terça-feira, 28 de julho de 2015

19 - Em resumo: Nova abolição, nova ecologia, nova política

Nova abolição, nova ecologia, nova política

Nova abolição
Uma das questões mais vivas e vanguardistas de nossos tempos é a de nossa relação com as demais espécies animais. Este questionamento repercute em diversas dimensões de nossa vida, tais como nossos hábitos alimentares, de consumo, de ciência e de entretenimento, e é alimentado por diversos focos de análise, como a ética e a ecologia e a saúde.
Embora esta questão gere tantas e diversas argumentações, tantos humores, ânimos, rejeições e conflitos, especialmente quando ideias como vegetarianismo e fim dos testes em animais são levantadas, em realidade possui, em sua dimensão diretamente ética, um argumento simples: se julgamos ser errado escravizarmos, torturarmos, violentarmos seres humanos, pois consideramos que devem ter sua integridade e autonomia respeitadas e não serem alvos de imposição de sofrimento desnecessário, precisamos também assim considerar as nossas ações em relação aos outros animais, pelos simples fatos de que também possuem seus próprios interesses em suas vidas (suas vidas não nos pertencem) e de que são capazes de sofrer e de ter algum tipo de consciência sobre o que sofrem (sobre seu prazer e sua dor) – são também sencientes.
Por não serem respeitados neste sentido, por estarem quase sempre subjugados aos interesses humanos, nos servindo involuntariamente e sendo alvos de imposição de diversos e pesados sofrimentos corporais e psicológicos, o nome mais indicado para dar título ao papel que comumente animais possuem em nossa cultura é escravidão.
Acreditando que isto é eticamente errado, faz-se necessário um movimento no sentido da libertação dos animais das amarras criadas para eles pela humanidade: um movimento de abolição. Não apenas leis que melhorem o bem estar dos escravos com medidas paliativas que diminuam a intensidade de suas torturas, mas, como objetivo maior, como princípio ético, a total abolição da escravidão.
O modo de vida que tenta eliminar o consumo de tudo aquilo advindo da escravidão e tortura de animais é chamado Veganismo, dentro do qual destacam-se as posturas vegetarianas, contra testes em animais, contra uso de animais como entretenimento, contra a transformação de animais em matéria-prima (como na fabricação de vestimentas) etc.

Nova ecologia: para além do ambientalismo
Provavelmente o grande símbolo do ambientalismo é o verde, a defesa do verde. Contudo, é extremamente necessário, para almejarmos realizar transformações profundas em nossas problemáticas ecológicas, assim como em nossos padrões éticos e políticos, ir-se além do verde, ampliar o escopo de percepção e ação.
Para entender o porquê disto faz-se necessário uma breve reflexão sobre esta simbologia. Por que apenas verde? A natureza só é verde quando a olhamos de forma generalizada, quando somos uma dimensão separada a observando de fora. A natureza, em realidade, compõe-se de todas as cores e, importantíssimo não esquecer, do invisível, ou seja, de todas as incontáveis relações que são a base da existência de tudo o que há. Quando olhamos a natureza em suas múltiplas escalas e inter-relações, o verde, ainda que belo, torna-se apenas mais uma cor num espectro que nos aparenta infinito. Se queremos estabelecer ações humanas ecologicamente mais dignas, precisamos nos atentar para todas as “cores” e para todas as relações que embasam nosso mundo.
Este salto em relação ao ambientalismo tradicional é, também, um avanço em relação a visão coletivista que embasa sua prática, em que o que importa é apenas o coletivo, os habitats, os ecossistemas, o geral, sem consideração aos seres particulares (se determinada espécie não está entrando em extinção, não há problema em matar parte de seus membros).

