terça-feira, 28 de julho de 2015

11 - O animal e a lâmina

Dia desses, utilizando uma famosa camiseta de ativismo vegano defronte ao espelho, após anos de prática vegana, percebi pela primeira vez que o reverso da palavra animal é lâmina. Lâmina!
(O acento foi colocado pela minha imaginação. Mas o que é um acento numa hora dessas?)
Uma bomba matinal para um vegano metido a escritor.
Deveria eu levar mais a sério os colegas dialéticos, para os quais o oposto de algo já está no algo, o aniquilando na geração de outro algo? Não sei... a lâmina está no animal, mas, normalmente, de início está apenas em um animal, que a faz, então, estar nos demais. É dialética quando a negação parte de um corpo diverso ao corpo que sofre a ação, mesmo que todos sejam, em realidade, partes de um mesmo todo - animais? Também não sei e, sabiamente, decido não prosseguir esta elucubração. Algo mais profundo chama-me: a imagem da lâmina, aniquiladora do animal, estar no próprio animal, o contrariando, lá, no íntimo de seu nome, arrebatou-me instantaneamente.
 O que é um nome? Apenas um conjunto aleatório de letras com a capacidade de diferenciar um objeto de outro nomeado por outro conjunto aleatório de letras?

*
Mantenho-me longos minutos arrebatado defronte ao espelho. Vem-me à mente uma tentativa de haikai:

Lâmina intrínseca
Subverte
O animal

Permaneço frente ao espelho contemplando palavras.
Ah, que espírito horrível o nosso, que contempla palavras enquanto a lâmina cai.
Uma palavra que traz em si, no seu oposto, o oposto de sua permanência: sua aniquilação, sua morte. Que força imagética!
E que patético, eu, humano, frente ao espelho, pensando em escrever poesia sobre lâmina, sentindo forças imagéticas. Restaria-me, se decente fosse, apenas jogar-me nos gritos que compõem nosso silêncio.

*
O que é esse conjunto de símbolos impressos, jatos de tinta, letras, em comparação com a lâmina real, afiada, aniquiladora de seres?
Ainda assim, a lâmina e a palavra lâmina existem. Coexistem.
Às vezes, algo comumente inerte, como um monte de traços numa folha de papel (que também é uma lâmina e por vezes afiada), nos desperta para a realidade da realidade, a vida da vida.
Às vezes.
A palavra jogou-me no abismo. Vívido pescoço, a palavra jogou-me no abismo, no teu abismo, no abismo do teu fim.

*
Sei que a morte e a vida não são apenas um par de opostos. Há muito entre a vida e a morte. Vivificamos e mortificamos. Mas há uma fronteira especial. A lâmina! A lâmina! Este horror que, comumente, semeia o veganismo, energiza o vegano.
O vegano que está agora defronte ao espelho. Olhar longínquo. O que vê, para além do espelho, para além de seu próprio pescoço, são pescoços bovinos, galináceos, suínos...
Todo pescoço animal possui em si o avesso da lâmina.
Saio então no aperto do horário, do espelho para a cozinha para o desjejum para o ônibus para a vida.
Minha vida animal. Enquanto a lâmina não me encontra.

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