terça-feira, 28 de julho de 2015

04 - Outro exemplo de uso nefasto de animais: a militarização

Adam, pouco antes de seu primeiro salto, no Rio (Foto: Divulgação)

“Um animal que veste verde oliva, serve ao Exército e tem a cor marrom nos pés”. É assim que a Força Aérea Brasileira considera Adam, seu cão paraquedista[1]. Adam foi adestrado para realizar atividades como farejamento e patrulha, tendo sido já usado em operações militares, como no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro.
No Brasil, praticamente todos nós, humanos do gênero masculino, ao completarmos 18 anos, somos obrigados a nos alistar no exército, experiência lamentável para muitos, em aflição pela possibilidade de serem escolhidos e obrigados a servir a esta instituição, dedicar-se às armas, às táticas de defesa da pátria, em detrimento da vontade do escolhido. Lembro-me que a única coisa que me passava pela cabeça quando passei por este dia sofrível era como iria fazer pra fugir do país caso fosse convocado.
Esta experiência massiva é comumente exposta, socialmente aberta, propagandeada por grandes meios de comunicação em seus típicos chamados de “jovem, entre para as forças armadas!”. Contudo, algo pouco citado é o alistamento obrigatório de animais de outras espécies (e estes nem fugir do país conseguirão). É clássico, conhecido por qualquer pessoa que estudou História ou já assistiu filmes que retratem batalhas antigas, o uso milenar dos cavalos em guerras e exércitos mundo afora. O adestramento de cães para virarem paraquedistas é uma nova forma de escravizar animais para fins militares.
A ideia de “interesse” é muito válida para analisar este caso: quem somos nós, humanos, para passar por cima dos interesses específicos dos animais e transformá-los em peças a serviço de nossas necessidades? Quem somos nós para transformá-los em máquinas de produzir leite, máquinas de produzir lã, máquinas de produzir mel, máquinas de produzir carne, máquinas de detecção de drogas, máquinas de intimidação de suspeitos de crime, máquinas de transporte etc.? Mesmo que seja impossível para mim, humano, saber exatamente qual o interesse de um cão, não me parece que seu sonho seja saltar de um avião nas alturas, farejar e caçar contraventores de uma lei que ele nem mesmo sabe que existe, caçar alguém que cometeu o grave delito de nascer em outro povo ou, quem sabe, usar seu corpo para testar terrenos e descobrir, com sua própria explosão, onde humanos, em mais um de seus comportamentos exemplares, deixaram granadas soterradas para estilhaçar membros de populações, geralmente alheios aos motivos do conflito.
Adestrar um cão para saltar de um avião, seja qual for o objetivo, é uma violência contra o cão, sua liberdade e seus interesses específicos. É obrigá-lo a servir aos interesses de membros de outra espécie.
Sendo esta opressão realizada pelo Estado - uma forma de organização moderna oriunda de um modelo muito mais antigo de civilização sedentária, baseada na posse da terra e de toda a natureza para fins humanos - vale mais uma reflexão. O Estado nada mais é do que a extensão desta forma de viver: grandes fazendas onde se gerencia o gado humano - e não-humano -, que deve trabalhar para a manutenção da própria fazenda (exatamente como as vacas, por exemplo). Até mesmo para ir passear na fazenda de outro dono, é preciso que os donos de ambas fazendas autorizem. Se queremos produzir ou trocar algo, precisamos deixar cientes os donos da fazenda e, claro, pagar-lhes uma parte de nossa produção. Entre as obrigações nefastas do rebanho humano está a de defender a própria fazenda que o domina e, se necessário, por ela dar a própria vida ou tirar a de outras pessoas. Esta última violência, militar, ao contrário de tantos benefícios, não é privilégio humano.
Falar em respeito aos animais passa necessariamente por falar em mudanças radicais nas relações entre humanos e o restante da natureza. Exige rupturas em nossas bases organizativas, esta noção de que podemos nos apropriar da Terra e de toda vida que há nela. A ideia de Estado, assim como tantas outras definições e delimitações, deverá estar nestas rupturas.



[1] Fonte: http://odia.ig.com.br/portal/economia/html/2011/11/forca_militar_o_cao_paraquedista_do_brasil_207221.html

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