Nova ecologia, nova política
Ir além das generalizações é opor-se a uma cultura centrada na opressão aos indivíduos, seja pela massa, pelo coletivo ou por outros indivíduos e espécies. Esta postura, contudo, não representa uma defesa do individualismo, também dominante em nossa cultura, em que para se cumprir interesses individuais passa-se por cima dos interesses de todos os outros, indivíduos ou coletividades. O fato de que tanto este individualismo quanto o coletivismo coexistam nas bases de nossa cultura mostra o quanto não são, em fundamento, tão díspares. Ambos são opressivos e violentos.
Ir além do ambientalismo padrão é viver uma proposta de pensamento ecológico nem individualista nem coletivista, mas baseada na tentativa de construir um mundo de coletividades saudáveis formadas por indivíduos ao mesmo tempo autônomos e coexistentes.
Quando o modo de vida de um (o que é necessário para a sua realização) não depende do uso, da opressão, da subjugação de outros, sua autonomia é verdadeira e a coletividade criada a partir daí pode ser mais saudável, respeitosa, digna, justa e bela. Um ser que se julga autônomo por fazer o que quer, dependendo para isto da opressão de outros, não é autônomo nem livre. É um escravo de si mesmo e gera um mundo de escravidão (exemplos: escravizar e matar um animal para satisfazer o desejo por um bife ou pisar sobre outras pessoas para conquistar o próprio desejo de riqueza material).
Ater-se aos princípios ecológicos da vida – tais como coexistência, impermanência e interdependência – é fundamento para uma política mais digna e profunda. É preciso pensamentos e práticas capazes de respeitar o compartilhamento do mundo, para que possamos verdadeiramente coabitá-lo. Nossa política deve, mais do que possuir preocupações ambientalistas, ser de fundamento ecológico.
Se queremos realmente a construção de um mundo melhor, este não pode ser pautado nos interesses puramente econômicos de uma pequena parcela da população. É preciso que as linhas mestras da política de um povo sejam baseadas em princípios verdadeiramente éticos e ecológicos. Por exemplo: não é porque a pecuária possui presença central na economia brasileira que deve ser impulsionada, se é um erro crudelíssimo e escravocrata, sem contar suas péssimas condições de trabalho[1], ser o campo da economia brasileira com maior presença de trabalho escravo humano[2] e os muitos e pesados impactos ao planeta da dieta centrada em produtos de origem animal[3].
Os princípios ecológicos acima expostos, assim como os princípios éticos em relação aos animais antes apresentados precisam encontrar-se, fundirem-se em nossa política (em nosso “estarmos juntos”). É preciso que haja um avanço em relação ao ambientalismo tradicional, considerando os animais também individualmente (a tortura de cada um deles é errada, já que, como visto acima, partilham dos mesmos porquês que nos fazem entender que oprimir, subjugar, violentar e escravizar um humano é errado), assim como é preciso que esta preocupação não seja desvinculada de tomadas de atitude em relação ao modo como nos relacionamos com toda a natureza: como produtos – mesmo os de origem vegetal - são gerados, como nossa produção industrial impacta o planeta, como dominamos toda a Terra como se fosse uma propriedade de nossa espécie etc. Cabe aí, em complemento ao termo “Veganismo” antes apresentado, a ideia de um “Ecoveganismo”.

Considerações finais: para nos vivificar
Precisamos de visões éticas, de políticas, de pensamentos e práticas que permitam a geração de um mundo centrado na coexistência, não na opressão. Precisamos de uma cultura não centrada na exploração de animais – humanos e não humanos - tanto quanto não geradora de destruição de habitats, de ecossistemas.
Trata-se de formular novos paradigmas sociais que se oponham à imposição de mortificações, tal como é comum em nossa cultura dominante. Tudo o que diminui a liberdade de um ser de viver sua vida específica, de tornar-se hábil em sua própria vida, de desenvolver suas próprias potencialidades, o mortifica, o deixa mais perto da morte. O contrário também é verdadeiro: tudo o que permite que um ser exerça esta vivências o vivifica, deixa sua vida mais plena. Quando pensamos em animais, para não mortificá-los devemos pensar não apenas em não matá-los, mas em não prendê-los, não torturá-los, não debicá-los, não engaiolá-los, não enjaulá-los, não acorrentá-los, não adestrá-los, não isolá-los, não paralisá-los, não testá-los, não pescá-los, não montá-los, não chicoteá-los, não tosquiá-los, não reduzi-los a exposições em zoológicos, a objetos de entretenimento, a produtos comercializáveis, a matérias-primas, não destruir seu habitat...
Pode-se elencar outra série de ações que mortificam ou vivificam humanos. E elas também devem ser fundamentos de nossos modos de estarmos juntos - nossas políticas -, que devem permitir que nos vivifiquemos, ou melhor, que devem deixar de impedir que nos vivifiquemos, objetivando um mundo de coexistência e de vivificação, para que possamos todos viver de forma mais plena.

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