segunda-feira, 31 de julho de 2017

Lógica e Picaretagem: a PEC da vaquejada

(maio/2017)


Um dos papéis fundamentais da escola é ajudar os alunos a desenvolverem lógica. Sabemos que há lógicas diversas, ou seja, formas diversas de organizar o raciocínio, mas para o caso do que queremos discutir aqui, basta, porém, o arquiclássico esquema do silogismo aristotélico, básico para a estruturação do pensamento de qualquer pessoa com uma educação minimamente consistente nos últimos 2300 anos:

a.    Uma premissa (maior)
b.    Outra premissa (menor)
c.    Portanto... (conclusão)

Nós, defensores dos direitos dos animais, costumamos partilhar a compreensão e a valorização de algumas sequências lógicas deste tipo. Por exemplo:

a.     Todo ente senciente é capaz de sofrer;
b.     Animais não humanos são sencientes;
c.      Logo, animais não humanos são capazes de sofrer.

Outra:
a.     Causar sofrimento a algum ente é imoral;
b.     Nossas atitudes para com os animais causam sofrimento;
c.      Logo, nossas atitudes para com os animais são imorais.

Outra:
a.     Obrigar um ente livre a viver em função de outro é escravidão;
b.     Animais são entes livres obrigados a nos servir;
c.      Logo, animais são escravizados por nós.

Ou ainda:
a.     Escravizar um ente é imoral;
b.     Animais são escravizados por nós;
c.      Logo, nossa relação com os animais é imoral.

E por aí vai...
O silogismo aristotélico, exposto pelo filósofo no século IV a.C. e presente em qualquer proposta educacional que faça o mínimo de sentido, ainda não chegou à Brasília. Este mês mais um caso de assalto à lógica e à decência foi a nós concedido por nosso podre Congresso Nacional. Foi aprovada em 1º turno na Câmara dos Deputados uma proposta de emenda constitucional (PEC 304/2017, advinda da PEC 50/2016 do Senado) que acrescenta uma informação ao artigo 225 da Constituição Federal, que trata do meio-ambiente. Em seu §1º, que dita as incumbências do poder público para a preservação ambiental, há o inciso VII, onde diz-se: “VII - proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade. A modificação acrescenta, sobre este final, tal ressalva:

§ 7º Para fins do disposto na parte final do inciso VII do § 1º deste artigo, não se consideram cruéis as práticas desportivas que utilizem animais, desde que sejam manifestações culturais – conforme o § 1º do art. 215 - registradas como bem de natureza imaterial integrante do patrimônio cultural brasileiro, devendo ser regulamentadas por lei específica que assegure o bem-estar dos animais envolvidos.”

Ou seja, criaram uma nova lógica, baseada em uma mentira:

a.     Vaquejada é considerada patrimônio cultural brasileiro.
b.     Ser patrimônio cultural significa não causar sofrimento aos animais.
c.      Logo, a vaquejada não causa sofrimento aos animais.

