terça-feira, 28 de julho de 2015

19 - Em resumo: Nova abolição, nova ecologia, nova política

Nova abolição, nova ecologia, nova política

Nova abolição
Uma das questões mais vivas e vanguardistas de nossos tempos é a de nossa relação com as demais espécies animais. Este questionamento repercute em diversas dimensões de nossa vida, tais como nossos hábitos alimentares, de consumo, de ciência e de entretenimento, e é alimentado por diversos focos de análise, como a ética e a ecologia e a saúde.
Embora esta questão gere tantas e diversas argumentações, tantos humores, ânimos, rejeições e conflitos, especialmente quando ideias como vegetarianismo e fim dos testes em animais são levantadas, em realidade possui, em sua dimensão diretamente ética, um argumento simples: se julgamos ser errado escravizarmos, torturarmos, violentarmos seres humanos, pois consideramos que devem ter sua integridade e autonomia respeitadas e não serem alvos de imposição de sofrimento desnecessário, precisamos também assim considerar as nossas ações em relação aos outros animais, pelos simples fatos de que também possuem seus próprios interesses em suas vidas (suas vidas não nos pertencem) e de que são capazes de sofrer e de ter algum tipo de consciência sobre o que sofrem (sobre seu prazer e sua dor) – são também sencientes.
Por não serem respeitados neste sentido, por estarem quase sempre subjugados aos interesses humanos, nos servindo involuntariamente e sendo alvos de imposição de diversos e pesados sofrimentos corporais e psicológicos, o nome mais indicado para dar título ao papel que comumente animais possuem em nossa cultura é escravidão.
Acreditando que isto é eticamente errado, faz-se necessário um movimento no sentido da libertação dos animais das amarras criadas para eles pela humanidade: um movimento de abolição. Não apenas leis que melhorem o bem estar dos escravos com medidas paliativas que diminuam a intensidade de suas torturas, mas, como objetivo maior, como princípio ético, a total abolição da escravidão.
O modo de vida que tenta eliminar o consumo de tudo aquilo advindo da escravidão e tortura de animais é chamado Veganismo, dentro do qual destacam-se as posturas vegetarianas, contra testes em animais, contra uso de animais como entretenimento, contra a transformação de animais em matéria-prima (como na fabricação de vestimentas) etc.

Nova ecologia: para além do ambientalismo
Provavelmente o grande símbolo do ambientalismo é o verde, a defesa do verde. Contudo, é extremamente necessário, para almejarmos realizar transformações profundas em nossas problemáticas ecológicas, assim como em nossos padrões éticos e políticos, ir-se além do verde, ampliar o escopo de percepção e ação.
Para entender o porquê disto faz-se necessário uma breve reflexão sobre esta simbologia. Por que apenas verde? A natureza só é verde quando a olhamos de forma generalizada, quando somos uma dimensão separada a observando de fora. A natureza, em realidade, compõe-se de todas as cores e, importantíssimo não esquecer, do invisível, ou seja, de todas as incontáveis relações que são a base da existência de tudo o que há. Quando olhamos a natureza em suas múltiplas escalas e inter-relações, o verde, ainda que belo, torna-se apenas mais uma cor num espectro que nos aparenta infinito. Se queremos estabelecer ações humanas ecologicamente mais dignas, precisamos nos atentar para todas as “cores” e para todas as relações que embasam nosso mundo.
Este salto em relação ao ambientalismo tradicional é, também, um avanço em relação a visão coletivista que embasa sua prática, em que o que importa é apenas o coletivo, os habitats, os ecossistemas, o geral, sem consideração aos seres particulares (se determinada espécie não está entrando em extinção, não há problema em matar parte de seus membros).

Nova ecologia, nova política
Ir além das generalizações é opor-se a uma cultura centrada na opressão aos indivíduos, seja pela massa, pelo coletivo ou por outros indivíduos e espécies. Esta postura, contudo, não representa uma defesa do individualismo, também dominante em nossa cultura, em que para se cumprir interesses individuais passa-se por cima dos interesses de todos os outros, indivíduos ou coletividades. O fato de que tanto este individualismo quanto o coletivismo coexistam nas bases de nossa cultura mostra o quanto não são, em fundamento, tão díspares. Ambos são opressivos e violentos.
Ir além do ambientalismo padrão é viver uma proposta de pensamento ecológico nem individualista nem coletivista, mas baseada na tentativa de construir um mundo de coletividades saudáveis formadas por indivíduos ao mesmo tempo autônomos e coexistentes.
Quando o modo de vida de um (o que é necessário para a sua realização) não depende do uso, da opressão, da subjugação de outros, sua autonomia é verdadeira e a coletividade criada a partir daí pode ser mais saudável, respeitosa, digna, justa e bela. Um ser que se julga autônomo por fazer o que quer, dependendo para isto da opressão de outros, não é autônomo nem livre. É um escravo de si mesmo e gera um mundo de escravidão (exemplos: escravizar e matar um animal para satisfazer o desejo por um bife ou pisar sobre outras pessoas para conquistar o próprio desejo de riqueza material).
Ater-se aos princípios ecológicos da vida – tais como coexistência, impermanência e interdependência – é fundamento para uma política mais digna e profunda. É preciso pensamentos e práticas capazes de respeitar o compartilhamento do mundo, para que possamos verdadeiramente coabitá-lo. Nossa política deve, mais do que possuir preocupações ambientalistas, ser de fundamento ecológico.
Se queremos realmente a construção de um mundo melhor, este não pode ser pautado nos interesses puramente econômicos de uma pequena parcela da população. É preciso que as linhas mestras da política de um povo sejam baseadas em princípios verdadeiramente éticos e ecológicos. Por exemplo: não é porque a pecuária possui presença central na economia brasileira que deve ser impulsionada, se é um erro crudelíssimo e escravocrata, sem contar suas péssimas condições de trabalho[1], ser o campo da economia brasileira com maior presença de trabalho escravo humano[2] e os muitos e pesados impactos ao planeta da dieta centrada em produtos de origem animal[3].
Os princípios ecológicos acima expostos, assim como os princípios éticos em relação aos animais antes apresentados precisam encontrar-se, fundirem-se em nossa política (em nosso “estarmos juntos”). É preciso que haja um avanço em relação ao ambientalismo tradicional, considerando os animais também individualmente (a tortura de cada um deles é errada, já que, como visto acima, partilham dos mesmos porquês que nos fazem entender que oprimir, subjugar, violentar e escravizar um humano é errado), assim como é preciso que esta preocupação não seja desvinculada de tomadas de atitude em relação ao modo como nos relacionamos com toda a natureza: como produtos – mesmo os de origem vegetal - são gerados, como nossa produção industrial impacta o planeta, como dominamos toda a Terra como se fosse uma propriedade de nossa espécie etc. Cabe aí, em complemento ao termo “Veganismo” antes apresentado, a ideia de um “Ecoveganismo”.

