terça-feira, 28 de julho de 2015

08 - A vegana arte de apreciar obras de arte


A vida vegana... Certeza de ser algo bom. Mas ando sempre incomodado com o que aparece por aí. Tenho culpa eu se a normalidade é tão assombrosa? Sou ranzinza eu pela violência ter virado o status quo?
Adoro música clássica e às vezes vou a concertos, durante os quais, mesmo estando com a mente a anos-luz de distância, inebriado por todo aquele som, aquelas dezenas de instrumentos em acordo, levado por relevos sonoros inimagináveis, há sempre algo me cutucando os neurônios: esses arcos são feitos com crina de cavalo! Incômodo que perdura mesmo na mais delicada sinfonia. E fico pensando: o que mais deve haver de origem animal nesta orquestra? Será que estes instrumentistas capazes de toques tão doces são devoradores de cadáveres? Será que eles festejam uma boa temporada com um grande churrasco? E as crinas? Não há outro modo? Dizem que os materiais sintéticos não produzem um som tão bom. Mas vos pergunto: e o que o cavalo tem a ver com isso? Nunca vi um cavalo apreciador do impressionismo francês.
E os museus? Já me incomoda um tanto aquele ambiente de museu, com todas aquelas obras expostas como em uma gôndola de supermercado, sendo analisadas por meia dúzia de especialistas e discutidas no café. Ou logo esquecidas. Mas, para mim, reles apreciador, além de tentar entender ou me libertar para sentir o que uma obra de arte pode me transmitir, fico pensando a cada quadro: será que esta tinta é de origem animal? Sei que já foi comum fabricar tintas com ovos e pigmentos. Mas nunca vi uma galinha cubista. Já vi galinhas amontoadas em cubos de barras de ferro, mas cubistas, nunca.
E o cinema? Amo cinema. Mas e as películas dos filmes cinematográficos? São feitas com gelatina de origem animal. Tutano de boi assassinado. Já vi um boi que lembrava o Woody Allen, mas isto não me deixa menos preocupado. Agora há cinema digital, mas muitos acham que não é a mesma coisa. Pessoalmente, não sei, mas creio que os bovinos não estão muito ligados nas possibilidades de fotografia nas diferentes mídias.
Não pense que essa preocupação restringe-se a locais como salas de concertos ou museus. Ela perdura ao passar defronte a qualquer botequim em que haja uma roda de samba. Como justificar toda aquela percussão feita de pele? Falar em pandeiro com pele de gato, além do sempre companheiro do samba, o churrasquinho, que pode também ser de felino, são já piadas consagradas, quando não realidades. Não sei o que é pior.
A violência é tão arraigada em nossa cultura que a maioria de suas manifestações não é nem é percebida, muito menos questionada. Seres vivos e sencientes facilmente viram arcos de violino, tambores, pandeiros, tintas, filmes fotográficos... E a vida segue na mais tranquila normalidade.
Que espécie de arte é esta?
Nazistas fizeram belos abajures com pele de judeus. Ingleses fizeram belas bolsas para tabaco com saco escrotal de aborígines tasmanianos. Nós fazemos belos filmes com tutano de boi e belas sinfonias com crina de cavalo. E eu não vejo uma diferença substancial. Mudar a espécie da vítima não altera o tipo de violência. Não justifica uma alteração de moralidade.

Ei, sapateador, esses sapatos são de couro, não?

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