A mentira, ou melhor, a canalhice, está em associar artificialmente duas questões sem relação: ser patrimônio cultural e se causa ou não sofrimento aos animais. Isto é completamente insano!
Fico imaginando se a moda pega e qualquer coisa que seja comum em nossa bela cultura torne-se, por força da lei (imprimatur!), algo que não cause sofrimento e deva ser eticamente aceitável. Pense nos exemplos e vomite.
A PEC tenta justificar-se sobre esta questão, ou melhor, tenta blindar tal canalhice, dizendo que tais práticas devem ser “regulamentadas por lei específica que assegure o bem-estar dos animais envolvidos”. Sobre isto, vale ler a justificativa escrita na proposta de tal PEC quando ainda estava no Senado, onde foi aprovada com o nome de 50/2016. Tal justificativa trata-se, em suma, de outro desvario lógico, outra insanidade moral: “A vaquejada, assim como outras manifestações culturais populares, passa a constituir patrimônio cultural brasileiro e merecer proteção especial do Estado quando registrada em um dos quatro livros discriminados no Decreto nº 3.551, de 4 de agosto de 2000, que instituiu o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial. Nessa hipótese, acaso regulamentada de forma a garantir a integridade física e mental dos animais envolvidos sem descaracterizar a própria prática, a vaquejada atenderá aos mandamentos exarados pelo Tribunal Constitucional por ocasião do julgamento da ADI 4983”.
Em suma, retirando os véus que visam ocultar a podridão da proposta, o que temos é o puro assassinato da lógica e da moralidade, pois é impossível associar qualquer coisa que minimamente se assemelhe a assegurar o bem-estar de animais com qualquer coisa que se assemelhe minimamente à vaquejada, prática onde duas pessoas à cavalo cercam um boi desesperado visando puxá-lo pelo rabo e torcê-lo até que o boi caia ao chão.
Não é difícil entender os reais interesses por trás desta aberração lógico-moral. Os discursos dos próprios envolvidos na tramoia os deixam evidentes. No site da Câmara dos Deputados, no próprio dia 10/05/2017, data da aprovação em primeiro turno desta PEC, uma reportagem nos diz que “para o relator da PEC na comissão especial, deputado Paulo Azi (DEM-BA), se a vaquejada fosse banida, além da cultura de um povo, teria prejuízo injustificável para toda uma cadeia produtiva, condenando cidades e microrregiões ao vazio da noite para o dia”. E prossegue o nobre deputado: “A Associação Brasileira de Vaquejada (Abvaq) relata que a atividade movimenta R$ 600 milhões por ano, gera 120 mil empregos diretos e 600 mil empregos indiretos. Cada prova de vaquejada mobiliza cerca de 270 profissionais, incluídos veterinários, juízes, inspetores, locutores, organizadores, seguranças, pessoal de apoio ao gado e de limpeza de instalações”. Em que, nem que seja de longe, esta justificativa conversa com o fato de algo gerar ou não gerar sofrimento aos animais?
(Comentário paralelo: já perceberam que sempre há veterinários nas práticas que exploram animais e causam-lhes sofrimento?).
Segue a ilustrativa reportagem: “Ouvimos especialistas, veterinários que nos trouxeram dados científicos. Existem provas científicas de que essas atividades em nenhum momento provocam maus-tratos”, relatou Azi. Provas científicas de que duas pessoas montadas em cavalos cercarem um boi puxarem seu rabo de modo que caia ao chão não é maltratar alguém? Nem ficção científica isto é, considerando que este gênero costuma apresentar fantasias e reflexões muitas vezes geniais e profundas, e não apenas aquele velho argumento de boteco falido do tipo “é cientificamente comprovado”, argumento este feito sem ciências e sem comprovações. Estou ansioso por receber as revistas científicas qualificadas nas quais tais descobertas inovadoras foram apresentadas em primeira mão.
O deputado Danilo Forte (PSB-CE), na sessão que aprovou a Vaquejada em 1º turno, trouxe uma bela contribuição à construção da cultura brasileira quando emitiu, diz-se que pela boca: “Essa PEC é para resguardar a história do País, a bravura do vaqueiro e do homem nordestino. E também para reavivar uma força econômica muito importante para o povo brasileiro”. Este é o valor que queremos para o cidadão brasileiro? Ter a “bravura” de cercar – em dupla - um animal aterrorizado, sobre cavalos, e agredi-lo sem motivo? Alguém com tal visão de humanidade e de relação entre humanidade e outros animais tem o mínimo de decência moral para assumir um cargo em um Congresso Nacional? (perdão pela pergunta ingênua. É claro que tal Congresso é feito justamente por e para pessoas indecentes). Mais um ótimo exemplo do refinado senso lógico de nossos parlamentares: bravura é sinônimo de covardia.
E o deputado João Marcelo Souza (PMDB-MA), talvez olhando para um espelho, fez a profunda análise de que os deputados que falam em maus-tratos são hipócritas: “São deputados do Sul, do Sudeste, que nada entendem de vaquejada. Isso se chama hipocrisia. Vocês não conhecem a cultura do Nordeste. Nunca se quis fazer mal a animal nenhum”. Clamor à alguma identidade regional como forma de ocultar questões realmente éticas é uma marca constante e antiga da humanidade.
Tais exemplos de fala, que poderiam prosseguir, são já suficientes para ter-se um quadro do nível argumentativo de pessoas que possuem o poder de legislar sobre questões éticas.
Já que o sofrimento dos animais é decorrente da existência de um sistema nervoso e de uma consciência, e não do status social de uma prática da qual são forçados a participar, é tão óbvio o erro lógico e moral da afirmação aprovada pelo Senado e agora, em 1º turno, pela Câmara, é tão óbvia a estupidez da pretensa lógica argumentativa dos nobres congressistas, que até escrever sobre o assunto é fonte inesgotável de enjoo. A náusea parece infindável.