Considerações finais: para nos vivificar
Precisamos de visões éticas, de políticas, de pensamentos e práticas que permitam a geração de um mundo centrado na coexistência, não na opressão. Precisamos de uma cultura não centrada na exploração de animais – humanos e não humanos - tanto quanto não geradora de destruição de habitats, de ecossistemas.
Trata-se de formular novos paradigmas sociais que se oponham à imposição de mortificações, tal como é comum em nossa cultura dominante. Tudo o que diminui a liberdade de um ser de viver sua vida específica, de tornar-se hábil em sua própria vida, de desenvolver suas próprias potencialidades, o mortifica, o deixa mais perto da morte. O contrário também é verdadeiro: tudo o que permite que um ser exerça esta vivências o vivifica, deixa sua vida mais plena. Quando pensamos em animais, para não mortificá-los devemos pensar não apenas em não matá-los, mas em não prendê-los, não torturá-los, não debicá-los, não engaiolá-los, não enjaulá-los, não acorrentá-los, não adestrá-los, não isolá-los, não paralisá-los, não testá-los, não pescá-los, não montá-los, não chicoteá-los, não tosquiá-los, não reduzi-los a exposições em zoológicos, a objetos de entretenimento, a produtos comercializáveis, a matérias-primas, não destruir seu habitat...
Pode-se elencar outra série de ações que mortificam ou vivificam humanos. E elas também devem ser fundamentos de nossos modos de estarmos juntos - nossas políticas -, que devem permitir que nos vivifiquemos, ou melhor, que devem deixar de impedir que nos vivifiquemos, objetivando um mundo de coexistência e de vivificação, para que possamos todos viver de forma mais plena.

18 - Ecoveganismo e a necessidade de uma "educação cosmológica"


