terça-feira, 28 de julho de 2015

15 - Ecoveganismo


Muito do veganismo atualmente praticado diz respeito ao boicote ao consumo de produtos advindos da morte ou exploração direta de animais e ao estímulo ao consumo de produtos que não tenham sido fabricados com partes de animais mortos, que não tenham sido testados em animais ou que não usem ou patrocinem o uso de animais como forma de entretenimento.
Um forte princípio que embasa o veganismo e as teorias sobre direitos dos animais vem do fato de que os animais são seres sencientes e, portanto, merecedores de respeito individual. O veganismo é assim de natureza muito diversa do ambientalismo, que possui bases coletivistas, focando-se nas espécies e ecossistemas, onde o que importa é o número de indivíduos, a “sobrevivência” da espécie, a exploração controlada da natureza (se a espécie não está em extinção, não há problema em matar seus membros). Se não pensamos deste modo em relação aos humanos, por que pensamos em relação aos outros animais? Para o veganismo, a questão não é se há ainda espécimes vivos de uma espécie ou se o número de seres mortos em um ano está dentro dos parâmetros legais para a manutenção da existência da espécie. Importa o respeito às necessidades específica de cada animal.
Há, portanto, um salto qualitativo dado pelo veganismo, ou pelas teorias sobre direitos dos animais, em relação ao ambientalismo: a passagem de uma visão de mundo puramente coletivista para uma que percebe aos entes concretos. O coletivismo, apesar de parecer algo belo, é, em realidade, uma visão de mundo homogeneizante e geradora de possíveis violências. Ditaduras, de direita ou de esquerda, são coletivistas, já que embotam a existência de entes concretos em nome do funcionamento do global, da massa. Um ambientalista que outorga a si mesmo o direito de falar quais animais podem ser mortos e quais não é um ditador. Este ambientalismo, assim, reproduz a visão de mundo geradora dos problemas ambientais: aquela que põe o ser humano no centro e no controle do mundo.
Contudo, na postura vegana de atenção aos indivíduos, há também um problema...
É igualmente fundamental respeitar os ecossistemas e os indivíduos. A própria oposição entre os dois já é problemática. Não há respeito a um sem respeito ao outro, pois são, em realidade, a mesma coisa. Todos os indivíduos da natureza dependem, para sobrevivência própria, das inúmeras relações ecossistêmicas nas quais estão inseridos. A vida é um infinito conjunto de relações que devem ser respeitadas tanto quanto o direito de cada ser de viver em liberdade de acordo com seus próprios interesses (mesmo que sejam interesses comuns de toda sua espécie). E mais: o “todo”, a “natureza”, não é algo que exista em si, como um ser autônomo. É o resultado da união dos entes e fenômenos individuais. É a relação entre todos os processos existentes. “Natureza” é uma abstração humana.
O termo “indivíduo”, etimologicamente o não divisível, também é uma abstração humana. O “indivíduo” é, na verdade, algo que só existe em relação, algo formado por incontáveis processos fluidos. É importante que durante a leitura deste texto se atribua este valor para o termo.
Assim sendo, não há como pensar em um veganismo, assim como em uma política, que seja plenamente individualista nem coletivista. É preciso uma ética cujos fundamentos sejam a interdependência e a coexistência. Nem indivíduos como centro do mundo (o que faz com que possam passar por cima dos interesses coletivos para atingir as próprias finalidades – ainda que o individualismo, numa concepção mais profunda, devesse levar ao respeito ao interesse dos demais indivíduos), nem coletivos como centro do mundo (o que faz com que se possa passar por cima de existências individuais para garantir a existência coletiva: fascismo político ou ambiental.).
Propõe-se aqui, assim, um Ecoveganismo. Veganismo no que se refere ao trato e respeito a cada animal como merecedor de respeito aos seus interesses específicos, como não passível de ser propriedade de outro ser, como merecedor de liberdade. “Eco” no sentido de que esta preocupação é inseparável da preocupação com aquilo que é coletivo por princípio, que embasa e possibilita a vida – e a qualidade da vida – de todos estes seres: este infinito conjunto de relações e transformações entre tudo o que há - seres vivos, minerais, gases, águas, dinâmicas de relevo, hídricas, atmosféricas, tectônicas etc. - ao qual chamamos, em nossos conceitos abstratos, de natureza.