Por que não sou verde



Poucas coisas me parecem mais estranhas ao respeito que almejo em relação à natureza – essa ideia complicada - do que a defesa do verde!
Por que o verde? Basta uma mínima olhadela com alguma atenção para o mundo e sua pluralidade de cores e seres para estranhar-se com os verdes discursos ambientalistas.
Parece um argumentozinho bem mequetrefe este meu, não? Vejamos então o que se esconde por trás desta aparente beleza verdejante, desta onda verde, desta obrigação de verdejar a alma propagandeada pelo torpe Ambientalismo antropocêntrico e inebriante que aí se encontra como alicerce de grandes ONGs, ECOs92, RIOs+20 e grupos famintos por verbas para oficinas de educação ambiental.
Verde, nestes discursos, é meio ambiente, esta estranha abstração homogênea, tão irreal que pretensamente controlável, apta para nossa tutoria. Uma mancha verde no nada, quase uma pintura abstrata. Verde é uma beleza padronizada para sensos estéticos padronizados. Certamente não o molusco, não a matéria em decomposição, não o leão devorando a gazela, não a ave defecando sobre nossas cabeças, não o inseto que ousa zumbir no ouvido do ambientalista benfeitor.  Muito menos a vaca no matadouro, a galinha na gaiola ou o rato na gaveta de um laboratório.
O mundo não é só verde e a natureza não é meio ambiente. O mundo – com o limite da difusa impressão que podemos ter de algo tão geral quanto “o mundo” - é união de incontáveis processos de interdependências em incontáveis escalas, relacionados de incontáveis formas diversas. O verde é apenas mais uma – bela – cor, apenas uma escala de processos e cores em meio a incontáveis outras. É este pensamento ecossistêmico que, parece-me, deveria estar no fundamento de nossos modos de nos relacionar com o mundo. Em realidade, nos fundamentos da própria delineação daquilo que concebemos por mundo e por nosso lugar neste incrível absurdo.
Quando vemos o mundo como puramente verde? Quando vemos um lugar estando fora dele ou o vendo de cima. Se olhamos uma floresta de um avião, vemos, aí sim, aquela bela área verde. Se estamos dentro de uma floresta, também vemos muito verde (na verdade, muitos verdes), mas vemos os marrons, pretos, brancos, amarelos, laranjas, vermelhos.... Ainda, o mundo não é apenas floresta, é oceano, atmosfera, rochas, desertos (ok, puristas, areia também é rocha... e, ok, climatologistas, nem todo deserto é de areia)...
Esta forma homogeneizadora de ver o mundo é de fundamento dominador. É como um cientista que  reproduz o mundo num laboratório e o faz caber em seus próprios pressupostos, experimentos e categorias de análise.  Trata-se da construção de simulações de mundo. Simulações sempre úteis aos interesses de seus criadores. Quem se beneficia em reduzir a natureza apenas ao verde? A quais fins pode levar o ambientalismo convencional?
“Ah, então você é contra respeitar o verde?!” poderiam questionar alguns ambientalistas com dedos em riste... Oh mentes duais! Não poderia eu ser contra o verde, mas também não contra o marrom, o preto, o azul, o lilás ou mesmo contra sei lá que cores poderiam possuir – ou melhor, nossos específicos olhos humanos poderiam perceber - átomos, moléculas, bactérias, gases, relações, vontades, necessidades, intenções... no limite, todo o espectro incolor e, para nós, invisível. E quanta beleza existe no invisível, em todas as incontáveis relações que são o fundamento da existência, todos os infinitos processos que formam o que chamamos de natureza (o que chamamos de “coisas” na verdade são momentos de processos, de relações).
Em realidade, tenho verdadeira adoração por árvores, seus belos e tão variados troncos, suas frondosas copas, seus cipós – que, permito-me o antropomorfismo, lembram-me muitas vezes longas barbas de velhos sábios observando-nos com cautela -, suas formas curvilíneas e angulosas para além de qualquer geometria, suas incríveis texturas... Esta adoração inclui também pequenas folhas de relva, sementes em germinação em seu estado incrível de potência, pequenos brotos, jovens troncos ao sabor do vento... Meu apreço por vegetais é enorme. Estão as árvores entre minhas companhias favoritas. E neste momento posso ouvir defensores de direitos dos animais exclamando aquela famosa assertiva: “arrá! Mas isto é como defender animais por achá-los bonitos ou por te fazerem companhia, como nestes esquizofrênicos morais que protegem poodles e patrocinam assassinato em série de vacas! Ética não é estética! Nem defender apenas aquilo que te fornece algum benefício! Decida se concedes valor intrínseco ou valor instrumental!”.  Sim, eu sei que não são essas as causas do respeito que tenho pelos vegetais, mas... oh mentes duais...
Voltando... em que mundo vivem os que se apegam a um verde que exclui todo o não-verde? E, importante também questionar, em que mundo vivem os defensores de não-verdes que excluem e subjugam todo o verde? (encaixe “Ambientalismo” e “Direitos dos Animais” neste parágrafo como preferir).
Dualismos de resultados nefastos... Dualismos próprios a gritos de guerra, bandeiras, preenchimento de editais e manutenções obscuras de status quos, mas impróprios ao compartilhamento mais sábio do mundo.