Como educador, um desejo surge a partir de tudo o que foi trabalhado nos ensaios anteriores deste blog: como lidar com uma sociedade baseada na coisificação dos entes, com a normalidade da incapacidade das pessoas identificarem-se com tudo aquilo que está fora de seus próprios corpos ou daquilo que lhes dá prazer, assim como com a incapacidade de perceberem a si mesmos, aos demais entes e ao mundo em que se vivem com interesse e respeito.
Estes questionamentos fazem parte de um estudo em andamento que objetiva desenvolver uma educação capaz de ir na contramão destas e de outras problemáticas relacionadas ao modo como experienciamos e modificamos o mundo.
Trata-se de uma tentativa de dar resposta no âmbito educacional para várias das problemáticas apontadas neste blog, entendendo que as críticas comumente feitas por defensores de relações eticamente aceitáveis com os animais apontam para algo que é consequência de visões de mundo profundamente arraigadas na humanidade. O modo opressor, possessivo e violento com que tratamos os animais e toda a natureza é fruto de modos de perceber, significar e vivenciar o mundo que estruturam nossa mente há milênios. Fruto de cosmovisões questionáveis.
            Quando pensamos na maneira como o mundo, as sociedades ou as pessoas se organizam, em suas espacialidades, temporalidades e paisagens, estamos atentando para a maneira como tais pessoas vivem “o mundo” a partir do modo como o percebem e o enchem de significados, transformando mentalmente a miríade incontável de fenômenos e processos percebidos em algo com certa ordenação passível de ser vivida: um mundo. E, aí, seus lugares neste mundo.
A maneira como percebemos o mundo e o significamos pode ser entendida como um eixo em torno do qual aquilo que chamamos de mundo se molda. Dito de outra forma, dependendo do modo como nossa mente está estruturada para perceber o mundo, certa noção do que é o mundo é gerada. Pode-se falar, então, que há aí um caráter cosmológico ou axiológico: cosmovisões (modos de perceber e ordenar o mundo), ao moldarem o modo como entendemos o que é o mundo e nosso lugar nele, de certa forma criam nossos mundos e, assim, delineiam nossas possibilidades de olhá-los, percebê-los, sistematizá-los e vivê-los, modificando assim o mundo concretamente existente.
Isto faz com que seja de imensa importância, se quisermos compreender aspectos da ação humana no mundo, que atentemos para as mentes humanas, seus padrões de percepção e julgamento, suas maneiras de se vincular aos diversos fenômenos, os conceitos que estruturam categorias básicas da vivência humana, tais como espaço, tempo, eu, outro, natureza etc. Este aprofundamento na sensibilidade e na psique humana, suas formas de operação, sentimentos e desejos, é fundamental para investigar-se com profundidade a concretude das existências individuais e sociais.
Torna-se, portanto, impossível separar nossas dimensões mentais e o mundo concreto em que vivemos. Não há um mundo concreto para nós sem o filtro da mente. Não há mente humana que não seja atrelada a todos os diversos fenômenos externos aos quais possui alguma forma de contato direto ou indireto. Em suma, mente e mundo não são entidades independentes.
Assim sendo, torna-se necessário o desenvolvimento de uma educação capaz de alterar cosmovisões: alterar o modo como percebemos, significamos e, portanto, alteramos o mundo concreto. A maneira como percebemos e significamos os animais, por exemplo, faz parte de um conjunto de princípios cosmológicos que fundamentam nosso modelo de civilização, modelo este cuja origem pode ser remontada, como marco simbólico (isto não exclui o fato de que se comia animais antes disto), à Revolução Agrícola ocorrida no período Neolítico, há algo como dez mil anos atrás, quando inicia-se a passagem do nomadismo para o sedentarismo, com o início da agricultura e da criação de animais, ou seja, a imposição das necessidades humanas para a natureza. Ao invés de fazer parte da natureza como qualquer outro ser, colhendo aquilo que está disponível, a partir deste momento a humanidade começou a ditar quais espécies existiriam e em quais lugares cada uma delas deveria estar (e quais não deveriam existir, podendo ser mortas, extintas ou consideradas como invasoras ou ervas-daninha). É o início da ideia de propriedade sobre a terra. A natureza deixa de ser ela mesma e passa a ser posse de pessoas que julgam poder nela fazer o que quiserem, modificá-la segundo seus próprios interesses. Em suma, trata-se da transformação das paisagens do mundo possuindo como objetivo dar voz às vontades humanas de permanência, controle e poder, assim como dar resposta a um sentimento muito presente nas mentes humanas: o medo – medo do amanhã, de não haver comida, de chover, de passar frio.
Vê-se assim que um modelo de organização do mundo, baseado em certas características mentais – cosmológicas - gera certa modelagem do mundo - cosmovisões -, certos modelos de sociedade, certos modos de se relacionar com os animais e com toda a natureza, certas paisagens, certas espacialidades, certas temporalidades, certos lugares. Pensar no modo como a humanidade relaciona-se com os demais animais é pensar nos fundamentos cosmológicos que geraram este tipo de mundo: quais necessidades, vontades e crenças o embasaram.
            O processo de educação vegana, à exemplo da proposta exposta no ensaio anterior deste blog, pode enriquecer-se muito com um salto para uma educação ecovegana com preocupações cosmológicas. Nossa cultura é uma cultura em crise. Somos, por exemplo, o resultado de uma série de pressupostos cosmológicos antagônicos aos fundamentos ecológicos da vida. Procuramos permanência e controle em um mundo impermanente, procuramos independência em um mundo interdependente, procuramos isolamento e egoísmo em um mundo múltiplo e diverso. Somos, assim, uma cultura de guerra à natureza e, portanto, de guerra aos animais. Crise ecológica é uma definição para nossa civilização.
            Como é tradicional em guerras, os inimigos inúteis são exterminados e os inimigos úteis são escravizados. Não é assim que nossa civilização trata os entes sencientes não humanos do planeta?
            É preciso, então, como fundamento de uma educação ecovegana, um trabalho pautado no desenvolvimento de características cosmológicas desejáveis, que formem pessoas hábeis em viver em um mundo de interdependência, coexistência, impermanência e multiplicidade (diversidade). Acredito que o resultado prático deste tipo de mentalidade no que se refere ao trato com os animais não-humanos pode ser surpreendentemente positivo.
            Trata-se da necessidade de finalmente aprendermos a habitar e coabitar o mundo, compartilhando lugares que “nos envolvem, forçosamente, nas vidas de outros seres humanos e, em nossas relações com não-humanos, indagam como responderemos ao nosso encontro temporário com essas rochas, pedras e árvores particulares. Eles exigem que, de uma forma ou de outra, confrontemos o desafio da negociação da multiplicidade[2].” Incluam aí, entre os não-humanos, os animais.
Esta educação deve incluir alterações no modo como as ideias de “eu”, “outro” e “todo/natureza” são arquitetadas em nós. Ideias menos egoístas de “eu” devem ser criadas, vínculos mais profundos entre “eu” e “outro” devem ser desenvolvidos, a percepção do todo como um conjunto incrivelmente imenso e múltiplo de redes de conexões, de processos, deve ser estimulada. Esta educação deve desenvolver a habilidade de viver em um mundo mais processual e relacional do que cheio de coisas e objetos definidos; deve também fornecer conhecimento e desenvolver habilidades para que as pessoas se percebam não como o centro do mundo (e sua espécie não como o centro do universo), que não sintam todo o mundo como em função de suas próprias necessidades[3]; deve permitir uma nova política (pois, o que é a política senão a questão do “estarmos juntos?”) de fundamentos ecológicos, em substituição às politicagens repetidoras de argumentos ambientalistas em vigor.
Apresenta-se assim a ideia de “educação cosmológica” como um convite para aqueles que chegaram ao final deste blog e desejam trabalhar na alteração de maneiras de vivenciar o mundo por via da educação ou incorporar preocupações de cunho cosmológico em suas atividades como praticantes ou divulgadores do veganismo.




[2] MASSEY, Doreen. Pelo espaço: uma nova política da espacialidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008, pp.204).
[3] Um poder enorme das ciências é dar-nos o conhecimento necessário para tirar-nos do centro do mundo, ver o mundo sem centros e atentarmos para a incrivelmente enorme quantidade de redes de interdependências que formam aquilo que costumamos chamar de natureza.
                As mudanças de escalas espaciais e temporais que conhecimentos científicos como a Astronomia, a Geologia, a Arqueologia, a Paleontologia, a Climatologia, a Antropologia, entre outros campos de investigação, podem gerar em nós, se bem vividas, podem nos induzir alterações cosmológicas profundas e fazer com que saiamos do centro do mundo.
                Como ver-se no centro do mundo após uma boa mediação sobre a história e o tamanho do Universo (e as possibilidades de multiversos)? Como ver a própria cultura como a única aceitável após bons estudos antropológicos? Como manter explicações tacanhas sobre uma pretensa superioridade da humanidade em um mundo recentemente criado para servir primordialmente como sua casa após boas aulas de Paleontologia e Etologia?
                Boas lições científicas associadas a boas reflexões filosóficas têm o poder de nos recolocar no mundo.

17 - O legado de Darwin para o pensamento ecológico


É inegável que o egoísmo de nossa moralidade padrão é inviável para a construção de sociedades humanas minimamente dignas. Viver o mundo como se pudéssemos ser entes isolados cujos interesses se resumem à busca de satisfação hedonista pessoal é, além de um ponto de partida ignorante, uma prática suicida e assassina.
As descobertas científicas sobre as relações entre indivíduos e espécies, especialmente o legado de Charles Darwin, parecem ainda não ter fecundado nossa moralidade cotidiana. Ou melhor, geraram, majoritariamente, o reforço de discursos antropocêntricos e desenvolvimentistas. As pesquisas deste naturalista inglês, cujas proposições poderiam enobrecer a relação da humanidade com o restante da natureza, dadas as torpes interpretações a elas fornecidas, fortificaram estes nefastos vieses.
Os modelos antropocêntricos e desenvolvimentistas majoritários no pensamento científico marcaram a interpretação comum do legado de Darwin. Sobre isto, diz a filósofa Mary Midgley (a citação é grande, mas como trata-se de um texto indisponível em Português, justifica-se):

