terça-feira, 28 de julho de 2015

18 - Ecoveganismo e a necessidade de uma "educação cosmológica"


Como educador, um desejo surge a partir de tudo o que foi trabalhado nos ensaios anteriores deste blog: como lidar com uma sociedade baseada na coisificação dos entes, com a normalidade da incapacidade das pessoas identificarem-se com tudo aquilo que está fora de seus próprios corpos ou daquilo que lhes dá prazer, assim como com a incapacidade de perceberem a si mesmos, aos demais entes e ao mundo em que se vivem com interesse e respeito.
Estes questionamentos fazem parte de um estudo em andamento que objetiva desenvolver uma educação capaz de ir na contramão destas e de outras problemáticas relacionadas ao modo como experienciamos e modificamos o mundo.
Trata-se de uma tentativa de dar resposta no âmbito educacional para várias das problemáticas apontadas neste blog, entendendo que as críticas comumente feitas por defensores de relações eticamente aceitáveis com os animais apontam para algo que é consequência de visões de mundo profundamente arraigadas na humanidade. O modo opressor, possessivo e violento com que tratamos os animais e toda a natureza é fruto de modos de perceber, significar e vivenciar o mundo que estruturam nossa mente há milênios. Fruto de cosmovisões questionáveis.
            Quando pensamos na maneira como o mundo, as sociedades ou as pessoas se organizam, em suas espacialidades, temporalidades e paisagens, estamos atentando para a maneira como tais pessoas vivem “o mundo” a partir do modo como o percebem e o enchem de significados, transformando mentalmente a miríade incontável de fenômenos e processos percebidos em algo com certa ordenação passível de ser vivida: um mundo. E, aí, seus lugares neste mundo.
A maneira como percebemos o mundo e o significamos pode ser entendida como um eixo em torno do qual aquilo que chamamos de mundo se molda. Dito de outra forma, dependendo do modo como nossa mente está estruturada para perceber o mundo, certa noção do que é o mundo é gerada. Pode-se falar, então, que há aí um caráter cosmológico ou axiológico: cosmovisões (modos de perceber e ordenar o mundo), ao moldarem o modo como entendemos o que é o mundo e nosso lugar nele, de certa forma criam nossos mundos e, assim, delineiam nossas possibilidades de olhá-los, percebê-los, sistematizá-los e vivê-los, modificando assim o mundo concretamente existente.
Isto faz com que seja de imensa importância, se quisermos compreender aspectos da ação humana no mundo, que atentemos para as mentes humanas, seus padrões de percepção e julgamento, suas maneiras de se vincular aos diversos fenômenos, os conceitos que estruturam categorias básicas da vivência humana, tais como espaço, tempo, eu, outro, natureza etc. Este aprofundamento na sensibilidade e na psique humana, suas formas de operação, sentimentos e desejos, é fundamental para investigar-se com profundidade a concretude das existências individuais e sociais.
Torna-se, portanto, impossível separar nossas dimensões mentais e o mundo concreto em que vivemos. Não há um mundo concreto para nós sem o filtro da mente. Não há mente humana que não seja atrelada a todos os diversos fenômenos externos aos quais possui alguma forma de contato direto ou indireto. Em suma, mente e mundo não são entidades independentes.
Assim sendo, torna-se necessário o desenvolvimento de uma educação capaz de alterar cosmovisões: alterar o modo como percebemos, significamos e, portanto, alteramos o mundo concreto. A maneira como percebemos e significamos os animais, por exemplo, faz parte de um conjunto de princípios cosmológicos que fundamentam nosso modelo de civilização, modelo este cuja origem pode ser remontada, como marco simbólico (isto não exclui o fato de que se comia animais antes disto), à Revolução Agrícola ocorrida no período Neolítico, há algo como dez mil anos atrás, quando inicia-se a passagem do nomadismo para o sedentarismo, com o início da agricultura e da criação de animais, ou seja, a imposição das necessidades humanas para a natureza. Ao invés de fazer parte da natureza como qualquer outro ser, colhendo aquilo que está disponível, a partir deste momento a humanidade começou a ditar quais espécies existiriam e em quais lugares cada uma delas deveria estar (e quais não deveriam existir, podendo ser mortas, extintas ou consideradas como invasoras ou ervas-daninha). É o início da ideia de propriedade sobre a terra. A natureza deixa de ser ela mesma e passa a ser posse de pessoas que julgam poder nela fazer o que quiserem, modificá-la segundo seus próprios interesses. Em suma, trata-se da transformação das paisagens do mundo possuindo como objetivo dar voz às vontades humanas de permanência, controle e poder, assim como dar resposta a um sentimento muito presente nas mentes humanas: o medo – medo do amanhã, de não haver comida, de chover, de passar frio.
