terça-feira, 28 de julho de 2015

17 - O legado de Darwin para o pensamento ecológico


É inegável que o egoísmo de nossa moralidade padrão é inviável para a construção de sociedades humanas minimamente dignas. Viver o mundo como se pudéssemos ser entes isolados cujos interesses se resumem à busca de satisfação hedonista pessoal é, além de um ponto de partida ignorante, uma prática suicida e assassina.
As descobertas científicas sobre as relações entre indivíduos e espécies, especialmente o legado de Charles Darwin, parecem ainda não ter fecundado nossa moralidade cotidiana. Ou melhor, geraram, majoritariamente, o reforço de discursos antropocêntricos e desenvolvimentistas. As pesquisas deste naturalista inglês, cujas proposições poderiam enobrecer a relação da humanidade com o restante da natureza, dadas as torpes interpretações a elas fornecidas, fortificaram estes nefastos vieses.
Os modelos antropocêntricos e desenvolvimentistas majoritários no pensamento científico marcaram a interpretação comum do legado de Darwin. Sobre isto, diz a filósofa Mary Midgley (a citação é grande, mas como trata-se de um texto indisponível em Português, justifica-se):

“Há duas maneiras nas quais a ideia de evolução tem sido mal utilizada. Uma é a maneira otimista que fala que tudo está ficando melhor e melhor, e nós devemos ir juntos com isto – esta evolução é uma espécie de escada que pode nos levar à qualquer lugar. Esta era a visão de Lamarck e Hubert Spencer, não era de Darwin, mas as pessoas pensam que Darwin provou isto. Ele não provou. Mas se nós acreditamos nisto, isto produz uma crença no progresso, o que significa que qualquer coisa que façamos é melhor do que qualquer coisa que existiu antes, e nós apenas queremos mais. Mas a ideia de que o crescimento – por exemplo, crescimento econômico – é natural e requerido – é uma ideia mítica. Isto não pode estar certo, porque as coisas não crescem indefinidamente; elas crescem até estarem grandes o suficiente.(...) Darwin nunca usou a palavra evolução(...). E as pessoas acham que isto é Darwinismo, e que isto é uma grande descoberta científica. O que isto é, é mito, e se alguém disser que é um mito de criação, eu suponho que seja, no sentido de que é uma das histórias que diferentes culturas possuem para explicar porque as coisas são como são dizendo como elas eram antes. A outra grande má compreensão é uma que diz que o universo é regido pela competição hostil entre os indivíduos. Isto também não é Darwin. Herbert Spencer colheu isto do laissez-faire econômico do momento que dizia que tudo o que é preciso para o progresso é a competição selvagem. A ideia era que se você possui competição selvagem suficiente, finalmente as coisas ficariam certas. Mas esta é uma fantasia sobre como a vida foi feita, porque os organismos cooperam constantemente. Os pequenos pedaços em nossas células eram originalmente organismos separados, que começaram a trabalhar juntos. Se não houver um conjunto enorme de cooperações deste tipo, não se pode ter organismos de modo algum.”[1]

