terça-feira, 28 de julho de 2015

02 - Uma reflexão sobre a plenitude da vida: o que é matar?


A reflexão sobre a escravidão e a matança de animais permite-se a uma depuração: o que significa matar? O que significa, de fato, viver?
Costumamos entender como morte o fim total da vida e como vida o exato oposto disto, o que nos leva a valorar de forma completamente diferente, como fatos de naturezas diversas, o assassinato e todas as formas de opressão.
Um exemplo: certa vez, em uma rede social, um conhecido publicou uma foto de um jovem parente segurando um peixe recentemente pescado nas mãos, com um comentário de que esta “experiência em família não tem preço”. Respondi então mostrando o preço que o peixe pagou: ser perfurado por um metal sentindo extrema dor, ser puxado para fora de seu habitat por este mesmo furo dolorido, ficar certo tempo fora da água – o que equivaleria para nós a ficar dentro da água, com toda a angústia de não respirar – ser manipulado por seres estranhos até ser jogado de volta para a água com toda a dor e desespero resultantes desta experiência. Sua tréplica foi reafirmar que eles não o comeram, ele não foi para a panela, então tudo ficou bem para todos.
Costuma-se diferenciar-se radicalmente, portanto, o status de matar um ser ou torturá-lo.

Mortificação e vivificação
Aquilo que comumente chamamos de morte diz respeito ao fim da vida, à morte corporal absoluta. A isto podemos chamar de “morte plena”. Em seu oposto, normalmente coloca-se a vida. Ou se está vivo ou se está morto. Contudo, como polo oposto da morte plena, podemos idealizar a existência de uma “vida plena” e entre estes polos um contínuo, uma gama de tendências, elementos e atos que nos mortificam ou vivificam. Não estamos apenas mortos ou vivos. Em vida, podemos estar mais vivos ou mais mortos. Podemos nos vivificar ou mortificar, assim como podemos vivificar aos outros ou mortificá-los.
Há, então, o que plenifica a vida e o que plenifica a morte, para além do que gera a morte absoluta, como o assassinato, ou o que gera a vida em senso estrito, como os atos reprodutivos.
Vida plena está intimamente relacionada com a liberdade, termo indefinível mas que inclui poder experienciar  nossas potencialidades específicas, idealmente para que possamos realizá-las de forma cada vez mais hábil. Este processo de experienciar a si mesmo enquanto se experiência o mundo, alterando-se neste caminhar, é inerente a uma vida bem vivida, mais viva, mais plena.
Tudo aquilo que impulsiona a plenitude das potencialidades de um ser vivo o vivifica. Tudo aquilo que diminui a possibilidade deste ser viver habilmente as próprias potencialidades é uma mortificação: também é, em suma, matar.

Matando animais
Quando pensamos eticamente em nossa relação com os demais animais, é preciso ter o princípio acima em consideração: tudo aquilo que fazemos que os impede de ter uma vida mais plena, livre, de gerir a própria vida, de viver de acordo com seus próprios hábitos, os mortifica. Não matá-los inclui não prendê-los, não torturá-los, não debicá-los, não engaiolá-los, não enjaulá-los, não acorrentá-los, não adestrá-los, não isolá-los, não paralisá-los, não testá-los, não pescá-los, não montá-los, não chicoteá-los, não tosquiá-los, não reduzi-los a exposições em zoológicos, a objetos de entretenimento, a produtos comercializáveis, a matérias-primas... Não se pode reduzir, portanto, a consideração moral dos animais apenas a tirar suas vidas ou não.
Aí, no conceito de morte, encontram-se conectadas as diferenças entre ovolacto-vegetarianismo (não consumir carnes mas usar todos os demais produtos advindos da exploração de animais, como ovos e leite) e veganismo e entre bem-estarismo (lutar por melhorias nas condições de exploração dos animais) e abolicionismo animal (lutar pelo fim da exploração dos animais, independentemente da quantidade de sofrimento imposta aos mesmos). Respeitar a vida de um animal é não explorá-lo de nenhuma forma, não torná-lo escravo da humanidade, independentemente de se será morto para virar bife ou “apenas” passará toda sua vida preso para que se tire seu leite ou seus ovos.
O veganismo, portanto, com todos os seus aparentes “nãos” – não comer carne, não tomar leite, não comer ovo, não comprar produtos testados em animais, não frequentar rodeios, zoológicos, circos com animais... -, é, na realidade, um sim, pois não matar não é um não. Não matar é dar um sim, um sim para a vida e para tudo o que a vivifica.

Plenificando a vida humana e sua relação com as demais vidas
Na escolha de nossas intenções e ações, de nossos princípios, devemos estar atentos ao que nos mortifica ou vivifica, ao mesmo tempo em que sondamos quais de nossos atos mortifica ou vivifica outros entes, humanos ou não. Tudo aquilo em nossos comportamentos, intenções, ações, padrões mentais, padrões civilizatórios, modelos de cidade, rotinas, hábitos... que nos tira a plenitude da vida nos mortifica, nos mata, assim como tudo aquilo que fazemos que tira a plentitude da vida de outro ente, o mortifica, o mata.
Em humanos, que é sobre quem se pode falar com maior conhecimento de causa, a liberdade que torna a vida mais plena é maximizada pelo desenvolvimento da habilidade de estar atento, assim como pela presença de emoções mais educadas e modos sábios de se inserir no mundo, ou seja, pelo aumento da possibilidade de se ter relações honestas e bem intencionadas conosco mesmos e com os demais entes eles-mesmos (não apenas naquilo que possuem para nos servir). Em suma, autoconhecimento e criação de verdadeiros vínculos são essenciais na vivificação da vida humana.
Um ente atento e liberto vive uma vida mais plena – seja na relação consigo mesmo, seja na relação profunda com o restante do mundo (dimensões inseparáveis). Um ente cuja percepção de mundo é embotada, que é dominado por padrões mentais doentios, dominadores ou que está de alguma forma preso está mortificado, mais perto da morte absoluta.

Ser livre não é crer que apenas a vontade do indivíduo isolado importa, mesmo que destrua a liberdade dos demais (por exemplo, satisfazendo o desejo de bife, ovos ou queijo pela prisão, tortura e matança de seres sencientes ou pisando em outras pessoas para crescer financeiramente). Quem faz isto não é livre. Depender da servidão dos demais para a própria realização não é liberdade. Ser livre não significa opor-se aos limites e virtudes da coexistência. Quanto mais plena é a vida de alguém, mais permite que a vida dos demais também o seja. O verdadeiro ente liberto liberta.

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