terça-feira, 28 de julho de 2015

06 - Nota sobre os movimentos de libertação animal


Os movimentos de libertação animal devem estar atentos para que seu conjunto de práticas e diálogos gere de fato a libertação e não o controle. Deve-se tomar cuidado com a possibilidade de homogeneização do pensamento, estipulação de modos oficiais de divulgar-se verdades oficiais e surgimento de líderes incontestáveis. Há sempre o risco de, em nome de algo libertário e belo, se não forem tomadas as devidas precauções, fabricar-se mais um centro de poderes castradores.
A própria ideia de movimento talvez deva ser questionada em prol de sujeitos agindo juntos por interesses semelhantes pensados e repensados por cada um em suas relações com a coletividade, não como simples repetidores de argumentos oficiais. Este tipo de comportamento tira o foco dos processos, do princípio de ser respeitoso com formas de vida não humanas, para focar-se em seguir os mandamentos do movimento, do tipo: “não tomarás leite” ou “não comerás ovo”. Aí, o que não faz parte dos mandamentos estipulados não é veganismo, ou fica periférico a ele, como no exemplo que será trabalhado na segunda parte deste livro: não se é vegano comendo algo que possui algum ingrediente de origem animal, como queijo, mas se é vegano consumindo algum enlatado que, mesmo que não possua ingredientes de origem animal, destruiu ambientes e animais silvestres.
Dogmatizar o comportamento aceito reproduz a sociedade massificada, transformando o ativista em um simples repetidor de panfletos e tira o foco da necessidade de pensar cada ação com atenção, tentando perceber a rede de causas e efeitos de cada ato, para além da aparência mais direta.
Desta forma, gera-se a defesa do veganismo como entidade em-si, em substituição à prática do respeito aos animais em cada ato. Substitui-se o processo pelo nome. Com isto, de modo quase imperceptível, o respeito aos animais transforma-se em um exército de defesa do veganismo (e de visões oficiais do que seja o veganismo e do que um vegano deve ou não fazer). E assim, perde-se o teor libertário em nome da palavra “libertação”, assim como outros já perderam a construção de práticas socialmente justas em nome da defesa do socialismo.
Quando transformamos o modo como achamos correto agir em cada situação em um conjunto de leis definidas e estanques a serem seguidas, matamos o princípio, matamos o indivíduo que age por consciência própria e criamos uma legislação, que como toda legislação necessita seus policiais e sacerdotes: reproduzimos uma mentalidade de gerenciamento de gado humano em nome da crítica ao gerenciamento de gado não humano.
É preciso estarmos atentos não apenas à libertação animal, humana e da natureza, mas à libertação da própria libertação, para que não criemos doutrinas e sim novos e vivos pensamentos e práticas.
Outra nota válida para o ativismo em defesa dos animais é sobre o modo com que aborda pessoas. A violência com que muitos veganos tratam pessoas que se alimentam de carnes ou ovolacto-vegetarianos é já socialmente conhecida. Basta ler algumas postagens de páginas veganas em redes sociais para ter certeza disto. Até mesmo pessoas que procuram veganos em busca de informações são comumente agredidas, achincalhadas ou menosprezadas.
Trata-se, claramente, de um tipo de comportamento comum em grupos de identidades juvenis, adolescentes (ainda que muitas vezes exista em pessoas que já passaram pela adolescência há tempos). “Eu sou mais vegano”, “meu comportamento é o melhor”, “eu sou o suprassumo da ética universal”... qual a diferença entre isto e conflitos entre grupos identitários do tipo fãs de certo estilo musical versus fãs de outro estilo musical ou tentativas de ser o “fã alfa” de certo grupelho da moda?
E o que os animais ganham com isto? Obviamente, nada. Pelo contrário, são prejudicados quando os que deveriam falar em seus nomes afastam pessoas.
Melanie Joy, a autora do livro “Por que amamos cachorros, comemos porcos e vestimos vacas”, em sua passagem pelo Brasil em 2014, realizou uma pequena fala com ativistas veganos sobre este tema. Um ponto importante de sua apresentação foi o de que como comer animais é um hábito consolidado nas pessoas desde quase o nascimento, marcando muitos momentos importantes e laços afetivos, é algo forte em suas estruturas psíquicas, emocionais. Assim sendo, a mente possui uma tendência natural a bloquear tudo aquilo que pode impactar este pilar de suas constituições identitárias. Ao mesmo tempo, todos os que ouvem o que se passa com os animais no processo de transformação de seus corpos em peças comestíveis sabem, ao menos “lá no fundo”, que estão errados. Sentem algum tipo de culpa. Suas mentes, então, para evitar a culpa, que poderia minar tais constituições identitárias, criam uma barreira em relação ao discurso de ativistas. É por isto que tantas pessoas os rechaçam e evitam ouvi-los (isto não anula o que foi dito acima sobre a relação entre o comportamento hostil de veganos e a ojeriza social que vêm ganhando, fato que aumenta muito os muros entre veganos e não veganos).
Outra forma comum das pessoas lidarem com a possibilidade da culpa é zombando vegetarianos. As tão famosas e cotidianas piadas com vegetarianos são um sintoma deste mecanismo primário.
Assim sendo, quando um ativista vegano possui como modo de agir aumentar a culpa de alguém, faz um desserviço à causa. Aumenta os muros e os mecanismos de defesa da mente alheia.
É preciso modos de diálogo mais efetivos, menos brutos, mais sábios. Uma possibilidade – esta é outra ideia de Melanie Joy – é a simples exposição do porquê da decisão de se ter virado vegetariano, revelando que ativistas são seres humanos como quaisquer outros, que, em sua maioria, já se alimentaram de animais e, por motivos importantes – aí vale a pena a pessoa se expor em seu processo real de mudança – alteraram sua consciência e suas atitudes. Isto faz com que o ativista deixe de ser visto como uma entidade de outra dimensão realizando um modo de vida destinado a poucos escolhidos ou membro de grupelhos adolescentes.

Este simples e honesto diálogo depende, é claro, da simplicidade e da honestidade do defensor do veganismo. Se a motivação principal do vegano é de cunho egocêntrico, sentir-se melhor, sentir-se o mais correto, superior, ter um motivo aceito em seu grupo para justificar sua necessidade de menosprezar e agredir pessoas, ter uma desculpa para sua vontade de poder... aí então o ativismo vegano continuará a ser um desserviço aos animais.

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