Respeitar o verde, em suma, passa por deixá-lo ser apenas mais uma cor do incrivelmente múltiplo espectro da existência.

Veganismo e ambientalismo: cuidados para a aproximação

(Revisão de artigo de 2010)

Em texto anterior neste blog (Ecoveganismo) apresentou-se uma defesa da união do pensamento vegano ao pensamento ecológico, ou seja, a necessidade de pensar o veganismo de forma ecossistêmica, rompendo tanto com um individualismo estrito quanto com um coletivismo opressor. Faz-se, contudo, necessário expor um porém sobre alguns limites deste argumento, discernindo o que pode, aí, ser um tiro no pé.
Na segunda-feira de carnaval do ano de 2010, o climatologista do INPE Carlos Nobre esteve presente em um famoso programa de entrevistas, o Roda Viva da TV Cultura. Quando perguntado sobre as relações entre a pecuária e o aquecimento global, haja visto que os gases emitidos pelos animais, na concentração em que se encontram em criadouros, são associados ao fenômeno de forma até mais considerável que nossos meios de transporte e que parte considerável dos desmatamentos atuais possuem como objetivo abrir espaço para a criação de gado ou o plantio de cereais e grãos direcionados para a fabricação de ração, Nobre elencou com a maior naturalidade mudanças tecnológicas que diminuiriam a emissão de gases de efeito estufa para a atmosfera, além de outros impactos ambientais. Uma delas: aumentar a densidade de bois por hectare na pecuária extensiva (que é a praticada no Brasil). Outra: “aprimorar” geneticamente as rações e os animais para que estes cresçam mais rapidamente e possam ser mortos com menos tempo de geração de impactos. Ainda outra: em locais de pecuária intensiva, como no Japão e muitos locais da Europa, para diminuir a emissão de Metano, os animais ficariam confinados durante toda a vida em uma edificação fechada e todos os gases emitidos seriam canalizados para a produção de energia.
Aí está um cuidado a se ter quando se bate na tecla dos impactos ambientais da pecuária, um dos argumentos mais comumente utilizados para defender o vegetarianismo. Pode-se facilmente, se não houver cuidado, alimentar-se um tipo de discurso que será um tiro no pé a cada vez que a indústria agropecuária realizar alguma mudança tecnológica (e alardear-se como ambientalmente responsável por seu respectivo marketing em propagandas e notícias pelo mundo). Se a pecuária conseguir um dia neutralizar emissões de gases estufa e diminuírem os impactos da pecuária extensiva confinando o gado ao máximo em ambientes controlados, não só os veganos serão motivos de chacota, por terem tido seus argumentos quebrados, como terão feito um trabalho de marketing prévio dos problemas atuais resolvidos pela tecnologia do futuro próximo (e eles estão trabalhando seriamente nisto, não só porque é bom para o marketing ecológico, mas porque podem aumentar ainda mais os lucros da produção. Não é a toa que tanta tecnologia “verde” está sendo lançada).
Assistiremos assim à imposição de mais confinamento e sofrimento para os animais de forma que o público (como há tão pouca diversidade de opiniões na opinião pública) ache as medidas positivas, já que o gado começa a ser mundialmente reconhecido como um grande culpado pelo aquecimento global. Imagine poder comer seu bife sendo “ambientalmente correto”. Um prato cheio para o marketing.
É preciso atentar-se para todo o impacto que a alimentação centrada em partes de animais mortos gera aos ecossistemas, mas isto deve ser feito de maneira cautelosa, e não apenas pegando carona em problemáticas midiáticas[1], sob o risco de desvirtuar-se a importância ética do respeito aos animais e dar voz aos aproveitadores do “momento verde”.
Entender o Veganismo de forma ecossistêmica não é o mesmo que repetir acriticamente qualquer discurso existente sobre a questão ambiental sem atentar-se para quem está produzindo o discurso e quais podem ser seus objetivos. Por tudo o que foi dito aqui e mais acima, é preciso ficar alerta com as pretensões do ambientalismo e nunca perder de vista que o coração do Veganismo é a abolição da escravidão dos animais, antes de qualquer outro benefício que esta libertação pode vir a gerar.




[1]Um comentário sobre o aquecimento global: se o aquecimento global por causa antrópica é um fato, é difícil ter certeza. As opiniões de especialistas divergem, ainda que haja um poderoso movimento global de defesa da ideia. Independentemente de haver uma causa antrópica para um aquecimento global, o fato é que ele se tornou mais uma agenda política e econômica do que uma questão ambiental. Questões ambientais concretas e existentes em todos os lugares, como poluições, desmatamentos, assoreamento de rios etc. são muito menos comentadas em noticiários, mídias de todos os tipos, ônibus, botecos e universidades do que o aquecimento global, estando elas em nossas esquinas, defronte aos nossos olhos.

Ecoveganismo

(revisão de artigo de 2010)

Muito do veganismo atualmente praticado diz respeito ao boicote ao consumo de produtos advindos da morte ou exploração direta de animais e ao estímulo ao consumo de produtos que não tenham sido fabricados com partes de animais mortos, que não tenham sido testados em animais ou que não usem ou patrocinem o uso de animais como forma de entretenimento.
Um forte princípio que embasa o veganismo e as teorias sobre direitos dos animais vem do fato de que os animais são seres sencientes e, portanto, merecedores de respeito individual. O veganismo é assim de natureza muito diversa do ambientalismo, que possui bases coletivistas, focando-se nas espécies e ecossistemas, onde o que importa é o número de indivíduos, a “sobrevivência” da espécie, a exploração controlada da natureza (se a espécie não está em extinção, não há problema em matar seus membros). Se não pensamos deste modo em relação aos humanos, por que pensamos em relação aos outros animais? Para o veganismo, a questão não é se há ainda espécimes vivos de uma espécie ou se o número de seres mortos em um ano está dentro dos parâmetros legais para a manutenção da existência da espécie. Importa o respeito às necessidades específica de cada animal.
Há, portanto, um salto qualitativo dado pelo veganismo, ou pelas teorias sobre direitos dos animais, em relação ao ambientalismo: a passagem de uma visão de mundo puramente coletivista para uma que percebe aos entes concretos. O coletivismo, apesar de parecer algo belo, é, em realidade, uma visão de mundo homogeneizante e geradora de possíveis violências. Ditaduras, de direita ou de esquerda, são coletivistas, já que embotam a existência de entes concretos em nome do funcionamento do global, da massa. Um ambientalista que outorga a si mesmo o direito de falar quais animais podem ser mortos e quais não podem é um ditador. Este ambientalismo, assim, reproduz a visão de mundo geradora dos problemas ambientais: aquela que põe o ser humano no centro e no controle do mundo.
Contudo, na postura vegana de atenção aos indivíduos, há também um problema: é igualmente fundamental respeitar os ecossistemas e os indivíduos. A própria oposição entre os dois já é problemática. Não há respeito a um sem respeito ao outro, pois são, em realidade, a mesma coisa. Todos os indivíduos da natureza dependem, para sobrevivência própria, das inúmeras relações ecossistêmicas nas quais estão inseridos. A vida é um infinito conjunto de relações que devem ser respeitadas tanto quanto o direito de cada ser de viver em liberdade de acordo com seus próprios interesses (mesmo que sejam interesses comuns de toda sua espécie). E mais: o “todo”, a “natureza”, não é algo que exista em si, como um ser autônomo. É o resultado da união dos entes e fenômenos individuais. É a relação entre todos os processos existentes. “Natureza” é uma abstração humana.
O termo “indivíduo”, etimologicamente o não divisível, também é uma abstração humana. O “indivíduo” é, na verdade, algo que só existe em relação, algo formado por incontáveis processos fluidos. É importante que durante a leitura deste texto se atribua este valor para o termo.
Assim sendo, não há como pensar em um veganismo, assim como em uma política, que seja plenamente individualista nem coletivista. É preciso uma ética cujos fundamentos sejam a interdependência e a coexistência. Nem indivíduos como centro do mundo (o que faz com que possam passar por cima dos interesses coletivos para atingir as próprias finalidades – ainda que o individualismo, numa concepção mais profunda, devesse levar ao respeito ao interesse dos demais indivíduos), nem coletivos como centro do mundo (o que faz com que se possa passar por cima de existências individuais para garantir a existência coletiva: fascismo político ou ambiental.).
Propõe-se aqui, assim, um Ecoveganismo. Veganismo no que se refere ao trato e respeito a cada animal como merecedor de respeito aos seus interesses específicos, como não passível de ser propriedade de outro ser, como merecedor de liberdade. “Eco” no sentido de que esta preocupação é inseparável da preocupação com aquilo que é coletivo por princípio, que embasa e possibilita a vida – e a qualidade da vida – de todos estes seres: este infinito conjunto de relações e transformações entre tudo o que há - seres vivos, minerais, gases, águas, dinâmicas de relevo, hídricas, atmosféricas, tectônicas etc. - ao qual chamamos, em nossos conceitos abstratos, de natureza.