“Há duas maneiras nas quais a ideia de evolução tem sido mal utilizada. Uma é a maneira otimista que fala que tudo está ficando melhor e melhor, e nós devemos ir juntos com isto – esta evolução é uma espécie de escada que pode nos levar à qualquer lugar. Esta era a visão de Lamarck e Hubert Spencer, não era de Darwin, mas as pessoas pensam que Darwin provou isto. Ele não provou. Mas se nós acreditamos nisto, isto produz uma crença no progresso, o que significa que qualquer coisa que façamos é melhor do que qualquer coisa que existiu antes, e nós apenas queremos mais. Mas a ideia de que o crescimento – por exemplo, crescimento econômico – é natural e requerido – é uma ideia mítica. Isto não pode estar certo, porque as coisas não crescem indefinidamente; elas crescem até estarem grandes o suficiente.(...) Darwin nunca usou a palavra evolução(...). E as pessoas acham que isto é Darwinismo, e que isto é uma grande descoberta científica. O que isto é, é mito, e se alguém disser que é um mito de criação, eu suponho que seja, no sentido de que é uma das histórias que diferentes culturas possuem para explicar porque as coisas são como são dizendo como elas eram antes. A outra grande má compreensão é uma que diz que o universo é regido pela competição hostil entre os indivíduos. Isto também não é Darwin. Herbert Spencer colheu isto do laissez-faire econômico do momento que dizia que tudo o que é preciso para o progresso é a competição selvagem. A ideia era que se você possui competição selvagem suficiente, finalmente as coisas ficariam certas. Mas esta é uma fantasia sobre como a vida foi feita, porque os organismos cooperam constantemente. Os pequenos pedaços em nossas células eram originalmente organismos separados, que começaram a trabalhar juntos. Se não houver um conjunto enorme de cooperações deste tipo, não se pode ter organismos de modo algum.”[1]

Retirando do pensamento de Darwin a interpretação centrada na competição hostil e no obrigatório progresso, o que sobra?
Darwin adicionou à antiga percepção da vida como eterna transformação, presente em pensamentos e práticas milenares, a ideia de seleção natural. Com os posteriores avanços da Genética, chegou-se à proposição de que cada novo ente nascido recebe informações genéticas de seus “progenitores” (pais e mães em animais sexuados, mas também por outros meios, incluindo os meios vegetais). Neste percurso ocorrem mutações nos genes, gerando características que não existiam antes. Estas mutações podem significar algo bom ou ruim para o novo ente. Isto é, podem ajudar ou atrapalhar a adaptação deste ente às condições ambientais e modos de vida possíveis em seu tempo e lugar. Se uma mutação trouxer benefícios, provavelmente o animal/vegetal será bem sucedido em sua sobrevivência e reproduzirá mais que os outros. À medida que mais gerações de entes forem nascendo com esta nova característica, permitindo maior adaptabilidade ao ambiente e maior facilidade de sobrevivência, criando a possibilidade de maior tempo de vida e número de reproduções do que os que não a possuem, tal característica tenderá a ser o padrão em tal espécie. Muitas mutações ao longo do tempo acabam criando uma nova espécie (quando os membros desta não conseguirem mais se reproduzir com os membros da espécie antiga). Novas espécies também são geradas por mudanças geográficas, já que em cada lugar, dadas as especificidades ambientais, características diferentes são benéficas, mutações diferentes são privilegiadas e entes diferentes acabam surgindo.
            Este conhecimento nos reposiciona no mundo: somos apenas uma das espécies que vêm surgindo e se transformando desde mais ou menos 3,7 bilhões de anos atrás, quando as primeiras bactérias parecem ter surgido. Compartilhamos ancestrais comuns com as demais espécies e com elas possuímos proximidade genética.
O processo de surgimento, transformação e extinção de espécies é, portanto, altamente complexo. Mais de 99% das espécies que já passaram pela Terra já foram extintas[2], e isso não se deve ao comportamento destrutivo humano (ainda que este tenha acelerado o processo nas últimas décadas). São bilhões de anos de surgimento e desaparecimento de espécies devido às incontáveis relações entre espécies e entre espécies e ambientes.
Entender que a vida é algo que se recria a cada momento de forma interdependente e que todas as espécies são partes igualmente importantes destas redes de conexões, nos leva a alterar valores[3]: o ser humano não é o centro do universo. Não somos a espécie mais importante da Terra. As outras espécies não foram criadas para nosso uso. Convivemos no mesmo momento da história da vida que todos os outros seres vivos atualmente existentes.
Somos todos partes de uma rede inacreditavelmente imensa de seres vivos, minerais, gases, água etc. que cumprem seus papéis nesse estupendo conjunto de relações que é a vida. Nenhum ser é independente ou mais importante que outro.
Esta compreensão deveria fazer desabar o edifício antropocêntrico e especista de nossas ciências e moralidades, mas parcela considerável da humanidade continua crendo que quem não possui o tipo de razão, linguagem e pensamento abstrato que possuímos não merece o mesmo respeito que nós gostamos de merecer.
Nós mesmos não somos apenas nós mesmos. “Cada um de nós é uma grande cidade de células, e cada célula, uma cidade de bactérias. Somos uma grande megalópole de bactérias[4]. Sem estas bactérias o organismo humano seria impossível. O que justifica nossa arrogância?
Quanto mais conheço sobre a história da vida no planeta, mais profundo fica meu respeito. É difícil para nós pensar na escala de tempo desta história. Bilhões de anos! Nossa mente não está adaptada para pensar nesta proporção. Pensar quantas espécies surgiram e desapareceram, quantas extinções em massa já houveram, quantas explosões de vida já ocorreram, quantas vezes a vida saiu e voltou totalmente para as águas. É difícil perceber o quão pequena é nossa participação nesta história (ainda que nosso poder destrutivo e criativo não seja nada pequeno), mas é preciso.
Para arquitetarmos nossos juízos éticos é importante ter em alta conta as incontáveis relações entre todos os seres vivos. Pensar que as mitocôndrias de nossas células já foram bactérias independentes (e até hoje possuem seus próprios DNAs, diferentes dos nossos), pensar em todas as relações entre bactérias e vegetais, como as do gênero Rhizobium, que permitem que as raízes das plantas absorvam nitrogênio da atmosfera e existam. É imensamente enriquecedor contemplar os incríveis e gigantescos processos de adaptações e relações, do nível dos genes ao dos ecossistemas. Conjuntos e mais conjuntos de relações.
Se esta magnanimidade não nos criar um profundo senso de respeito, não sei o que poderia criar.
Este maravilhamento, que parece ser o ponto de partida da filosofia, das ciências e das religiões, e esta noção – ainda que limitada - sobre tudo o que já ocorreu e continua ocorrendo para que a vida exista deveriam estar no fundamento de nossa moralidade no que se refere ao modo de nos relacionar com o mundo do qual somos parte.
As ciências deveriam, portanto, aumentar nossa consciência sobre o mundo para vivermos vidas pautadas em princípios mais nobres, dignos e respeitosos, e não o “conhecer para dominar”, tão típico destas áreas do pensamento humano.
Conhecer melhor a alteridade nos ajuda a sabermos como agir em relação a ela. Assim, no fundamento do processo de conhecimento há um profundo questionamento ético, e é mais do que urgente que fundamentemos e vivamos nossa dimensão ecológica de modo eticamente aceitável. Está aí o desafio para que nossas ciências percebam o papel nefasto que têm cumprido nos últimos séculos e religuem-se ao nobre papel do conhecimento na geração de sabedoria. Que nossas ciências possam sair das trevas da ignorância!



[1]
                        [1] Traduzido pelo autor de entrevista disponível em: http://bysheilaheti.blogspot.com.br/2010/06/interview-with-mary-midgley.html
[2]
                        [2] DAWKINS, Richard: Desvendando o Arco-Íris: ciência, ilusão e encantamento. São Paulo, Companhia das Letras, 2000, pp.107.
[3]
                        [3] A necessidade de alterar este tipo de valores, de nos recolocar no mundo, será novamente debatida no último capítulo deste livro.
[4]
                        [4] DAWKINS,Richard: Desvendando o Arco-Íris: ciência, ilusão e encantamento. São Paulo, Companhia das Letras, 2000, pp.27.

16 - Cuidados na união entre veganismo e questões ecológicas: o exemplo do discurso vegano sobre o aquecimento global


No ensaio acima, apresentou-se uma defesa da união do pensamento vegano ao pensamento ecológico, ou seja, a necessidade de pensar o veganismo de forma ecossistêmica, rompendo tanto com um individualismo estrito quanto com um coletivismo opressor. Faz-se, contudo, necessário expor um porém sobre alguns limites deste argumento, discernindo o que pode, aí, ser um tiro no pé.
Na segunda-feira de carnaval do ano de 2010, o climatologista do INPE Carlos Nobre esteve presente em um famoso programa de entrevistas, o Roda Viva da TV Cultura. Quando perguntado sobre as relações entre a pecuária e o aquecimento global, haja visto que os gases emitidos pelos animais, na concentração em que se encontram em criadouros, são associados ao fenômeno de forma até mais considerável que nossos meios de transporte e que parte considerável dos desmatamentos atuais possuem como objetivo abrir espaço para a criação de gado ou o plantio de cereais e grãos direcionados para a fabricação de ração, Nobre elencou com a maior naturalidade mudanças tecnológicas que diminuiriam a emissão de gases de efeito estufa para a atmosfera, além de outros impactos ambientais. Uma delas: aumentar a densidade de bois por hectare na pecuária extensiva (que é a praticada no Brasil). Outra: “aprimorar” geneticamente as rações e os animais para que estes cresçam mais rapidamente e possam ser mortos com menos tempo de geração de impactos. Ainda outra: em locais de pecuária intensiva, como no Japão e muitos locais da Europa, para diminuir a emissão de Metano, os animais ficariam confinados durante toda a vida em uma edificação fechada e todos os gases emitidos seriam canalizados para a produção de energia.
Aí está um cuidado a se ter quando se bate na tecla dos impactos ambientais da pecuária, um dos argumentos mais comumente utilizados para defender o vegetarianismo. Pode-se facilmente, se não houver cuidado, alimentar-se um tipo de discurso que será um tiro no pé a cada vez que a indústria agropecuária realizar alguma mudança tecnológica (e alardear-se como ambientalmente responsável por seu respectivo marketing em propagandas e notícias pelo mundo). Se a pecuária conseguir um dia neutralizar emissões de gases estufa e diminuírem os impactos da pecuária extensiva confinando o gado ao máximo em ambientes controlados, não só os veganos serão motivos de chacota, por terem tido seus argumentos quebrados, como terão feito um trabalho de marketing prévio dos problemas atuais resolvidos pela tecnologia do futuro próximo (e eles estão trabalhando seriamente nisto, não só porque é bom para o marketing ecológico, mas porque podem aumentar ainda mais os lucros da produção. Não é a toa que tanta tecnologia “verde” está sendo lançada).
Assistiremos assim à imposição de mais confinamento e sofrimento para os animais de forma que o público (como há tão pouca diversidade de opiniões na opinião pública) ache as medidas positivas, já que o gado começa a ser mundialmente reconhecido como um grande culpado pelo aquecimento global. Imagine poder comer seu bife sendo “ambientalmente correto”. Um prato cheio para o marketing.
Um comentário sobre o aquecimento global: se o aquecimento global por causa antrópica é um fato, é difícil ter certeza. As opiniões de especialistas divergem, ainda que haja um poderoso movimento global de defesa da ideia. Independentemente de haver uma causa antrópica para um aquecimento global, o fato é que ele se tornou mais uma agenda política e econômica do que uma questão ambiental. Questões ambientais concretas e existentes em todos os lugares, como poluições, desmatamentos, assoreamento de rios etc. são muito menos comentadas em noticiários, mídias de todos os tipos, ônibus, botecos e universidades do que o aquecimento global, estando elas em nossas esquinas, defronte aos nossos olhos.
É preciso divulgar todo o impacto que a alimentação centrada em partes de animais mortos gera aos ecossistemas, mas isto deve ser feito de maneira cautelosa, e não apenas pegando carona em problemáticas midiáticas, sob o risco de desvirtuar-se a importância ética do respeito aos animais e dar voz aos aproveitadores do “momento verde”.

Entender o Veganismo de forma ecossistêmica não é o mesmo que repetir acriticamente qualquer discurso existente sobre a questão ambiental sem atentar-se para quem está produzindo o discurso e quais podem ser seus objetivos. Por tudo o que foi dito aqui e mais acima, é preciso ficar alerta com as pretensões do ambientalismo.

15 - Ecoveganismo


Muito do veganismo atualmente praticado diz respeito ao boicote ao consumo de produtos advindos da morte ou exploração direta de animais e ao estímulo ao consumo de produtos que não tenham sido fabricados com partes de animais mortos, que não tenham sido testados em animais ou que não usem ou patrocinem o uso de animais como forma de entretenimento.
Um forte princípio que embasa o veganismo e as teorias sobre direitos dos animais vem do fato de que os animais são seres sencientes e, portanto, merecedores de respeito individual. O veganismo é assim de natureza muito diversa do ambientalismo, que possui bases coletivistas, focando-se nas espécies e ecossistemas, onde o que importa é o número de indivíduos, a “sobrevivência” da espécie, a exploração controlada da natureza (se a espécie não está em extinção, não há problema em matar seus membros). Se não pensamos deste modo em relação aos humanos, por que pensamos em relação aos outros animais? Para o veganismo, a questão não é se há ainda espécimes vivos de uma espécie ou se o número de seres mortos em um ano está dentro dos parâmetros legais para a manutenção da existência da espécie. Importa o respeito às necessidades específica de cada animal.
Há, portanto, um salto qualitativo dado pelo veganismo, ou pelas teorias sobre direitos dos animais, em relação ao ambientalismo: a passagem de uma visão de mundo puramente coletivista para uma que percebe aos entes concretos. O coletivismo, apesar de parecer algo belo, é, em realidade, uma visão de mundo homogeneizante e geradora de possíveis violências. Ditaduras, de direita ou de esquerda, são coletivistas, já que embotam a existência de entes concretos em nome do funcionamento do global, da massa. Um ambientalista que outorga a si mesmo o direito de falar quais animais podem ser mortos e quais não é um ditador. Este ambientalismo, assim, reproduz a visão de mundo geradora dos problemas ambientais: aquela que põe o ser humano no centro e no controle do mundo.
Contudo, na postura vegana de atenção aos indivíduos, há também um problema...
É igualmente fundamental respeitar os ecossistemas e os indivíduos. A própria oposição entre os dois já é problemática. Não há respeito a um sem respeito ao outro, pois são, em realidade, a mesma coisa. Todos os indivíduos da natureza dependem, para sobrevivência própria, das inúmeras relações ecossistêmicas nas quais estão inseridos. A vida é um infinito conjunto de relações que devem ser respeitadas tanto quanto o direito de cada ser de viver em liberdade de acordo com seus próprios interesses (mesmo que sejam interesses comuns de toda sua espécie). E mais: o “todo”, a “natureza”, não é algo que exista em si, como um ser autônomo. É o resultado da união dos entes e fenômenos individuais. É a relação entre todos os processos existentes. “Natureza” é uma abstração humana.
O termo “indivíduo”, etimologicamente o não divisível, também é uma abstração humana. O “indivíduo” é, na verdade, algo que só existe em relação, algo formado por incontáveis processos fluidos. É importante que durante a leitura deste texto se atribua este valor para o termo.
Assim sendo, não há como pensar em um veganismo, assim como em uma política, que seja plenamente individualista nem coletivista. É preciso uma ética cujos fundamentos sejam a interdependência e a coexistência. Nem indivíduos como centro do mundo (o que faz com que possam passar por cima dos interesses coletivos para atingir as próprias finalidades – ainda que o individualismo, numa concepção mais profunda, devesse levar ao respeito ao interesse dos demais indivíduos), nem coletivos como centro do mundo (o que faz com que se possa passar por cima de existências individuais para garantir a existência coletiva: fascismo político ou ambiental.).
Propõe-se aqui, assim, um Ecoveganismo. Veganismo no que se refere ao trato e respeito a cada animal como merecedor de respeito aos seus interesses específicos, como não passível de ser propriedade de outro ser, como merecedor de liberdade. “Eco” no sentido de que esta preocupação é inseparável da preocupação com aquilo que é coletivo por princípio, que embasa e possibilita a vida – e a qualidade da vida – de todos estes seres: este infinito conjunto de relações e transformações entre tudo o que há - seres vivos, minerais, gases, águas, dinâmicas de relevo, hídricas, atmosféricas, tectônicas etc. - ao qual chamamos, em nossos conceitos abstratos, de natureza.

Padrão Alimentar
A alteração de nossos padrões alimentares por motivações éticas, proposta do veganismo, vai além da retirada de ingredientes de origem animal dos pratos. Há, como apontado acima, outras questões de grande importância a serem consideradas.
Um veganismo de bases ecológicas passa por pensar naquilo que é prejudicial e destrutivo aos ecossistemas e toda vida que há neles.
Exemplos muito comuns daquilo que devemos nos preocupar, fundamentos de nosso modo de vida e de nossa maneira de produzir comida, são: extração de matéria-prima em escala industrial; monoculturas; latifúndios; agrotóxicos; geração de enorme quantidade de lixo industrial altamente poluente; uma cultura fundada na petroquímica; agrotóxicos; poluição dos solos, águas e ares com produtos químicos, tóxicos, sintéticos; geração de péssima saúde em pessoas que passam a usar medicamentos que geram ainda mais poluição, como excrementos humanos contaminados indo para solos, águas e ares; aniquilamento de diversidade biológica nas áreas de plantio e extração de matéria prima etc.
Estas são violências tão consideráveis aos animais e a toda a vida quanto outras contra as quais o Veganismo já se opõe. Expandir a prática vegana já consolidada passa por não atrelá-la ao consumo de produtos responsáveis por esta lista de desgraças. Um produto pode ser feito apenas de ingredientes vegetais e sintéticos, não sendo responsável pela morte de um animal específico, porém pode ser responsável pela destruição de ecossistemas inteiros: oceanos, florestas, rios, atmosfera etc. E, assim, claro, de um número incontável de animais.
Portanto, a escolha do alimento com base em preocupações de teor ético vai além de este conter ou não ingredientes de origem animal. É urgente que pensemos e coloquemos em prática formas diferentes de produzir e consumir nossa comida[1], tanto quanto é urgente pensar no que devemos ou não ingerir. É preciso transformar nossas fontes de produtos vegetais, geralmente estruturadas em grandes monoculturas com alto uso de agrotóxicos que destroem ecossistemas e espécies nativas inteiras mundo afora e ainda geram pobreza e desigualdade social. Não há como justificar que o alimento que mantém a vida de um necessite destruir a vida e a qualidade da vida de muitos. Precisamos de um padrão alimentar que respeite todas as formas de vida. Inclusive a nossa. O veganismo precisa, portanto, expandir-se.
A saúde humana é um tema rechaçado em parte significativa dos discursos de defesa do veganismo (ao menos do ponto de vista de quem coloca mais sua voz publicamente). Trata-se de um dualismo sem sentido se pensarmos nas questões levantadas acima. Aquilo que aumenta a possibilidade de doenças em nós é o mesmo que destrói o restante da natureza. São os mesmos ingredientes, aditivos e modos de produção. Alimentação industrial ou derivada de invenções industriais (como os agrotóxicos) impactam os ambientes e a nós mesmos em uma só tacada. Saúde humana, em uma visão interdependente, é uma preocupação ética e, inclusive, de ética animal, já que ao impactar ambientes, mata-se ou prejudica-se todos aqueles que neles vivem.
Não há espaço para falsas dicotomias em um mundo plenamente relacional. Não há espaço para divisões entre ética e ecologia, ética e saúde, saúde e ecologia, respeito aos animais não-humanos e respeito aos animais humanos.


[1]
                        [1] Agrofloresta, Agroecologia e Permacultura são práticas a serem mais estudadas e incentivadas.

14 - Por que não sou verde


Poucas coisas me parecem mais estranhas ao respeito que almejo em relação à natureza – essa ideia complicada - do que a defesa do verde!
Por que o verde? Basta uma mínima olhadela com alguma atenção para o mundo e sua pluralidade de cores e seres para estranhar-se com os verdes discursos ambientalistas.
Parece um argumentozinho bem mequetrefe este meu, não? Vejamos então o que se esconde por trás desta aparente beleza verdejante, desta onda verde, desta obrigação de verdejar a alma propagandeada pelo torpe Ambientalismo antropocêntrico e inebriante que aí se encontra como alicerce de grandes ONGs, ECOs92, RIOs+20 e grupos famintos por verbas para oficinas de educação ambiental.
Verde, nestes discursos, é meio ambiente, esta estranha abstração homogênea, tão irreal que pretensamente controlável, apta para nossa tutoria. Uma mancha verde no nada, quase uma pintura abstrata. Verde é uma beleza padronizada para sensos estéticos padronizados. Certamente não o molusco, não a matéria em decomposição, não o leão devorando a gazela, não a ave defecando sobre nossas cabeças, não o inseto que ousa zumbir no ouvido do ambientalista benfeitor.  Muito menos a vaca no matadouro, a galinha na gaiola ou o rato na gaveta de um laboratório.
O mundo não é só verde e a natureza não é meio ambiente. O mundo – com o limite da difusa impressão que podemos ter de algo tão geral quanto “o mundo” - é união de incontáveis processos de interdependências em incontáveis escalas, relacionados de incontáveis formas diversas. O verde é apenas mais uma – bela – cor, apenas uma escala de processos e cores em meio a incontáveis outras. É este pensamento ecossistêmico que, parece-me, deveria estar no fundamento de nossos modos de nos relacionar com o mundo. Em realidade, nos fundamentos da própria delineação daquilo que concebemos por mundo e por nosso lugar neste incrível absurdo.
Quando vemos o mundo como puramente verde? Quando vemos um lugar estando fora dele ou o vendo de cima. Se olhamos uma floresta de um avião, vemos, aí sim, aquela bela área verde. Se estamos dentro de uma floresta, também vemos muito verde (na verdade, muitos verdes), mas vemos os marrons, pretos, brancos, amarelos, laranjas, vermelhos.... Ainda, o mundo não é apenas floresta, é oceano, atmosfera, rochas, desertos (ok, puristas, areia também é rocha... e, ok, climatologistas, nem todo deserto é de areia)...
Esta forma homogeneizadora de ver o mundo é de fundamento dominador. É como um cientista que  reproduz o mundo num laboratório e o faz caber em seus próprios pressupostos, experimentos e categorias de análise.  Trata-se da construção de simulações de mundo. Simulações sempre úteis aos interesses de seus criadores. Quem se beneficia em reduzir a natureza apenas ao verde? A quais fins pode levar o ambientalismo convencional?
“Ah, então você é contra respeitar o verde?!” poderiam questionar alguns ambientalistas com dedos em riste... Oh mentes duais! Não poderia eu ser contra o verde, mas também não contra o marrom, o preto, o azul, o lilás ou mesmo contra sei lá que cores poderiam possuir – ou melhor, nossos específicos olhos humanos poderiam perceber - átomos, moléculas, bactérias, gases, relações, vontades, necessidades, intenções... no limite, todo o espectro incolor e, para nós, invisível. E quanta beleza existe no invisível, em todas as incontáveis relações que são o fundamento da existência, todos os infinitos processos que formam o que chamamos de natureza (o que chamamos de “coisas” na verdade são momentos de processos, de relações).
Em realidade, tenho verdadeira adoração por árvores, seus belos e tão variados troncos, suas frondosas copas, seus cipós – que, permito-me o antropomorfismo, lembram-me muitas vezes longas barbas de velhos sábios observando-nos com cautela -, suas formas curvilíneas e angulosas para além de qualquer geometria, suas incríveis texturas... Esta adoração inclui também pequenas folhas de relva, sementes em germinação em seu estado incrível de potência, pequenos brotos, jovens troncos ao sabor do vento... Meu apreço por vegetais é enorme. Estão as árvores entre minhas companhias favoritas. E neste momento posso ouvir defensores de direitos dos animais exclamando aquela famosa assertiva: “arrá! Mas isto é como defender animais por achá-los bonitos ou por te fazerem companhia, como nestes esquizofrênicos morais que protegem poodles e patrocinam assassinato em série de vacas! Ética não é estética! Nem defender apenas aquilo que te fornece algum benefício! Decida se concedes valor intrínseco ou valor instrumental!”.  Sim, eu sei que não são essas as causas do respeito que tenho pelos vegetais, mas... oh mentes duais...
Voltando... em que mundo vivem os que se apegam a um verde que exclui todo o não-verde? E, importante também questionar, em que mundo vivem os defensores de não-verdes que excluem e subjugam todo o verde? (encaixe “Ambientalismo” e “Direitos dos Animais” neste parágrafo como preferir).
Dualismos de resultados nefastos... Dualismos próprios a gritos de guerra, bandeiras, preenchimento de editais e manutenções obscuras de status quos, mas impróprios ao compartilhamento mais sábio do mundo.