Padrão Alimentar
A alteração de nossos padrões alimentares por motivações éticas, proposta do veganismo, vai além da retirada de ingredientes de origem animal dos pratos. Há, como apontado acima, outras questões de grande importância a serem consideradas.
Um veganismo de bases ecológicas passa por pensar naquilo que é prejudicial e destrutivo aos ecossistemas e toda vida que há neles.
Exemplos muito comuns daquilo que devemos nos preocupar, fundamentos de nosso modo de vida e de nossa maneira de produzir comida, são: extração de matéria-prima em escala industrial; monoculturas; latifúndios; agrotóxicos; geração de enorme quantidade de lixo industrial altamente poluente; uma cultura fundada na petroquímica; agrotóxicos; poluição dos solos, águas e ares com produtos químicos, tóxicos, sintéticos; geração de péssima saúde em pessoas que passam a usar medicamentos que geram ainda mais poluição, como excrementos humanos contaminados indo para solos, águas e ares; aniquilamento de diversidade biológica nas áreas de plantio e extração de matéria prima etc.
Estas são violências tão consideráveis aos animais e a toda a vida quanto outras contra as quais o Veganismo já se opõe. Expandir a prática vegana já consolidada passa por não atrelá-la ao consumo de produtos responsáveis por esta lista de desgraças. Um produto pode ser feito apenas de ingredientes vegetais e sintéticos, não sendo responsável pela morte de um animal específico, porém pode ser responsável pela destruição de ecossistemas inteiros: oceanos, florestas, rios, atmosfera etc. E, assim, claro, de um número incontável de animais.
Portanto, a escolha do alimento com base em preocupações de teor ético vai além de este conter ou não ingredientes de origem animal. É urgente que pensemos e coloquemos em prática formas diferentes de produzir e consumir nossa comida[1], tanto quanto é urgente pensar no que devemos ou não ingerir. É preciso transformar nossas fontes de produtos vegetais, geralmente estruturadas em grandes monoculturas com alto uso de agrotóxicos que destroem ecossistemas e espécies nativas inteiras mundo afora e ainda geram pobreza e desigualdade social. Não há como justificar que o alimento que mantém a vida de um necessite destruir a vida e a qualidade da vida de muitos. Precisamos de um padrão alimentar que respeite todas as formas de vida. Inclusive a nossa. O veganismo precisa, portanto, expandir-se.
A saúde humana é um tema rechaçado em parte significativa dos discursos de defesa do veganismo (ao menos do ponto de vista de quem coloca mais sua voz publicamente). Trata-se de um dualismo sem sentido se pensarmos nas questões levantadas acima. Aquilo que aumenta a possibilidade de doenças em nós é o mesmo que destrói o restante da natureza. São os mesmos ingredientes, aditivos e modos de produção. Alimentação industrial ou derivada de invenções industriais (como os agrotóxicos) impactam os ambientes e a nós mesmos em uma só tacada. Saúde humana, em uma visão interdependente, é uma preocupação ética e, inclusive, de ética animal, já que ao impactar ambientes, mata-se ou prejudica-se todos aqueles que neles vivem.
Não há espaço para falsas dicotomias em um mundo plenamente relacional. Não há espaço para divisões entre ética e ecologia, ética e saúde, saúde e ecologia, respeito aos animais não-humanos e respeito aos animais humanos.


[1]
                        [1] Agrofloresta, Agroecologia e Permacultura são práticas a serem mais estudadas e incentivadas.

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