Alimentação ecovegana
A alteração de nossos padrões alimentares por motivações éticas, proposta do veganismo, vai além da retirada de ingredientes de origem animal dos pratos. Há, como apontado acima, outras questões de grande importância a serem consideradas.
Um veganismo de bases ecológicas passa por pensarnaquilo que é prejudicial e destrutivo aos ecossistemas e toda vida que há neles.
Exemplos muito comuns daquilo que devemos nos preocupar, fundamentos de nosso modo de vida e de nossa maneira de produzir comida, são: extração de matéria-prima em escala industrial; monoculturas; latifúndios; agrotóxicos; geração de enorme quantidade de lixo industrial altamente poluente; uma cultura fundada na petroquímica; agrotóxicos;poluição dos solos, águas e ares com produtos químicos, tóxicos, sintéticos; geração de péssima saúde em pessoas que passam a usar medicamentos que geram ainda mais poluição, como excrementos humanos contaminados indo para solos, águas e ares; aniquilamento de diversidade biológica nas áreas de plantio e extração de matéria prima etc.
Estas são violências tão consideráveis aos animais e a toda a vida quanto outras contra as quais o Veganismo já se opõe. Expandir a prática vegana já consolidada passa por não atrelá-la ao consumo de produtos responsáveis por esta lista de desgraças. Um produto pode ser feito apenas de ingredientes vegetais e sintéticos, não sendo responsável pela morte de um animal específico, porém pode ser responsável pela destruição de ecossistemas inteiros: oceanos, florestas, rios, atmosfera etc. E, assim, claro, de um número incontável de animais.
Portanto, a escolha do alimento com base em preocupações de teor ético vai além de este conter ou não ingredientes de origem animal. É urgente que pensemos e coloquemos em prática formas diferentes de produzir e consumir nossa comida[1], tanto quanto é urgente pensar no que devemos ou não ingerir. É preciso transformar nossas fontes de produtos vegetais, geralmente estruturadas em grandes monoculturas com alto uso de agrotóxicos que destroem ecossistemas e espécies nativas inteiras mundo afora e ainda geram pobreza e desigualdade social. Não há como justificar que o alimento que mantém a vida de um necessite destruir a vida e a qualidade da vida de muitos. Precisamos de um padrão alimentar que respeite todas as formas de vida. Inclusive a nossa. O veganismo precisa, portanto, expandir-se.



[1]Agrofloresta, Agroecologia e Permacultura são práticas a serem mais estudadas e incentivadas.

Veganismo como postura de respeito aos animais

(Revisão de artigo de 2006)