Respeitar o verde, em suma, passa por deixá-lo ser apenas mais uma cor do incrivelmente múltiplo espectro da existência.

13 - O que é um rio?


O que é um rio?
O que é esta unidade, este “eu”, este objeto definido a que chamamos de rio tal ou rio tal?

Aprendi com a vida sobre a ilusão de um “eu” perene, fixo, essencial. Aquilo que chamamos de nosso eu – mas que raios é esse tal de Dennis? – é uma construção mental, uma eternização de elementos impermanentes, contextuais: memórias, pensamentos, projeções, humores, ambientes…

E o rio? Há um rio?
Não é uma ilusão um rio em si?
Não é um rio apenas um nome para a interdependência entre tudo o que o forma a cada momento?
Nunca tomamos banho no mesmo rio duas vezes
Quem nunca ouviu a máxima heraclitiana?

Não é o rio os peixes, águas, girinos, todos os tipos de animais, vegetais, fungos, bactérias, minerais e tudo o mais?
Não é o peixe o seu alimento, sua casa, seus hábitos?
Não são os elementos químicos que formam o peixe os elementos antes pertencentes a outros seres, a água, ao solo?
O corpo do morto peixe não será o corpo de novos seres?
Não comporá a água? Não comporá o solo?

Há um rio com peixe que não é peixe?
Há um peixe de rio que não é rio?


Indivíduo: palavra.

E o que é veganismo?
E o que é respeito aos animais?

12 - Detritívoros éticos

Somos onívoros! Somos onívoros! Assim nos dizem, nos martelam os livros, sob a tutela de humildes cientistas.
Há seres detritívoros e onívoros, além dos herbívoros e carnívoros.
Somos comedores de animais e vegetais, mas onívoros! Não como aqueles nojentos comedores de animais e vegetais que comem cadáveres, corpos em decomposição… os… urgh!!… detritívoros.
*
- Uai… há quanto tempo foi morto – assassinato qualificado, com requintes de crueldade – o boi de quem o corpo foi reduzido a este bifinho em vosso prato? Quanto tempo em frigoríficos, transportes, meandros da indústria da morte?
- Mas não!!! Conservamos o alimento com químicos e congelamento. Não os comemos podres! Somos onívoros! Argh!! Detritívoros…
- Mas onde começa o apodrecimento?
*
Não sei, mas sei de um apodrecimento que com certeza inicia-se ainda antes do abate: o apodrecimento ético. Este, sempre presente.
Cadaverina moral, talvez a substância mais presente nos organismos humanos.
Cadaverina que transforma decência em detritos.

Detritívoros éticos movidos a cadaverina moral. Eis a humanidade.

11 - O animal e a lâmina

Dia desses, utilizando uma famosa camiseta de ativismo vegano defronte ao espelho, após anos de prática vegana, percebi pela primeira vez que o reverso da palavra animal é lâmina. Lâmina!
(O acento foi colocado pela minha imaginação. Mas o que é um acento numa hora dessas?)
Uma bomba matinal para um vegano metido a escritor.
Deveria eu levar mais a sério os colegas dialéticos, para os quais o oposto de algo já está no algo, o aniquilando na geração de outro algo? Não sei... a lâmina está no animal, mas, normalmente, de início está apenas em um animal, que a faz, então, estar nos demais. É dialética quando a negação parte de um corpo diverso ao corpo que sofre a ação, mesmo que todos sejam, em realidade, partes de um mesmo todo - animais? Também não sei e, sabiamente, decido não prosseguir esta elucubração. Algo mais profundo chama-me: a imagem da lâmina, aniquiladora do animal, estar no próprio animal, o contrariando, lá, no íntimo de seu nome, arrebatou-me instantaneamente.
 O que é um nome? Apenas um conjunto aleatório de letras com a capacidade de diferenciar um objeto de outro nomeado por outro conjunto aleatório de letras?

*
Mantenho-me longos minutos arrebatado defronte ao espelho. Vem-me à mente uma tentativa de haikai:

Lâmina intrínseca
Subverte
O animal

Permaneço frente ao espelho contemplando palavras.
Ah, que espírito horrível o nosso, que contempla palavras enquanto a lâmina cai.
Uma palavra que traz em si, no seu oposto, o oposto de sua permanência: sua aniquilação, sua morte. Que força imagética!
E que patético, eu, humano, frente ao espelho, pensando em escrever poesia sobre lâmina, sentindo forças imagéticas. Restaria-me, se decente fosse, apenas jogar-me nos gritos que compõem nosso silêncio.

*
O que é esse conjunto de símbolos impressos, jatos de tinta, letras, em comparação com a lâmina real, afiada, aniquiladora de seres?
Ainda assim, a lâmina e a palavra lâmina existem. Coexistem.
Às vezes, algo comumente inerte, como um monte de traços numa folha de papel (que também é uma lâmina e por vezes afiada), nos desperta para a realidade da realidade, a vida da vida.
Às vezes.
A palavra jogou-me no abismo. Vívido pescoço, a palavra jogou-me no abismo, no teu abismo, no abismo do teu fim.

*
Sei que a morte e a vida não são apenas um par de opostos. Há muito entre a vida e a morte. Vivificamos e mortificamos. Mas há uma fronteira especial. A lâmina! A lâmina! Este horror que, comumente, semeia o veganismo, energiza o vegano.
O vegano que está agora defronte ao espelho. Olhar longínquo. O que vê, para além do espelho, para além de seu próprio pescoço, são pescoços bovinos, galináceos, suínos...
Todo pescoço animal possui em si o avesso da lâmina.
Saio então no aperto do horário, do espelho para a cozinha para o desjejum para o ônibus para a vida.
Minha vida animal. Enquanto a lâmina não me encontra.