Retirando do pensamento de Darwin a interpretação centrada na competição hostil e no obrigatório progresso, o que sobra?
Darwin adicionou à antiga percepção da vida como eterna transformação, presente em pensamentos e práticas milenares, a ideia de seleção natural. Com os posteriores avanços da Genética, chegou-se à proposição de que cada novo ente nascido recebe informações genéticas de seus “progenitores” (pais e mães em animais sexuados, mas também por outros meios, incluindo os meios vegetais). Neste percurso ocorrem mutações nos genes, gerando características que não existiam antes. Estas mutações podem significar algo bom ou ruim para o novo ente. Isto é, podem ajudar ou atrapalhar a adaptação deste ente às condições ambientais e modos de vida possíveis em seu tempo e lugar. Se uma mutação trouxer benefícios, provavelmente o animal/vegetal será bem sucedido em sua sobrevivência e reproduzirá mais que os outros. À medida que mais gerações de entes forem nascendo com esta nova característica, permitindo maior adaptabilidade ao ambiente e maior facilidade de sobrevivência, criando a possibilidade de maior tempo de vida e número de reproduções do que os que não a possuem, tal característica tenderá a ser o padrão em tal espécie. Muitas mutações ao longo do tempo acabam criando uma nova espécie (quando os membros desta não conseguirem mais se reproduzir com os membros da espécie antiga). Novas espécies também são geradas por mudanças geográficas, já que em cada lugar, dadas as especificidades ambientais, características diferentes são benéficas, mutações diferentes são privilegiadas e entes diferentes acabam surgindo.
            Este conhecimento nos reposiciona no mundo: somos apenas uma das espécies que vêm surgindo e se transformando desde mais ou menos 3,7 bilhões de anos atrás, quando as primeiras bactérias parecem ter surgido. Compartilhamos ancestrais comuns com as demais espécies e com elas possuímos proximidade genética.
O processo de surgimento, transformação e extinção de espécies é, portanto, altamente complexo. Mais de 99% das espécies que já passaram pela Terra já foram extintas[2], e isso não se deve ao comportamento destrutivo humano (ainda que este tenha acelerado o processo nas últimas décadas). São bilhões de anos de surgimento e desaparecimento de espécies devido às incontáveis relações entre espécies e entre espécies e ambientes.
Entender que a vida é algo que se recria a cada momento de forma interdependente e que todas as espécies são partes igualmente importantes destas redes de conexões, nos leva a alterar valores[3]: o ser humano não é o centro do universo. Não somos a espécie mais importante da Terra. As outras espécies não foram criadas para nosso uso. Convivemos no mesmo momento da história da vida que todos os outros seres vivos atualmente existentes.
Somos todos partes de uma rede inacreditavelmente imensa de seres vivos, minerais, gases, água etc. que cumprem seus papéis nesse estupendo conjunto de relações que é a vida. Nenhum ser é independente ou mais importante que outro.
Esta compreensão deveria fazer desabar o edifício antropocêntrico e especista de nossas ciências e moralidades, mas parcela considerável da humanidade continua crendo que quem não possui o tipo de razão, linguagem e pensamento abstrato que possuímos não merece o mesmo respeito que nós gostamos de merecer.
Nós mesmos não somos apenas nós mesmos. “Cada um de nós é uma grande cidade de células, e cada célula, uma cidade de bactérias. Somos uma grande megalópole de bactérias[4]. Sem estas bactérias o organismo humano seria impossível. O que justifica nossa arrogância?
Quanto mais conheço sobre a história da vida no planeta, mais profundo fica meu respeito. É difícil para nós pensar na escala de tempo desta história. Bilhões de anos! Nossa mente não está adaptada para pensar nesta proporção. Pensar quantas espécies surgiram e desapareceram, quantas extinções em massa já houveram, quantas explosões de vida já ocorreram, quantas vezes a vida saiu e voltou totalmente para as águas. É difícil perceber o quão pequena é nossa participação nesta história (ainda que nosso poder destrutivo e criativo não seja nada pequeno), mas é preciso.
Para arquitetarmos nossos juízos éticos é importante ter em alta conta as incontáveis relações entre todos os seres vivos. Pensar que as mitocôndrias de nossas células já foram bactérias independentes (e até hoje possuem seus próprios DNAs, diferentes dos nossos), pensar em todas as relações entre bactérias e vegetais, como as do gênero Rhizobium, que permitem que as raízes das plantas absorvam nitrogênio da atmosfera e existam. É imensamente enriquecedor contemplar os incríveis e gigantescos processos de adaptações e relações, do nível dos genes ao dos ecossistemas. Conjuntos e mais conjuntos de relações.
Se esta magnanimidade não nos criar um profundo senso de respeito, não sei o que poderia criar.
Este maravilhamento, que parece ser o ponto de partida da filosofia, das ciências e das religiões, e esta noção – ainda que limitada - sobre tudo o que já ocorreu e continua ocorrendo para que a vida exista deveriam estar no fundamento de nossa moralidade no que se refere ao modo de nos relacionar com o mundo do qual somos parte.
As ciências deveriam, portanto, aumentar nossa consciência sobre o mundo para vivermos vidas pautadas em princípios mais nobres, dignos e respeitosos, e não o “conhecer para dominar”, tão típico destas áreas do pensamento humano.
Conhecer melhor a alteridade nos ajuda a sabermos como agir em relação a ela. Assim, no fundamento do processo de conhecimento há um profundo questionamento ético, e é mais do que urgente que fundamentemos e vivamos nossa dimensão ecológica de modo eticamente aceitável. Está aí o desafio para que nossas ciências percebam o papel nefasto que têm cumprido nos últimos séculos e religuem-se ao nobre papel do conhecimento na geração de sabedoria. Que nossas ciências possam sair das trevas da ignorância!



[1]
                        [1] Traduzido pelo autor de entrevista disponível em: http://bysheilaheti.blogspot.com.br/2010/06/interview-with-mary-midgley.html
[2]
                        [2] DAWKINS, Richard: Desvendando o Arco-Íris: ciência, ilusão e encantamento. São Paulo, Companhia das Letras, 2000, pp.107.
[3]
                        [3] A necessidade de alterar este tipo de valores, de nos recolocar no mundo, será novamente debatida no último capítulo deste livro.
[4]
                        [4] DAWKINS,Richard: Desvendando o Arco-Íris: ciência, ilusão e encantamento. São Paulo, Companhia das Letras, 2000, pp.27.

Nenhum comentário:

Postar um comentário