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Mostrando postagens de 2017

(2017) Carne contaminada?

A maior contaminação da carne é a contaminação moral.

(2017) Lógica e picaretagem: a PEC da vaquejada

Um dos papéis fundamentais da escola é ajudar os alunos a desenvolverem lógica. Sabemos que há lógicas diversas, ou seja, formas diversas de organizar o raciocínio, mas para o caso do que queremos discutir aqui, basta, porém, o arquiclássico esquema do silogismo aristotélico, básico para a estruturação do pensamento de qualquer pessoa com uma educação minimamente consistente nos últimos 2300 anos:
a.Uma premissa (maior) b.Outra premissa (menor) c.Portanto... (conclusão)
Nós, defensores dos direitos dos animais, costumamos partilhar a compreensão e a valorização de algumas sequências lógicas deste tipo. Por exemplo:
a.Todo ente senciente é capaz de sofrer; b.Animais não humanos são sencientes; c.Logo, animais não humanos são capazes de sofrer.
Outra: a.Causar sofrimento a algum ente é imoral; b.Nossas atitudes para com os animais causam sofrimento; c.Logo, nossas atitudes para com os animais são imorais.
Outra: a.Obrigar um ente livre a viver em função de outro é escravidão; b.Animais são entes livr…

(2016) Veganismo como postura de respeito aos animais

(Revisão de artigo de 2006)
Veganismo é o nome dado ao conjunto de pensamentos e práticas cuja finalidade é a tentativa de ter com os animais não-humanos uma relação eticamente aceitável. Em resumo, trata-se de abster-se de utilizar qualquer produto advindo da exploração de animais, ou seja, que os trate como nossas propriedades, como objetos, como matérias-primas. Isso inclui alimentação (carnes, ovos, leite, mel...), vestuário (lã, seda, peles...), entretenimento (rodeios, zoológicos, cavalhadas...), produtos testados em animais ou que usem partes de animais em sua composição ou quaisquer outros ramos das atividades humanas que utilizem animais. A decisão de aderir ao veganismo, alterando muitos de nossos hábitos cotidianos, parte do princípio de que nós,  humanos, não temos o direito de tratar os demais animais do planeta como objetos, como coisas existentes para a satisfação de nossos prazeres e necessidades. Esta conclusão comumente deriva do fato de que animais são seres  senci…

(2016) Apenas mais uma manhã

Hoje, mais um dia útil. Vou para o trabalho. Cedo. Seis da manhã. Cruzo municípios, como todo dia. Como todo dia, observo o mundo e sou obrigado a observá-lo. Na rodovia, meu dia inicia-se com um cão atropelado ao meio-fio. Morto. Paisagem cotidiana para quem cotidianamente circula em estradas. Sigo. Rádio ligado em uma estação de notícias. Entrevista com o criador de uma franquia de açougues gourmets. Impressionante como consegue falar com tanta tranquilidade de seus “negócios” sem a mais remota consideração sobre o óbvio fato de que seu “produto” são animais e que animais não são coisas inanimadas. Ele lembra, com orgulho, da postura de seu pai, pecuarista, que, em seu empreendedorismo diferenciado, possuía a nobre postura de olhar para o boi pensando na carne, não apenas no ganho de peso. Em seguida, outra entrevista. Um pesquisador que trabalha no desenvolvimento de uma vacina contra o vírus Zika. Relata objetivamente o processo da pesquisa. Haverá testes em ratos e primatas. Vêm então…

(2015) Detritívoros éticos

Somos onívoros! Somos onívoros! Assim nos dizem, nos martelam os livros, sob a tutela de humildes cientistas. Há seres detritívoros e onívoros, além dos herbívoros e carnívoros. Somos comedores de animais e vegetais, mas onívoros! Não como aqueles nojentos comedores de animais e vegetais que comem cadáveres, corpos em decomposição… os… urgh!!… detritívoros. * – Uai… há quanto tempo foi morto – assassinato qualificado, com requintes de crueldade – o boi de quem o corpo foi reduzido a este bifinho em vosso prato? Quanto tempo em frigoríficos, transportes, meandros da indústria da morte? – Mas não!!! Conservamos o alimento com químicos e congelamento. Não os comemos podres! Somos onívoros! Argh!! Detritívoros… – Mas onde começa o apodrecimento? * Não sei, mas sei de um apodrecimento que com certeza inicia-se ainda antes do abate: o apodrecimento ético. Este, sempre presente. Cadaverina moral, talvez a substância mais presente nos organismos humanos. Cadaverina que transforma decência em detritos.
D…

(2015) Concidadão Animal

Concidadão Animal (Para ver a fauna urbana)
A cidade é o reino da humanidade. Nela, os seres humanos são senhores. São eles quem a projetam, a constroem, estipulam o que deve existir e onde cada coisa deve ficar. A cidade é o resultado do suor da face humana, do desejo constitutivo do espírito humano de ser como um deus. A cidade é a oposição à natureza doadora de alimentos: nela o ser humano é senhor e mestre da natureza, a transformando até o ponto de ser irreconhecível, a não ser por olhos mais treinados ou poéticos. Belos minerais tornam-se vigas de arranha-céus, placas de concreto ou janelas; belos troncos tornam-se bancos e mesas; restos de seres mortos há milênios, guardados sob a escuridão da Terra, tornam-se cabides, canetas e copos descartáveis. A amplidão do mundo sem caminhos torna-se ruas, avenidas e ruelas. A vastidão da vida vegetal torna-se decoração de calçadas e edifícios; a vastidão da vida animal torna-se os pets.                 Mas há aqueles resistentes! Há aquel…

(2015) Carreta na rodovia? Que horror!