Veganismo é o nome dado ao conjunto de pensamentos e práticas cuja finalidade é a tentativa de ter com os animais não-humanos uma relação eticamente aceitável. Em resumo, trata-se de abster-se de utilizar qualquer produto advindo da exploração de animais, ou seja, que os trate como nossas propriedades, como objetos, como matérias-primas. Isso inclui alimentação (carnes, ovos, leite, mel...), vestuário (lã, seda, peles...), entretenimento (rodeios, zoológicos, cavalhadas...), produtos testados em animais ou que usem partes de animais em sua composição ou quaisquer outros ramos das atividades humanas que utilizem animais.
A decisão de aderir ao veganismo, alterando muitos de nossos hábitos cotidianos, parte do princípio de que nós,  humanos, não temos o direito de tratar os demais animais do planeta como objetos, como coisas existentes para a satisfação de nossos prazeres e necessidades.
Esta conclusão comumente deriva do fato de que animais são seres  sencientes, ou seja, são capazes de sentir e ter consciência sobre esta sensibilidade. Não é necessário que a consciência dos animais seja do mesmo tipo que a dos humanos - que, por exemplo, procurem interpretações abstratas sobre o porquê das coisas que percebem - para que tenham seus interesses mais fundamentais, como não serem agredidos, encarcerados ou assassinados, respeitados.
Tal como nós, animais se incomodam com a dor, com o perigo e com o cárcere. Animais, em suma, são capazes de sofrer e partilham conosco diversos sentimentos, como medo, saudades, alegria, tristeza etc.). Assim, gerar sofrimento a eles é imoral, da mesma forma que gerar sofrimento evitável a um ser humano o é. Além disto, animais possuem o direito de não terem suas vidas sequestradas para a realização dos interesses de outros (no caso, nós).
Por que nossa ética convencional vê com tanta diferença uma dor gerada em humanos e uma dorgerada em um animal não-humano? Por que vê-se com tamanha normalidade tantas coisas feitas aos animais que seriam julgadas como absurdas se feitas aos humanos?
Se animais são sencientes e possuem o direito de viver suas vidas do modo como convier para membros de sua espécie, o nome correto a dar-se para a condição de vida de grande parte dos animais com os quais a humanidade possui relação mais direta é “escravidão”. Trata-se de confinar seres que deveriam ser livres e obrigá-los a passar a vida servindo aos interesses de outros seres. Não há porque, pelo que já se sabe sobre a consciência e o comportamento dos animais, evitar usar este termo. Trata-se, assim, de uma escravidão ainda legalizada, que envolve muito mais seres vivos do que todas as escravidões de humanos envolveram[1] e que necessita, e é este o ponto da história em que vivemos, de um movimento abolicionista, ou seja, de alterações profundas em nossas culturas capazes de transformar radicalmente a maneira como os animais são vistos e tratados pela humanidade.
É urgente, assim, romper com o nefasto padrão de pensamentos e práticas no qual os animais não-humanos são classificados como inferiores aos animais humanos, não sendo beneficiários de nossos mais básicos princípios morais.