Vê-se assim que um modelo de organização do mundo, baseado em certas características mentais – cosmológicas - gera certa modelagem do mundo - cosmovisões -, certos modelos de sociedade, certos modos de se relacionar com os animais e com toda a natureza, certas paisagens, certas espacialidades, certas temporalidades, certos lugares. Pensar no modo como a humanidade relaciona-se com os demais animais é pensar nos fundamentos cosmológicos que geraram este tipo de mundo: quais necessidades, vontades e crenças o embasaram.
            O processo de educação vegana, à exemplo da proposta exposta no ensaio anterior deste blog, pode enriquecer-se muito com um salto para uma educação ecovegana com preocupações cosmológicas. Nossa cultura é uma cultura em crise. Somos, por exemplo, o resultado de uma série de pressupostos cosmológicos antagônicos aos fundamentos ecológicos da vida. Procuramos permanência e controle em um mundo impermanente, procuramos independência em um mundo interdependente, procuramos isolamento e egoísmo em um mundo múltiplo e diverso. Somos, assim, uma cultura de guerra à natureza e, portanto, de guerra aos animais. Crise ecológica é uma definição para nossa civilização.
            Como é tradicional em guerras, os inimigos inúteis são exterminados e os inimigos úteis são escravizados. Não é assim que nossa civilização trata os entes sencientes não humanos do planeta?
            É preciso, então, como fundamento de uma educação ecovegana, um trabalho pautado no desenvolvimento de características cosmológicas desejáveis, que formem pessoas hábeis em viver em um mundo de interdependência, coexistência, impermanência e multiplicidade (diversidade). Acredito que o resultado prático deste tipo de mentalidade no que se refere ao trato com os animais não-humanos pode ser surpreendentemente positivo.
            Trata-se da necessidade de finalmente aprendermos a habitar e coabitar o mundo, compartilhando lugares que “nos envolvem, forçosamente, nas vidas de outros seres humanos e, em nossas relações com não-humanos, indagam como responderemos ao nosso encontro temporário com essas rochas, pedras e árvores particulares. Eles exigem que, de uma forma ou de outra, confrontemos o desafio da negociação da multiplicidade[2].” Incluam aí, entre os não-humanos, os animais.
Esta educação deve incluir alterações no modo como as ideias de “eu”, “outro” e “todo/natureza” são arquitetadas em nós. Ideias menos egoístas de “eu” devem ser criadas, vínculos mais profundos entre “eu” e “outro” devem ser desenvolvidos, a percepção do todo como um conjunto incrivelmente imenso e múltiplo de redes de conexões, de processos, deve ser estimulada. Esta educação deve desenvolver a habilidade de viver em um mundo mais processual e relacional do que cheio de coisas e objetos definidos; deve também fornecer conhecimento e desenvolver habilidades para que as pessoas se percebam não como o centro do mundo (e sua espécie não como o centro do universo), que não sintam todo o mundo como em função de suas próprias necessidades[3]; deve permitir uma nova política (pois, o que é a política senão a questão do “estarmos juntos?”) de fundamentos ecológicos, em substituição às politicagens repetidoras de argumentos ambientalistas em vigor.
Apresenta-se assim a ideia de “educação cosmológica” como um convite para aqueles que chegaram ao final deste blog e desejam trabalhar na alteração de maneiras de vivenciar o mundo por via da educação ou incorporar preocupações de cunho cosmológico em suas atividades como praticantes ou divulgadores do veganismo.




[2] MASSEY, Doreen. Pelo espaço: uma nova política da espacialidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008, pp.204).
[3] Um poder enorme das ciências é dar-nos o conhecimento necessário para tirar-nos do centro do mundo, ver o mundo sem centros e atentarmos para a incrivelmente enorme quantidade de redes de interdependências que formam aquilo que costumamos chamar de natureza.
                As mudanças de escalas espaciais e temporais que conhecimentos científicos como a Astronomia, a Geologia, a Arqueologia, a Paleontologia, a Climatologia, a Antropologia, entre outros campos de investigação, podem gerar em nós, se bem vividas, podem nos induzir alterações cosmológicas profundas e fazer com que saiamos do centro do mundo.
                Como ver-se no centro do mundo após uma boa mediação sobre a história e o tamanho do Universo (e as possibilidades de multiversos)? Como ver a própria cultura como a única aceitável após bons estudos antropológicos? Como manter explicações tacanhas sobre uma pretensa superioridade da humanidade em um mundo recentemente criado para servir primordialmente como sua casa após boas aulas de Paleontologia e Etologia?
                Boas lições científicas associadas a boas reflexões filosóficas têm o poder de nos recolocar no mundo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário