terça-feira, 28 de julho de 2015

05 - Libertação animal, libertação humana


A pecuária é uma fonte de sofrimentos e mortificações tanto para animais não-humanos quanto para humanos. Ambos mortificam-se no violento processo de transformar entes vivos e sencientes em blocos de carne vendáveis. A pecuária é conhecida não apenas pelo sofrimento que impõe aos animais, mas também por suas condições de trabalho degradantes, além de ser o segmento econômico com maior presença de trabalho análogo à escravidão no país[1].
O documentário Carne, Osso[2] revela o cotidiano dos trabalhadores de frigoríficos no Brasil. 750.000 pessoas no país são expostas a rotinas de trabalhos deveras perigosas e repetitivas. Para desossar uma coxa de frango, por exemplo, pode-se realizar algo próximo de uma centena de movimentos manuais por minuto durante várias horas por dia. Nem conversar com os colegas de trabalho ou ir ao banheiro é permitido. Em outro setor, trabalhadores abrem os corpos dos animais - anteriormente torturados - com serras elétricas e facas, um ao lado do outro. Escorregar no chão ensanguentado ou, por um descuido, deixar o pesado cadáver trombar com um corpo de operário levando-o a perder dedo, braço, perna, é algo corrente na história destas empresas. Extremamente comum é a existência de operários com tendinites, dores, artroses, atrofias de nervos, problemas de juntas e de coluna, entre outras enfermidades, inclusive psíquicas (o índice de depressão é três vezes maior que a média dos trabalhadores), advindas dos movimentos extremamente repetitivos e das altas cobranças de produtividade, além do próprio teor do trabalho, já que lidar com a morte e com a destruição de corpos não é das atividades mais confortáveis pelas quais podemos passar.
As indústrias sempre negam sua culpa pela péssima condição de saúde gerada por suas linhas de produção, tratando os trabalhadores com anti-inflamatórios e outros remédios para dor, sem interromper ou diminuir a intensidade de suas jornadas de trabalho, fazendo com que os quadros se agravem e, ainda jovens, muitos destes venham a ser incapacitados para as suas ou quaisquer outras funções que exijam algum esforço de seus corpos.
Em época de discussão sobre os gargalos da Previdência Social, vale trazer o dado apontado pelo filme de que mesmo com a contribuição de 3% do salário dos trabalhadores (por serem as indústrias frigoríficas consideradas de alta periculosidade), ainda assim o Estado arca com bilhões de Reais direcionados aos trabalhadores adoentados e inutilizados por seus trabalhos nestas linhas de produção, dado o enorme número de pessoas nessas condições.
Nosso país se orgulha de possuir o maior rebanho bovino do mundo, ser o maior exportador de proteína animal e possuir a maior das indústrias frigoríficas. Um setor econômico alardeado como fundamental para o tal desenvolvimento da pátria. Seria de grande valor, antes de festejos impensados, checar o que estes dados significam para a vida de todos os envolvidos nestes processos produtivos, humanos e não-humanos. Festeja-se a industrialização da vida, a institucionalização da tortura, a transformação de processos vitais em linhas de produção cada vez mais aceleradas, fornecendo carnes e seus subprodutos industrializados em cada vez maior quantidade, maior variedade e maior facilidade para o consumo cada vez mais rápido pela acelerada população.
É importante enxergar esta situação calamitosa em um contexto mais amplo de vida urbana e industrializada, onde, independentemente da espécie – e do reino – tudo vira matéria-prima, peça em sistemas produtivos cujo valor se pauta pela produtividade. Isto, certamente, revela os limites do veganismo como apenas uma variação do consumo, escancarando a necessidade de transformações estruturais em nossos modos de viver, em nossas formas de nos inserir nas relações ecossistêmicas. Este será o tema da parte II deste livro.
Agir em prol da libertação dos animais das amarras criadas para eles pelos humanos é tão importante quanto agir em prol da libertação dos humanos de suas próprias amarras. Discriminações e preconceitos seguem a mesma lógica quando contra animais não-humanos ou contra humanos: um grupo acredita ser superior a outro grupo e crê que tal superioridade lhe dá autorização para subjugar e fazer com tal outro o que desejar.
As opressões de humanos e não-humanos são também baseadas na redução da vida a coisa, a matéria-prima, a recurso, e, comumente, são cheias de justificativas morais, políticas e econômicas para tal.
A humanidade sente-se no direito de explorar os animais para seus próprios fins e para gerar sua própria riqueza material, assim como parte desta mesma humanidade sente-se no direito de explorar outra parte para alcançar seus próprios fins e para gerar sua própria riqueza material. Reduz-se outros entes, humanos ou não, a coisas cuja finalidade não é mais a própria vida, mas as finalidades de outras vidas: tornam-se meios para fins alheios.
O modo de agir em relação a violenta e injusta situação também é similar quando se trata de humanos e de não-humanos: do mesmo modo como o assistencialismo aos humanos não resolve o que gera os problemas como pobreza, fome, solidão ou frio, mas ajuda as pessoas que em dado instante passam por estas mazelas, o cuidado com os animais abandonados, largados nas ruas, por exemplo, é de grande importância para eles, mesmo sabendo que o problema dos animais não será resolvido enquanto não houver um modo de vida humano realmente não exploratório, não baseado na apropriação de uns pelos outros, ou seja, um real respeito por formas de vida diferentes da nossa.
Um fundamento ético de central importância é a oposição ao uso forçado de outro ser para a realização dos próprios interesses: não possuo o direito de tratar outro ser como propriedade ou usá-lo, sem consentimento, para a saciedade de meus próprios interesses, assim como ninguém tem o direito de exercer propriedade sobre mim ou me usar, sem meu consentimento, para a saciedade de seus próprios interesses. Não há porque, eticamente, não estender o princípio da liberdade para entes de outras espécies.
O veganismo não é divergente da ética voltada para os humanos. É uma tentativa de viver o mundo com respeito às liberdades individuais, desde que a liberdade de um não envolva a liberdade de tirar a liberdade de outro: precisamos criar uma cultura onde a realização de um não signifique a exploração do outro e do que é coletivo. O veganismo pode ser, assim, parte de processos libertários mais amplos, de rupturas profundas com um modelo de civilização destrutiva, injusta e violenta.



[1]
                        [1] Informação obtida pela Divisão de Fiscalização para Erradicação do Trabalho Escravo (Detrae) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
[2]
                        [2] Site do filme: http://carneosso.com/

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