Este padrão de pensamento pode ser nomeado de especismo, ou seja, trata-se de uma discriminação baseada unicamente na espécie do ser vivo e que atribui valores ligados à dominação de grupos por outros grupos unicamente com base nesta distinção. Este é um processo semelhante ao do sexismo ou racismo, onde membros de um gênero/raça atribuem a si mesmos superioridade sobre membros de outro gênero/raça unicamente por serem parte deste gênero/raça e, além disto, postulam que os membros do grupo inferior podem ser destratados, desrespeitados, dominados ou violentados com normalidadepor membros do autointitulado grupo superior.
Fazer julgamentos morais baseando-se em aspectos não relevantes da configuração de alguém do ponto de vista do respeito a princípios morais básicos, tais como gênero, raça, classe social ou espécie, é um traço de mentalidades primitivas que deve ser combatido visando o estabelecimento de relações mais nobres de coexistência. Ninguém deve ser automaticamente classificado como inferior ou como passível de ser violentado ou dominado apenas por ser mulher, homem, branco, negro, asiático, europeu, africano, pobre, rico, humano ou não-humano. Nenhum ser deve ser explorado ou ser submetido a tratamentos dolorosos – fisicamente ou psicologicamente – como parte de interesses egoístas de outro(s) ser(es). Eis um princípio de decência moral a ser alcançado por nossa espécie.
Postas estas argumentações, cabe então que se repense todas as práticas humanas que envolvem exploração de animais. Toda  a pecuária não passa de um gigantesco holocausto, onde bilhões de criaturas experienciam uma enorme variedade de violências dentre aquelas que nossa bela espécie aprimorou pelos séculos; a indústria dos testes em animais coloca pretensas necessidades práticas da produção de fármacos, produtos de higiene e estética (necessidades, elas mesmas, contestadas por especialistas) antes de resoluções éticas fundamentais, como a imoralidade de escravizar o corpo dos animais e neles realizar testes de substâncias; as indústrias de entretenimento, como zoológicos, circos com animais ou rodeios apenas reforçam e naturalizam a pretensa supremacia humana em relação aos demais animais, normalizando a barbárie desde a primeira infância. Eis um quadro de nossos padrões de coexistência neste planeta. Eis um quadro de nossa mais profunda e duradoura tragédia.








[1]Apenas para consumo de carnes e apenas de animais terrestres (isto significa que este número em realidade é bem maior, já que a utilização de animais marinhos é altíssima e, em alguns locais, majoritária), a humanidade abate 67 bilhões de seres por ano (FoodandAgricultureOrganizationofthe United Nations, 2010). No Brasil, são mortos para alimentação um boi, um porco e 166 frangos por segundo (IBGE, 2013). Se considerarmos, além dos seres aquáticos, todos os que são utilizados para outras funções, tanto alimentares (leite e ovos, por exemplo), quanto para os demais setores econômicos, estes números assustadores crescem ainda mais.