Indo ao trabalho, ouço no rádio: uma carreta tombou no trecho oeste do Rodoanel. Trânsito na região. A carga era de porcos. O trânsito, obviamente, era a notícia.
(Não consigo evitar o pensamento: melhor morrer aí ou no “frigorífico em Carapicuíba” para onde estavam sendo levados, como informou-me o texto escrito de outro jornal? E aí outro pensamento invade-me: os motoristas que passavam pela rodovia no momento do acidente enxergavam porcos agonizantes ou desperdício de linguiças?) Motorista, mais um pesar para tua manhã: mais trânsito por causa de um tombamento. Trânsito! O horror cotidiano do trabalhador citadino. Maldita carreta, maldito trânsito… eis a notícia da manhã. Ao trabalho. Cá estou. Preocupado com os porcos. Ah, que absurdo… pensando nos porcos enquanto meus concidadãos agonizam no trânsito… que inimigo da pátria sou eu! Pesquiso notícias: como estarão os porcos? Em minha mente, apenas a reconstituição da cena… 110 seres sencientes, sensíveis, conscientes, apavorados e en…

(2014) Olim Lacus Colueram

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Olim Lacus Colueram

Chickens being roasted on a spit. Romance of Alexander, Bruges, 1338-44
Há composições eruditas que alcançaram o conhecimento massivo do público popular contemporâneo, mesmo que boa parte deste desconheça qualquer informação sobre a obra: autor, período ou intenções. Exemplos são a Primavera de Vivaldi, a Marcha Fúnebre de Chopin e a Marcha Nupcial de Felix Mendelssohn. Outra música que atingiu este patamar é O Fortuna de Carl Orff (1895-1984), tantas vezes reproduzida em momentos televisivos em que se tenta criar um clima de mistério e até mesmo em propaganda de biscoito. É uma pena que o conteúdo de sua letra, uma reflexão sobre a impermanência da sorte, não é também tão conhecido. “O Fortuna” integra a cantata cênica Carmina Burana (1936), obra composta por Orff sobre alguns cantos anônimos medievais escritos por cultos clérigos que, além de possivelmente comporem hinos sacros, vagavam compondo canções que, majoritariamente, destilavam veneno e sátiras às hipocrisi…

(2014) O animal e a lâmina

Dia desses, utilizando uma famosa camiseta de ativismo vegano defronte ao espelho, após anos de prática vegana, percebi pela primeira vez que o reverso da palavra animal é lâmina. Lâmina! (O acento foi colocado pela minha imaginação. Mas o que é um acento numa hora dessas?) Uma bomba matinal para um vegano metido a escritor. Deveria eu levar mais a sério os colegas dialéticos, para os quais o oposto de algo já está no algo, o aniquilando na geração de outro algo? Não sei... a lâmina está no animal, mas, normalmente, de início está apenas em um animal, que a faz, então, estar nos demais. É dialética quando a negação parte de um corpo diverso ao corpo que sofre a ação, mesmo que todos sejam, em realidade, partes de um mesmo todo - animais? Também não sei e, sabiamente, decido não prosseguir esta elucubração. Algo mais profundo chama-me: a imagem da lâmina, aniquiladora do animal, estar no próprio animal, o contrariando, lá, no íntimo de seu nome, arrebatou-me instantaneamente.  O que é…

(2014) Nova abolição, nova ecologia, nova política

Nova abolição Uma das questões mais vivas e vanguardistas de nossos tempos é a de nossa relação com as demais espécies animais. Este questionamento repercute em diversas dimensões de nossa vida, tais como nossos hábitos alimentares, de consumo, de ciência e de entretenimento, e é alimentado por diversos focos de análise, como a ética e a ecologia e a saúde. Embora esta questão gere tantas e diversas argumentações, tantos humores, ânimos, rejeições e conflitos, especialmente quando ideias como vegetarianismo e fim dos testes em animais são levantadas, em realidade possui, em sua dimensão diretamente ética, um argumento simples: se julgamos ser errado escravizarmos, torturarmos, violentarmos seres humanos, pois consideramos que devem ter sua integridade e autonomia respeitadas e não serem alvos de imposição de sofrimento desnecessário, precisamos também assim considerar as nossas ações em relação aos outros animais, pelos simples fatos de que também possuem seus próprios interesses em sua…

(2014) Ciência e Ética: o legado de Darwin para o pensamento ecológico

Edição revisada de artigo de 2009 intitulado “Darwinismo e Veganismo: princípios para uma ética ecossistêmica”
Introdução É inegável que o egoísmo e individualismo de nossa moralidade padrão é inviável para a manutenção da vida humana e de sua possível decência. Viver o mundo como se pudéssemos ser seres isolados cujos interesses se resumem à busca de satisfação hedonista pessoal é, além de um ponto de partida ignorante, uma prática suicida e assassina. As descobertas científicas do último século sobre as relações entre indivíduos e espécies, especialmente o legado de Charles Darwin, parecem ainda não ter fecundado nossa moralidade cotidiana. Ou melhor, geraram, majoritariamente, o reforço de discursos antropocêntricos e desenvolvimentistas. As pesquisas deste naturalista inglês, cujas proposições poderiam enobrecer a relação da humanidade com o restante da natureza, dadas as torpes interpretações a elas fornecidas, fortificaram estes nefastos vieses. As conclusões de Darwin permitem que …