem, estipulam o que deve existir e onde cada coisa deve ficar. A cidade é o resultado do suor da face humana, do desejo constitutivo do espírito humano de ser como um deus. A cidade é a oposição à natureza doadora de alimentos: nela o ser humano é senhor e mestre da natureza, a transformando até o ponto de ser irreconhecível, a não ser por olhos mais treinados ou poéticos. Belos minerais tornam-se vigas de arranha-céus, placas de concreto ou janelas; belos troncos tornam-se bancos e mesas; restos de seres mortos há milênios, guardados sob a escuridão da Terra, tornam-se cabides, canetas e copos descartáveis. A amplidão do mundo sem caminhos torna-se ruas, avenidas e ruelas. A vastidão da vida vegetal torna-se decoração de calçadas e edifícios; a vastidão da vida animal torna-se os pets.
Mas há aqueles resistentes! Há aqueles que ousam ser tão habitantes da cidade como nós. Seres sempre presentes a lembrar, para os que ainda conseguem ver, que há vida para além de nosso umbigo.
Todos os animais da Terra sofrem com o domínio humano. Alguns deles, os mais escravizados, são já defendidos pelos ativistas dos direitos animais, que propagam, corretamente, o Veganismo como hábito diário, o fim dos testes em animais, o fim do uso de peles para vestimentas, assim como o fim do uso de animais em rodeios, touradas, zoológicos e outras formas bárbaras de entretenimento. Contudo, alguns animais ainda possuem pouca defesa pública. Exemplos: ratos, pombos, formigas, siriris...
A lista poderia ser bem maior, mas atentemo-nos a estes, neste momento. O que segue, são observações reais e cotidianas de minha vida urbana.

Pombos
Já notaram o modo como motoristas, muitos deles, tratam os pombos? Certamente não diminuindo a velocidade e desviando o carro da rota de colisão do grupo de aves que no momento busca alimento no solo. Em verdade, aceleram para cima dos indivíduos como se fossem invisíveis. Eles que consigam voar rapidamente antes da pesada roda os esmagar ou, com sorte, quebrar apenas algumas partes de seus corpos, usualmente asas, gerando extrema dificuldade em garantir, no futuro, suas sobrevivências.
Pombas mortas nas ruas ou com membros fraturados são parte das paisagem cotidiana de quem tem olhos para ver.
A situação das calçadas também não é animadora. Chutes, enxotes violentos ou perseguições por crianças – com aval tranquilo (e, por vezes, expressando diversão) dos progenitores e outros “adultos” (faltam aspas suficientes para tal adjetivação) –, assim como o comum fenômeno da invisibilidade alheia, são experiências constituidoras do dia-a-dia dos pombos da nação, destes párias de nosso reino.

Siriris
Em dias de calor, ao final da tarde, em algumas regiões, grupos imensos de siriris tomam conta dos ares (alguns os chamam de aleluias). Na região de minha residência, em cidade próxima à São Paulo, assim é. Entradas luminosas de lojas, shoppings e outros prédios ficam abarrotadas de insetos, finalizando seus voos, soltando-se de suas asas para iniciarem, assim deveria ser, milhares de cópulas para a formação de novas famílias reais em novas colônias. Mas os jovens casais de reprodutores encontram, antes do par com quem iniciarão uma nova casa real, pneus de carros, solas de sapatos e vassouras.
Certa vez, entrando em um mercado hortifrutigranjeiro perto de casa, em um quente fim de tarde, tomando o máximo de cuidado para não pisar em nenhum dos muitos siriris pelo chão, avisto o responsável pela faxina varrendo brutalmente dezenas, centenas de siriris vivos para dentro de uma pá. Obviamente, desisti das compras. Do escândalo, gerou-se um pequeno diálogo entre minha esposa e o faxineiro, cujo teor completo não reproduzirei aqui, mas que iniciou-se com uma pergunta certeira: “o senhor gostaria de ser varrido?”.

Ratos
Estes são considerados vilões por natureza, como se tivessem vindo ao mundo apenas para instaurar o terror. Em realidade, contudo, são seres maravilhosos, inteligentes e graciosos. Para quem tem olhos para ver, claro. Nem é preciso falar muito sobre o destino certeiro dos ratos que ousarem cruzar nossos caminhos ou habitarem em nossas regiões. Pauladas, venenos, ratoeiras... eis o modo humano de viver a diversidade, mesmo entre aqueles que a pregam (para humanos, sempre).
Ratos podem transmitir doenças? Sim, podem. Humanos podem transmitir doenças? Sim, podem. Alguém dará vassouradas na cabeça de um homem gripado ou colará seu corpo em um piso para que se debata até morrer de fome?
Ratos trazem sujeiras para nossas casas? Sujeiras do esgoto, quando é de lá que vêm? Sim, pode ser... Mas esgoto com restos de quem, mesmo?
Se o rato está contaminado com uma doença que traz do esgoto, então somos nós que contaminamos os ratos, não?
Mas não liguem para meus exercícios de lógica, grotescos e combatidos como exercícios opressivos da formação mental de parcela da humanidade. Os ratos estão aí, para além de minha lógica e de tua raiva. Estão aí, marginalizados, perseguidos e odiados. Marginalizados inclusive pelos defensores de inclusões, perseguidos até pelos defensores de justiças não punitivas, odiados até pelos paladinos do amor.

Formigas
Para não tornar-me repetitivo e maçante, apenas direi aqui duas lembranças visuais: “passam pano como se fossem manchas de gordura sobre a pia” e “pisoteiam como se não existissem”.
*
Nem é preciso dizer que estes animais, além de muitos outros que convivem conosco nas cidades, não são considerados como habitantes, como concidadãos. Em realidade, mesmo parte dos seres de nossa própria espécie não o é, quanto mais seres de outras espécies que não foram comprados em pet shops. Todavia, estes animais são urbanizados tanto quanto nós. São habitantes das cidades assim como nós. Aqui é o lugar deles, assim como o nosso. E como tratamos nossos parceiros de habitat? Da mesma forma como costumamos tratar todos os seres que se diferem de nós em alguma coisa: agredindo, apagando a presença e, se possível, matando.
(Sobre “apagar a presença”, vale lembrar dos membros das mesmas espécies dos vendidos em pet shops – cães e gatos, por exemplo -, mas habitantes das ruas, comedores de lixo e bebedores de sarjetas – os mendigos do mundo animal).
A cidade é o reino da humanidade. Uma monarquia absolutista com vários reis, milhões de reis. Reis que se matam entre si, mas que unem forças no combate às demais espécies que ousam ocupar as terras do sacro império humano. Avante!

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