terça-feira, 28 de julho de 2015

14 - Por que não sou verde


Poucas coisas me parecem mais estranhas ao respeito que almejo em relação à natureza – essa ideia complicada - do que a defesa do verde!
Por que o verde? Basta uma mínima olhadela com alguma atenção para o mundo e sua pluralidade de cores e seres para estranhar-se com os verdes discursos ambientalistas.
Parece um argumentozinho bem mequetrefe este meu, não? Vejamos então o que se esconde por trás desta aparente beleza verdejante, desta onda verde, desta obrigação de verdejar a alma propagandeada pelo torpe Ambientalismo antropocêntrico e inebriante que aí se encontra como alicerce de grandes ONGs, ECOs92, RIOs+20 e grupos famintos por verbas para oficinas de educação ambiental.
Verde, nestes discursos, é meio ambiente, esta estranha abstração homogênea, tão irreal que pretensamente controlável, apta para nossa tutoria. Uma mancha verde no nada, quase uma pintura abstrata. Verde é uma beleza padronizada para sensos estéticos padronizados. Certamente não o molusco, não a matéria em decomposição, não o leão devorando a gazela, não a ave defecando sobre nossas cabeças, não o inseto que ousa zumbir no ouvido do ambientalista benfeitor.  Muito menos a vaca no matadouro, a galinha na gaiola ou o rato na gaveta de um laboratório.
O mundo não é só verde e a natureza não é meio ambiente. O mundo – com o limite da difusa impressão que podemos ter de algo tão geral quanto “o mundo” - é união de incontáveis processos de interdependências em incontáveis escalas, relacionados de incontáveis formas diversas. O verde é apenas mais uma – bela – cor, apenas uma escala de processos e cores em meio a incontáveis outras. É este pensamento ecossistêmico que, parece-me, deveria estar no fundamento de nossos modos de nos relacionar com o mundo. Em realidade, nos fundamentos da própria delineação daquilo que concebemos por mundo e por nosso lugar neste incrível absurdo.
Quando vemos o mundo como puramente verde? Quando vemos um lugar estando fora dele ou o vendo de cima. Se olhamos uma floresta de um avião, vemos, aí sim, aquela bela área verde. Se estamos dentro de uma floresta, também vemos muito verde (na verdade, muitos verdes), mas vemos os marrons, pretos, brancos, amarelos, laranjas, vermelhos.... Ainda, o mundo não é apenas floresta, é oceano, atmosfera, rochas, desertos (ok, puristas, areia também é rocha... e, ok, climatologistas, nem todo deserto é de areia)...
Esta forma homogeneizadora de ver o mundo é de fundamento dominador. É como um cientista que  reproduz o mundo num laboratório e o faz caber em seus próprios pressupostos, experimentos e categorias de análise.  Trata-se da construção de simulações de mundo. Simulações sempre úteis aos interesses de seus criadores. Quem se beneficia em reduzir a natureza apenas ao verde? A quais fins pode levar o ambientalismo convencional?
“Ah, então você é contra respeitar o verde?!” poderiam questionar alguns ambientalistas com dedos em riste... Oh mentes duais! Não poderia eu ser contra o verde, mas também não contra o marrom, o preto, o azul, o lilás ou mesmo contra sei lá que cores poderiam possuir – ou melhor, nossos específicos olhos humanos poderiam perceber - átomos, moléculas, bactérias, gases, relações, vontades, necessidades, intenções... no limite, todo o espectro incolor e, para nós, invisível. E quanta beleza existe no invisível, em todas as incontáveis relações que são o fundamento da existência, todos os infinitos processos que formam o que chamamos de natureza (o que chamamos de “coisas” na verdade são momentos de processos, de relações).
Em realidade, tenho verdadeira adoração por árvores, seus belos e tão variados troncos, suas frondosas copas, seus cipós – que, permito-me o antropomorfismo, lembram-me muitas vezes longas barbas de velhos sábios observando-nos com cautela -, suas formas curvilíneas e angulosas para além de qualquer geometria, suas incríveis texturas... Esta adoração inclui também pequenas folhas de relva, sementes em germinação em seu estado incrível de potência, pequenos brotos, jovens troncos ao sabor do vento... Meu apreço por vegetais é enorme. Estão as árvores entre minhas companhias favoritas. E neste momento posso ouvir defensores de direitos dos animais exclamando aquela famosa assertiva: “arrá! Mas isto é como defender animais por achá-los bonitos ou por te fazerem companhia, como nestes esquizofrênicos morais que protegem poodles e patrocinam assassinato em série de vacas! Ética não é estética! Nem defender apenas aquilo que te fornece algum benefício! Decida se concedes valor intrínseco ou valor instrumental!”.  Sim, eu sei que não são essas as causas do respeito que tenho pelos vegetais, mas... oh mentes duais...
Voltando... em que mundo vivem os que se apegam a um verde que exclui todo o não-verde? E, importante também questionar, em que mundo vivem os defensores de não-verdes que excluem e subjugam todo o verde? (encaixe “Ambientalismo” e “Direitos dos Animais” neste parágrafo como preferir).
Dualismos de resultados nefastos... Dualismos próprios a gritos de guerra, bandeiras, preenchimento de editais e manutenções obscuras de status quos, mas impróprios ao compartilhamento mais sábio do mundo.

Respeitar o verde, em suma, passa por deixá-lo ser apenas mais uma cor do incrivelmente múltiplo espectro da existência.

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